“Assim como outros, fui convidada pela Paula para deixar um depoimento aqui. Não sei se já foi abordado o tema porque estou lendo todos os posts ainda, mas trata-se de convivência. Meu nome é Jamile, tenho 31 anos e moro em Brasília.
Meu problema auditivo foi causado por um erro médico, aos 8 meses de idade. Eu, bebê, com infecção urinária, não sarava com antibióticos que não paravam no estômago. O médico receitou então, aminoglicosídeos de uso adulto. Pesquisando, já adulta, descobri que podem causar ototoxicidade (danos progressivos na audição e surdez). Poucos meses depois, meus pais perceberam algo de diferente em mim, e descobriram a perda auditiva. Conclusão: perda bilateral neurossensorial profunda e severa.
Comecei a usar aparelhos desde pequenininha. Sempre estudei em escola normal, nunca aprendi Libras. Ia ao fonaudiólogo para melhorar minha fala e tentar aprender a ouvir sem ler lábios – o que não funcionou, já que leio lábios muito bem. Eu não gostava da escola porque as crianças eram cruéis, as mesmas crianças que passaram praticamente 10 anos comigo. Era um colégio bem pequeno, e minha turma nunca excedeu 20 alunos. Imaginava que a uma certa altura elas se acostumariam e nos tornaríamos melhores amigos, mas nunca aconteceu. Eu me sentia um alien.
No 2º grau tudo piorou, porque éramos todos adolescentes, em um colégio imenso de 10 turmas de cada ano, com no mínimo 50 alunos por turma. Eu os rejeitava, eles me rejeitavam, e eu nunca me senti tão isolada no mundo. Me olhavam torto e tratavam como se eu fosse uma deficiente mental. Eu os odiava, todos eles, alunos, professores, diretores, e nunca entendia porque me tratavam daquela maneira. Eram todos vilões. Passei anos e anos alimentando uma mágoa imensa de cada um deles.
Quando terminei o 2º grau e fui aprovada na Universidade de Brasília, fiquei vários dias em pânico, porque sempre ouvira dos meus pais que a universidade era a melhor fase das nossas vidas. Não queria passar mais 4 anos da minha vida completamente isolada. E então eu mudei a minha postura, talvez até inconscientemente. Não sei direito o que eu fiz, como agi, como me portei, mas tudo mudou. Em pouco tempo eu já havia conquistado a todos. Me tornei popular e inclusive fui presidente do centro acadêmico do meu curso (uma espécie de grêmio estudantil) e me vi rodeada de novos amigos que nunca me discriminaram. Pelo contrário, eu era o centro de todos eles. A universidade foi de fato uma fase linda e maravilhosa da minha vida.
Me recordo quando um dos meus grandes amigos me viu pela primeira vez, ele reparou meus aparelhos e veio me perguntar, sem nunca ter me visto, se eu era deficiente auditiva. E em seguida me bombardeou de perguntas da forma mais natural possível. Nunca me tratou diferente. Eu fiquei impressionada com a atitude dele. Isso nunca havia acontecido antes.
Depois de alguns anos percebi que parte do meu problema de convivência poderia ter sido a minha postura. Talvez não aceitasse minha condição de deficiente quando era mais nova e automaticamente repelia as pessoas. Talvez, quando somos crianças, somos mais difíceis mesmo, porque na universidade, convivi com jovens adultos. Mas essa lição serviu para toda minha vida. Deixei de me enxergar como vítima e de tentar me esconder e passei a me expor e fazer uso da minha deficiência de forma positiva.
Hoje, não tenho problemas em contar para as pessoas que uso aparelho, e pedir que elas não me telefonem, e sim, mandem sms, não tenho problemas em usar meu cabelo preso em rabo-de-cavalo, e não percebo nenhum comportamento discriminatório comigo. Pelo contrário, meus amigos e colegas de trabalho brincam muito comigo e adoram a possibilidade de eu conseguir desligar os aparelhos e ficar no absoluto silêncio quando eu quiser. Costumam dizer que me invejam por isso. Sempre faço concursos e aproveito a cota para deficientes, e entro em filas de deficientes quando estou com muita pressa. Uso os meus direitos.
As limitações sempre irão existir, como a Paula já citou por aqui, mas já não existem problemas de convivência, porque tudo depende da minha postura. Pessoas mal educadas existem, mas a grande maioria apenas não sabe como agir. Não é por maldade. Nunca fico brava quando alguém começa a falar comigo bem devagar e articuladamente, porque sei que só estão tentando ajudar. E quando você as ensina e as deixa confortáveis, seguras, elas se aproximam, elas relaxam. E então a deficiência auditiva se torna invisível.
Beijos!”
PS: Achei super inspirador. O nosso medo de rejeição é tão forte que na grande maioria das vezes somos nós mesmos que ‘rejeitamos’ as pessoas por antecipação. Se existe uma baita lição que a gente aprender por não escutar é a de conseguir deixar as pessoas se aproximarem, não ter pavor da sua curiosidade a nosso respeito e nem do fato de não saberem lidar direito conosco no início por pura falta de convivência com outras pessoas que também ouvem mal. Pra conseguir aproveitar a vida e tudo aquilo que a interação com os outros tem para nos oferecer (muita coisa boa, por sinal) nós precisamos estar abertos, não na defensiva. Não acham?



Adorei o texto, percepção de que a rejeição poderia ser de mão dupla. E sair dessa situação com a maturidade. Nem todo mungo consegue se ver com tanta clareza. Vou colocar uma chamada npo Blog Sulp.
Muito legal seu relato! Acho que a maioria de nós se reconheceu em (pelo menos) algumas de suas experiências. Bjs
Adorei o texto! Sei que é fácil falar… mas sempre citei aqui em quase todos os comments: atitude é tudo!
É a forma como nos colocamos que os outros nos veem.
Parabéns Jamile!
Fico feliz que você conseguiu amadurecer. Descobrir a si mesma e finalmente conseguir se socializar com os colegas da escola.
Eu também tive infecção urinária quando era bebê, nos rins. E tomei os antibióticos do tipo Bactrim. Mas nenhum médico ligou a minha surdez com uso do antibiótico, a causa é um mistério, mas desconfiam que possa ser a febre altíssima que tive, a qual também me trouxe outra lesão em alguns dentes.
Quando eu comecei a frequentar a escola aos 3 anos, a maior preocupação da minha mãe era a socialização. Por isso colocou uma psicóloga para me acompanhar todos os dias em sala de aula, chamava os coleguinhas e explicava para eles, convidava-os para conversarem comigo. Tudo isso porque eu era muito pequena para entender como era a minha condição, não tinha noção do quão diferente eu era das pessoas. Com o incentivo dessa psicóloga, fui aprendendo a lidar com as pessoas, conversar mais. E no fim eu me tornei uma pessoa muito falante que conversava com qualquer um que estivesse sentado no meu lado.
Acho importantíssimo descobrir a si mesma, aceitar a condição, porque tudo isso passa uma imagem externa para as pessoas. Se você fechar a si mesma, ninguém vai se aproximar a você, não conseguirão te conhecer melhor porque há uma barreira que os impede.
Claro que eu tive problemas com relacionamento com as pessoas durante a adolescência. Mas nunca culpei a minha surdez e sim ao comportamento egoísta que muitos adolescentes têm. Tendo isso em consciência, nunca achei que eu tivesse problemas e sim o problema eram as outras pessoas. Se parar para pensar, muitos ouvintes também passaram por problemas na adolescência, porque se você é diferente do grupo deles, não te aceitam pelo fato dos adolescentes estarem muito agarrados a um tipo de identidade e de auto-afirmação.
Enfim, parabéns pelo belo texto!!!
Obrigada pelos comentários, pessoal!!! =D
SôRamires,
É difícil enxergar com tanta clareza quando estamos completamente submersos em uma situação, não é? Tudo fica embaralhado. Eu posso dizer que tive sorte de superar, para então olhar para trás e dizer “Aaaaaahn, então era isso…”
Maria,
Adorei suas palavras! Sem dúvidas um psicólogo é essencial para nossa adaptação e convivência!! Que bom que deu tudo certo para você. No meu caso, todos meus coleguinhas já sabiam de cor e salteado tudo sobre mim, inclusive por ser uma escola bem pequena, mas não funcionou muito. Rs.
O importante é estarmos abertos, de fato!!
Um abraço a todos!!
Com certeza que o seu relato foi identificado pela maioria dos deficientes auditivos, porque suas histórias são semelhantes.
O mais importante de tudo é que o deficiente auditivo deve aceitar a própria deficiência e se amar mais. Ser autêntico e natural, além de ensinar as outras pessoas a serem mais tolerantes conosco.
Em seguida, descobrir seus talentos, suas habilidades, capacidades e habilidades. Trabalhar naquilo que tem paixão e o sucesso virá depois. Acreditem!!!
Deus abençoe a todos!
Beijos,
Paula, estou passando por uma experiência incrível!
Pq eu cresci com ouvintes, tb não sei libras. Estudei numa escola pequena, mas n fui discriminada, ja fui por fora da escola. Mas pouco sabe? Então, não tinha vergonha de mostrar o aparelho no colégio. Fiz grandes amizades. Mas tipo, o que eu percebo é o seguinte, na Bahia há muuuito preconceito em relação a isso (é minha opinião e eu sinto isso, posso sentir no fundo pq ja passei por isso). Então em São Paulo, graças a meu amigo de infância ouvinte conheceu uma galera surda, suuuuuper gente boa. Fiz muitos amigos surdos aqui em SP e todos sabem libras menos eu. Eu fico no meio da roda sem entender, mas eles traduzem pra mim. Então eu ja vim aqui em SP várias vezes, acho q umas 8 ou 9 vezes. Vejo que aqui tem menos preconceito, pq aqui em SP há muita mistura, mistura de todas cidades, tipos, etc sabe? Preconceito tem todo lugar. Mas estou falando que aqui tem menos que na Bahia. Isso é meu ponto de vista. Mas n falo pq to convivendo com galera surda, eu vejo que as pessoas não ficam nos olhando. Eles agem normalmente sabe? Na Bahia ficam olhando, com cara de curiosidade sabe? É o que vejo isso. Acho estranho. O que vc acha disso? Neste momento estou em SP curtindo com meus amigos surdos e agora estou aprendendo um pouco em libras, pretendo fazer curso de libras para poder me comunicar com eles, mas não exatamente por isso e sim quero aprender mesmo. To achando essa experiência incrível. Agora tenho amigos ouvintes e surdos. Antes era so ouvinte e hj tenho dois!
Que linda!
Superação!
Convivência focada!
Relacionamentos são td d bom!!
Nada como ser entendido e se fazer entender!
Parabéns, Jamile! Sucesso no trabalho!
Adorei o texto por isso compartilhei no meu face…Minha surdez foi depois de adulta mais ou menos 7 anos. Ainda tenho um pouco de dificuldade com saidas em grupos que acabo não entendendo quase nada o que as pessoas falam e fico com aquela cara de paisagem…rsrsr…mas to aprendendo…
Bjs
Que lindo!! Realmente, quando não é possível mudar o mundo, a melhor maneira de ver mudanças é mudarmos nós.
Eu não tenho grandes problemas de relacionamento, porque não me preocupa como a pessoa verá a surdez, me preocupa é o tipo de pessoa com quem estou lidando. Se for uma pessoa que valha a pena ter uma relação (profissional, de amizade, de parceria) certamente, a surdez não vai ser um problema, porque EU sou muito maior que as minhas cocleas!
Parabéns pelo lindo texto. Beijos
Olá! Li e concordo plenamento que se queremos mudar o mundo, devemos começar por nós. Taí um belo exemplo! A gente culpa sempre o outro, por ser mais fácil e também para se omitir. Parabéns, Jamile. Um forte abraço.
Texto lindo e verdadeiro com a realidade! Mas, muitas das vezes somos constrangidos e, com isto tento não me afetar.
Jamile, Parabéns pela atitude e abraços.
Queridas Karen, Lara, Samira, Magda, Lak, Janise e Fernanda,
Obrigada pelos comentários, pelo apoio, pelo carinho!!
Espero que todos nós possamos nos conhecer cada vez mais e mais. Como disse a Janise, é isso mesmo!! Há uma bela frase de Platão que diz “Tente mover o mundo – o primeiro passo será mover a si mesmo”.
O mais importante é tentarmos entender o outro também! Vejam só, se nós deficiente dificilmente conhecemos alguém parecido conosco, imagina os ouvintes…!! É impressionante o que muda quando simplesmente mudamos o olhar.
Pelo que percebi, a maioria não teve problemas de convivência, o que é uma coisa incrível!!! Mas também espero que aqueles que se sentem só possam ter essa reflexão e se abrirem para esse mundo maravilhoso!
Um beijo carinhoso