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A minha experiência com zumbido (tinnitus)

Foto: Shutterstock

O zumbido é a lembrança mais antiga que tenho da minha infância. Aos 5 aninhos eu já reclamava em alto e bom som:

Mãe, tem um apito no meu ouvido!

Decidi escrever sobre isso pois hoje estou com um zumbido infernal no ouvido direito. Quando acordei, ele estava assim: “uuuuuuuuuuu“. Depois, virou: “ihhhhhh“. Agora, está uma mistura dos dois, parece que estou no meio do mato numa convenção de cigarras histéricas. Haja paciência!

Só para vocês terem uma idéia, em 2010 estimava-se que o zumbido infernizava a vida de 278 MILHÕES de pessoas no mundo. 🙁

Como tenho zumbido desde que me entendo por gente, já estou mais do que acostumada com ele. Esse caso é muito diferente do caso de pessoas que subitamente se vêem acometidas por zumbido – lembro de um amigo que me procurou dizendo que achava que ia ficar louco por causa do barulho e estava entrando em depressão por isso.

Na minha época, ninguém sabia o que era esse ‘apito’ no ouvido. Lá pelos quinze anos descobri pesquisando na internet que em inglês isso tinha nome: tinnitus. Fui ao médico contar sobre minha descoberta, que ele desconhecia completamente. Voltei para casa e segui lendo tudo o que encontrava sobre o assunto.

No meu caso, o zumbido sempre foi um sintoma de perda auditiva – a grande maioria dos casos tem essa causa, aliás. Quando usava aparelhos auditivos, durante o dia eu costumava esquecer o barulhão interno mas, ao tirá-los à noite, o zumbido parecia estar 10x mais alto e mais irritante.

Lembro de dizer para minha mãe uma vez que eu nem me importava com a surdez (ó a negação rsrsrs), queria mesmo era me ver livre do zumbido. Dizem por aí que hoje zumbido tem cura, mas nunca conheci pessoalmente alguém que tenha sido curado. Acredito que o zumbido possa ser atenuado e que possamos fazer com que o cérebro tire o foco dele quando passamos a prestar atenção em outros sons. Falar em “cura”, acho que só para casos em que ele tem uma causa simples, como um ouvido entupido de cera, por exemplo. Se alguém foi curado, não deixe de compartilhar tudo conosco nos comentários deste post, por favor!

Tenho zumbido 24hs por dia nos dois ouvidos

Do lado direito, mais agudo, do lado esquerdo, mais grave – e tem dias que a ordem muda.

Quando fiz meu primeiro implante coclear, no ouvido direito em 2013, após a cirurgia conheci um zumbido que me deixou tão desesperada que precisei fazer uso de calmantes até a ativação. Chamo de ‘zumbido serra elétrica’, pois a sensação era essa mesmo, parecia que eu estava sentada ao lado de uma serra elétrica. Foi a primeira vez que achei que fosse enlouquecer de vez por causa do maldito zumbido. O barulho me deixava zonza.

Após a ativação do primeiro IC, o zumbido começou a melhorar. Melhorou muito, mas nunca desapareceu por completo. Ele continua aqui. Às vezes esqueço completamente dele pois enquanto uso meus IC’s o zumbido não existe na minha vida. Mas, ao desligá-los, ele está lá. Brinco que é o companheiro mais fiel que já tive, pois jamais me deixa só, rsrsrsrs 🙂

Algumas pessoas dão dicas como: ‘largue o álcool’, ‘largue o café’, ‘vinho tinto piora’. Na minha experiência, nada disso mudou meu zumbido. Porém, quando estou com os nervos à flor da pele e estressada, percebo direitinho como ele piora – parece que acompanha o meu nervosismo e aumenta, diminui, aumenta, diminui.

Um dos motivos que me levaram a fazer a segunda cirurgia de implante coclear foi que o zumbido do lado esquerdo continuava super power, enquanto o do direito já tinha melhorado demais e eu sequer o percebia enquanto estava de IC. Era bem chato ter uma audição maravilhosa de um lado, e de outro um zumbido que mais parecia um motor de Opala Diplomata esfriando.

Após a ativação do segundo IC, aconteceu a mesma coisa: o zumbido foi melhorando devagarinho até chegar no nível de melhora do direito. Mas eu não estou ‘curada’ e nunca vou estar, do mesmo modo como não deixarei de ser surda. A tecnologia me ajudou com as duas coisas, ainda bem! O implante coclear atenuou meu zumbido bilateral constante e eterno de um modo que jamais achei que fosse possível. Não é à toa que o IC hoje é indicado inclusive para casos de zumbido incapacitante.

A experiência mais bizarra que já tive com meu zumbido foram alucinações auditivas. Logo após a morte da minha mãe, talvez devido ao stress nunca antes experimentado (foi a primeira vez que alguém próximo morreu), tive meu primeiro episódio. Foi bem estranho. Senti como se alguém estivesse segurando meus pulsos enquanto dormia e depois gritasse nos meus ouvidos um “AHHHHHH” de 200dB! Foi tão assustador e desesperador que acordei com o coração saltando pela boca e passei duas noites em claro depois.

Tive outros episódios de alucinações auditivas durante o sono, mas meu cérebro já entendeu que são alucinações. Dormindo, ouço gritos que mais parecem de almas penadas, que começam baixinhos até chegarem num volume que sinto como se minha cabeça fosse explodir. É de arrepiar os cabelos, acordo tremendo. De vez em quando ainda tenho…

Minhas dicas

Não entre em desespero. Procure um otorrinolaringologista, de preferência um que tenha vasta experiência com essa questão. Busque tratamento antes de jogar a toalha, por favor!

Converse com pessoas que sofrem deste mal e estão acostumadas a ele, pois esse é um exercício que você terá que fazer: acostumar-se, em maior ou menor grau. Caso seu zumbido desapareça com diagnóstico e tratamento, isso será maravilhoso. Mas, caso isso não aconteça, essa é a única alternativa.

Procure algo que lhe faça relaxar. Como meditação, ioga, aula de alongamento. Tudo é válido.

Siga a vida! Treine o seu cérebro para prestar atenção em outros sons, use seus aparelhos auditivos, ouça música e não fique pensando obssessivamente sobre o zumbido.

As causas do zumbido

  • Perda auditiva (é a mais comum de todas!)
  • Uso de medicamentos como anti-inflamatórios e antibioticos
  • Doenças metabólicas
  • Alterações hormonais
  • Problemas cardiovasculares
  • Distúrbios psiquiátricos (ansiedade, depressão)
  • Distúrbios neurológicos
  • Problemas na musculatura e na coluna cervical
  • Maus hábitos alimentares
  • Disfunções temporomandibulares outros problemas dentários
  • Tumores da via auditiva

Leia mais sobre zumbido no Portal Otorrino.

33 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

4 Comentários

  • Tenho zumbido desde que me entendo por gente. Mas confesso que depois da cirurgia do IC achei que fosse enlouquecer. Passei 2 semanas com uma serra elétrica na cabeça que não parava nunca e que as vezes conseguia ficar pior…. Depois da ativação só percebo quando tiro o IC ou quando estou estressada. Até do OE que não é implantado não percebo muito durante o dia.

  • Achei seu post corajoso, você expôs o problema de forma franca e prática.
    Não sou deficiente auditiva, mas sempre estou por aqui aprendendo como viver com coragem, apesar dos obstáculos.

  • Amei seu posto, Obrigada por compartilhar com a gente. Eu tenho zumbido tbem, mais e quando não durmo direito que incomoda muito. Sou deficiente auditiva desde dos meus 7 anos e comecei a usar aparelho com 11 anos. Continua nos explicando sobre a surdez estarei acompanhando.

  • Muito bom,como fico feliz com pessoas solidárias,que dividem seus problemas,me sinto elas,bom saber que não estamos sós,hj por exemplo o meu zumbido do ouvido direito está a 1000,tem hr que dá vontade de sumir até o barulho passar,mas tem hr que lembro que tenho esse zumbido.Existem males piores,acho que cada um tem que acostumar com sua cruz e seguir em frente!

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