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Aparelho auditivo discreto e invisível – minha opinião

Foto: Shutterstock

Quem conhece minha história sabe que fui uma adolescente que escondeu a própria deficiência auditiva até onde pôde. Que não quis usar aparelho auditivo porque sentia vergonha; que perdia tempo e energia tentando disfarçar o fato de que ouvia mal. Que se ofendia se fosse chamada de surda; que chorava sozinha todas as noites.

Quando decidi sair do armário da surdez também decidi que não queria mais saber se nada que remetesse à isso. Os tempos de vergonha e de esconder minha deficiência tinham que ficar para trás a todo custo para que eu tivesse forças para seguir em frente.

Mesmo mais forte com esse processo, foi duro para mim sair dos aparelhos auditivos intracanais e ir passando por cada um dos tamanhos até chegar nos maiores retroauriculares de todos. Não pelo tamanho, mas porque a cada AASI maior, mais surda eu estava. E a surdez progressiva era difícil de engolir, era sofrida e me machucava demais. Naquela época, nem tinha com quem dividir meu desespero, era eu comigo mesma.

Passei nada menos do que três décadas perdendo audição. O dia em que percebi que não ouvia nada ao lado de um aspirador de pó ligado é que fui entender a dimensão do problema que precisaria enfrentar pelo resto da minha vida. E aquilo me assustou de um jeito que nem sei explicar! A única coisa que conseguia vislumbrar a respeito do meu futuro era silêncio. Um futuro sem som era como um quadro estático num museu: cheio de beleza, mas triste.

Escrevo o Crônicas da Surdez há 7 anos. Nesse tempo, o que mais recebi foram mensagens de pessoas que estavam vivendo essas fases que vivi na minha adolescência e início da vida adulta. Eu sabia como as pessoas que me escreviam se sentiam. Eu também senti vergonha, pavor, medo – tudo junto e misturado. E eu também joguei toda a conta desse mix de sentimentos assustadores na conta dos aparelhos auditivos. Também rezei por AASI’s invisíveis, também quis poder comprar o top de linha quando não tinha dinheiro para isso, também achei que o discreto me pouparia de mais sofrimento.

Comprei muitas brigas por causa da questão dos aparelhos auditivos ‘invisíveis e discretos’. Fiquei conhecida por ser uma pessoa que pintaria seus AASI’s e IC’s de dourado se pudesse. Vi com meus próprios olhos o poder da representatividade – nada conseguia me tocar mais do que uma criança apontando para os meus IC’s e dizendo ‘mãe, quero um igual ao dela‘. Quando isso acontecia, a sensação era a de que todos os anos de sofrimento tiveram um propósito.

A gente envelhece, a tecnologia evolui, as coisas vão ficando cada vez menores. Não tem como fugir disso. Almoçando com uma amiga esses dias e conversando sobre  o assunto deste post, ela me fez uma pergunta que me fez repensar minha atitude:

“Bem, então se você é contra qualquer dispositivo discreto e invisível, você é contra pessoas que usam lentes de contato para corrigir a visão!”

Esse argumento me quebrou ao meio. Vi que já fiz comentários rudes do tipo ‘não existe nada mais patético do que querer esconder sua surdez‘. Eu já escondi minha surdez e, naquela fase do processo, não me sentia patética. Me sentia nua, desprotegida, assustada e com medo – de tudo, de todos, dos olhares, de qualquer possível comentário.

Esse post é um mea culpa.

O que importa para mim, como alguém que já conheceu e enfrentou TODOS os graus de deficiência auditiva e já usou TODOS os tamanhos de aparelhos auditivos e implantes cocleares, é que aqueles que me procuram atrás de força para enfrentar isso encontrem acolhimento. Quero que todos que conversem comigo ou me mandem mensagens sobre esse assunto se sintam abraçados, confortados e acolhidos. Foi para isso que criei esse espaço.

Quando vejo propagandas de AASI e IC focando somente nas palavras ‘discreto’ e ‘invisível’, ainda me sinto incomodada – não vou mentir e não tenho personalidade para ficar em cima do muro. Às vezes o produto tem funcionalidades sensacionais e é resumido a isso. Mas, tudo bem, faz parte do jogo – talvez seja a indústria tentando acolher, da sua forma, os consumidores que estão nessa fase do processo.

Que fique registrado que sou pró reabilitação auditiva. Sou pró qualidade de vida. Sou pró-audição, seja ela qual for, no grau que conseguirmos ter. Se você buscar reabilitação auditiva, saiba que para mim é isso que importa, e não se o seu AASI é pequeno, grande, invisível ou rosa. Quero que você seja feliz, que você se aceite, que você escute o mundo como conseguir e que faça isso da maneira que for mais confortável e adequada para você.

O Crônicas da Surdez me proporciona a experiência de ser uma espécie de porta-voz das pessoas com deficiência auditiva usuárias de tecnologia para voltar ao mundo dos sons. Sinto muito orgulho e gratidão por isso. Aos 35 anos, sou obrigada a amadurecer e perceber que a tecnologia evoluiu, o mundo mudou e é mais importante que alguém use um AASI discreto do que não use nenhum. Não posso, não devo e não quero julgar ninguém, especialmente pelo tamanho ou discrição do seu aparelho. Se você tiver indicação para usar e o fizer, nada poderia me deixar mais feliz e orgulhosa de você do que isso! 🙂

Seguirei usando esse espaço para trazer toda informação possível para vocês que me acompanham e não farei mais nenhum tipo de julgamento a respeito disso. Adoro glamourizar meus implantes, adoro mostrá-los e adoro me divertir com eles expressando a minha personalidade quando os personalizo de acordo com meu humor do dia. Mas essa sou eu.

Você tem outra visão de mundo, outra família, outros amigos, outros colegas de trabalho, outra personalidade, outras vontades, outros valores, outros desejos. O que quero que tenhamos em comum é a busca por qualidade de vida, por independência e por coragem para correr atrás dos nossos sonhos! Nessa caminhada da surdez, já aprendi e comprovei que juntos somos milhões de vezes mais fortes, por mais cafona que essa frase soe.

Entendo completamente que às vezes uma coisa simples – como um AASI menor ou um IC que não aparece – tem o poder de transformar o peso de uma experiência doída em leveza. E acho isso maravilhoso!

Nem todos vão querer escancarar sua surdez, nem todos se sentem confortáveis para falar com estranhos sobre ela, nem todos sabem lidar com os olhares curiosos na rua, nem todos têm vontade ou ânimo para pensar sobre a deficiência auditiva todos os dias.

Brinco que a minha missão é salvar o mundo uma orelha por vez. E é isso que pretendo continuar fazendo, tendo essa orelha aparelho auditivo pequeno, médio, grande, discreto, indiscreto, invisível ou cheio de luzes coloridas. Você precisa se sentir bem com aquilo que usa – e por favor nunca esqueça que não basta ser discreto, precisa atender as suas necessidades auditivas acima de qualquer coisa.

Ser anti-discrição não me interessa mais – daqui para a frente, meu empenho seguirá sendo apenas o de apoiá-los da maneira que for melhor para que vocês percorram seus caminhos de cabeça erguida e AASI ou IC em pleno funcionamento.

Quero ser feliz, quero que vocês sejam felizes e quero que todos nós tenhamos coragem de usar essas tecnologias maravilhosas que nos devolvem o som dentro do possível.

Estamos juntos nessa. Contem comigo. Sempre!

61 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

3 Comentários

  • Oi Paula!
    Como minha vida teria sido mais leve, se quando percebi minha surdez, por volta dos 10 anos, tivesse me deparado com pessoas que tivessem um mínimo de conhecimentos sobre o assunto. Tudo sempre foi muito difícil, sentia muita vergonha por ser surda, até mesmo me sentia culpada por isso.Tempos depois, já na idade adulta, sentia vergonha de usar AASI. Sempre tentei esconder o máximo que pude. Hoje, aos 65 anos, sou bi implantada (há 3 meses) e devido as tuas crônicas que sempre nos trazem um grande alento e também a outros blogs que tratam deste assunto com muito carinho e respeito é que me sinto parte de um grupo, de uma sociedade, pois até então, me sentia diferente, limitada e com complexo de inferioridade. Só agora tenho a sensação de estar incluída num universo de pessoas que realmente me entendem e isto é maravilhoso. Parabéns por ajudares tantas pessoas!
    Um abraço carinhoso!!!!

  • amei seu comentario e suas experiencia sofro dessa deficiencia tambem e prucuro ser feliz da melhor maneira possivel tambem, nao é facil mais eutou tentando a cada dia ser mais forte a anos espero por uma cirurgia no hospital geral de fortaleza, mais ate agora nada. me chamo meire bacelar

  • Estimada Paula,
    Parabéns pelo belíssimo texto sobre AASI visíveis ou não…Mais uma vez alí está a Mulher Coragem inteira a nós incentivar a enfrentar as nossas deficiências..
    Um abraço

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