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Aparelho auditivo para surdez unilateral

‘Ele não sabe dizer ao certo desde quando é surdo do ouvido direito. Apenas se lembra de que um dia, quanto devida ter uns cinco anos, foi muito zoado na escolinha porque não conseguia acertar na brincadeira de telefone sem fio.  Sua mãe, desconfiada de que havia alguma coisa errada com ele, resolveu testá-lo: confidenciou em seu ouvido, que em cima da mesa da cozinha havia um chocolate para ele. O então garotinho ficou indiferente à notícia. Quando lhe falou o mesmo no outro ouvido, a reação que esperava: ele saiu correndo para pegar o que lhe era de direito. Ao contrário do que ela pensava, o filho não ‘ouvia apenas quando queria’.

O publicitário e empresário Guto Leirião, hoje, tem 41 anos e possui perda auditiva neurossensorial profunda do ouvido direito. “Claro que passo por saias justas por conta da surdez. Não consigo conversar enquanto estou dirigindo se a janela estiver aberta, por exemplo. Tenho dificuldades para ouvir em ambientes públicos e, dependendo do lado em que me sento no cinema, ou no restaurante, fico alheio ao que está acontecendo. Mas isso sempre fez parte da minha vida. Não sabia o que era ser diferente e acabei desenvolvendo métodos para lidar com essa limitação, sempre usando de bom humor.”

Pela lei em vigor, Guto não é considerado portador de deficiência e, em tese, não se sentia assim. “Na minha memória, sempre ouvi deste jeito. Talvez por isso não percebesse o quanto o outro ouvido faz falta no meu dia a dia,” explica. “De vez em quando minha esposa reclamava que eu estava ouvindo a TV muito alta, mas sempre achei que fosse exagero dela.”

Isso mudou quando foi convidado pela Signia para experimentar um aparelho auditivo CROS, uma novidade da marca voltado para quem tem perda unilateral. “Fui fazer o teste desacreditando que perceberia a diferença entre ouvir sem e ouvir com o aparelho”, admite. “Também tinha receio de ouvir robotizado, ou com atraso – que eram os argumentos que os médicos utilizavam quando minha mãe perguntava sobre a possibilidade de utilizar uma prótese auditiva. Carreguei essa informação para mim pelo resto da vida e por isso nunca cogitei utilizar um aparelho. Nunca fiquei tão feliz de estar enganado”, afirma.

Nesta entrevista concedida ao portal Deficiência Auditiva, Guto revela um pouco sobre como foi a sua experiência com o aparelho. “De repente eu estava ouvindo tudo com riqueza de detalhes e, ainda por cima, podia atender ao telefone sem usar as mãos, ajustar o volume da TV de maneira independente. Mais do que ouvir, eu me senti um verdadeiro ciborgue!”. Leia mais a seguir:

quanto tempo você tem perda unilateral?

Não sei exatamente, o que sabemos é que, com mais ou menos 3 anos de idade, minha mãe percebeu que eu tinha alguma dificuldade em compreender algumas coisas, mas não conseguia diagnosticar perda auditiva unilateral, apenas que eu “só ouvia quando queria”. Ainda muito pequeno eu já fazia vários exames auditivos (lembro inclusive de ter muita dificuldade na brincadeira “telefone sem fio”).

Quais as limitações deste tipo de perda na sua qualidade de vida?

Uma das minhas maiores limitações é a falta de localização. Para mim, tudo está do lado esquerdo. Se alguém me chama do lado direito, que é o lado em que não escuto, geralmente não a escuto. Mas se acontece de eu ouvir, eu me viro para o lado oposto de onde a pessoa está. Por várias vezes tive de me explicar porque eu estava ‘virando a cara’ ao invés de atender ao chamado da pessoa – o que me prejudica, sobretudo, no ambiente de trabalho.  Muitas vezes também tenho problemas de sociabilização:  numa roda de amigos, eu fico totalmente alheio ao assunto. Também tenho dificuldades em ouvir em ambiente ruidoso, como salas amplas, feiras, congressos, bares e restaurantes. Não consigo ouvir dois ou mais sons diferentes ao mesmo tempo. Numa sala de aula, por exemplo, se alguém ou alguma coisa estiver emitindo um som que seja igual ou um pouco mais alto do que o que estou focado, eu simplesmente não consigo “filtrar”.  Ao dirigir também tenho dificuldades:  qualquer sinalização sonora que houver no lado direito, será percebida com atraso ou nem será percebida.

Você já havia experimentado alguma prótese auditiva anteriormente?

Nunca. Na verdade, quando eu era pequeno e minha mãe perguntou sobre a possibilidade de utilizar aparelho auditivo, os médicos explicaram que, como eu ouvia muito bem do outro ouvido, o aparelho talvez me atrapalhasse, tornando o som robotizado ou com atraso. Foi algo que carreguei pela vida inteira. Por isso nunca cogitei a possibilidade de usar um aparelho auditivo, mesmo depois de adulto. Além disso, nenhum especialista pelo qual passei sugeriu algo do tipo. Acabei me conformando com a situação.

O que você sentiu quando experimentou o CROS? 

Primeiro preciso dizer que fui fazer o teste completamente cético de que sentiria alguma diferença. A tecnologia do aparelho é tão sofisticada e sutil que não percebi, num primeiro momento, que ele tinha sido ligado. Quando, alguns segundos depois, percebi que estava respondendo às perguntas que a fonoaudióloga estava fazendo do meu lado direito, sem precisar virar o rosto, foi como se eu passasse a fazer parte de um mundo completamente diferente. Foi impossível resistir à emoção. O deficiente unilateral não se sente como deficiente, tampouco tem a noção de como ouve diferente do resto das pessoas (não temos parâmetros para explicar ou mesmo tomar consciência de que ouvimos “errado”). Sem contar que o aparelho me trouxe uma melhora significativa na qualidade de vida da minha família: não preciso aumentar o tom de voz ao conversar no telefone ou  o volume da televisão, também consigo entender que meu filhinho pronunciou uma palavra de forma correta ou errada, possibilitando que eu o corrija ou o parabenize sem medo de estar equivocado.

Os acessórios que experimentou trouxeram algum beneficio adicional? Quais foram eles?

Foi aí que o CROS, mais do que me fazer ouvir, fez me sentir um ciborgue. Os benefícios que ele traz são acima do esperado. Quando somos apresentados ao aparelho auditivo, nos sentimos incluídos (passamos a ser como as outras pessoas). Mas quando somos apresentados aos acessórios, nos sentimos super poderosos (neste momento estamos um nível acima das outras pessoas).  De uma hora para outra, podemos atender ao telefone sem manusear o aparelho, e com uma nova realidade, podemos ouvir ao fone sem nem mesmo atrapalhar uma conversa ao vivo! Além disso, ganhamos superpoderes: podemos, por exemplo, ouvir a uma palestra com muito mais clareza, mesmo quando estamos no fundo de uma sala. Basta ajustar o aparelho e colocar a lapela na mesa do interlocutor.

O que você diria para as pessoas que, como você, também apresentam perda unilateral?

A única coisa que me ocorre é: permita-se conhecer esta nova realidade e não tenha medo de fazer parte deste novo mundo. Você não precisa ser surdo para sempre.

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Sobre a Solução CROS

Soluções CROS / BiCROS da Signia ajudam as pessoas que são afetadas por uma perda auditiva unilateral não amplificável. O som é captado por um microfone do lado da orelha surda e é transmitido para a outra orelha, que também tem um aparelho auditivo. Para aqueles que têm perda auditiva completa em uma orelha, mas audição normal na outra, o sinal é simplesmente transmitido de um dispositivo para o outro – isso é chamado de solução CROS. Se houver perda de audição na outra orelha, os sinais de ambos os lados são tratados para permitir a melhor audição possível. Isso é chamado de uma solução BiCROS. Saiba mais sobre a Signia em signia-ouvir.com.br

20 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

8 Comentários

  • Boa noite amigos, fiquei com surdez unilateral a mais ou menos uns 15 dias depois que fui infectado pelo virus da cachumba, fui em alguns especialistas e me indicaram primeiro o uso de corticoides, casa não de certo o tratamento vou fazer o implante do aparelho e logo conto como foi minha experiência, espero que eu possa ajudar vocês e tbm me ajudar

  • Tenho perda neurosensorial profunda no ouvido esquerdo, ocorrida na infância. Neste ano fiz os testes com aparelhos do tipo CROS (BAHA e Ponto), fora a primeira boa impressão ocorrida na sala da fonoaudióloga, em todas as outras situações dinâmicas de audição o resultado foi um desastre.

    O problema é que a audição continua sendo mono. Os aparelhos do tipo CROSS só me “auxiliaram” nas poucas situações em que eu não precisaria dele: conversa com uma única pessoa em uma sala sem ruído e com baixa reverberação.

    A situações em que encontro dificuldades são aquelas em que a audição estéreo se faz essencial, como vários falantes ao mesmo tempo, presença de reverberação e ruído de fundo: restaurantes, auditórios, salas de reunião. Ou seja, qualquer evento social. Nestes casos os aparelhos CROSS apenas pioraram o problema, captando ainda mais ruído do ambiente (o som deles parece de rádio de pilhas) e sobrecarregando meu ouvido funcional ainda mais.

    Como já demonstrado em estudos realizados na Alemanha e no Canadá, a única forma de reabilitação realmente efetiva para a surdez unilateral neurosensorial parece ser o implante coclear.

  • Vou fazer o teste aqui em Vitória daqui a 2 semanas!! Depois venho aqui contar 😀 (sou surda unilateral ouvido esquerdo)

    • Não sei como funciona direito o aparelho, mas vc não consegue ajustar o som? Como por exemplo : abaixando o som ambiente? Assim poderia ouvir mais a “fala” das pessoas

  • Eu tenho perda deverá no direito e moderada no esquerdo. Fui lendo o relato dele e me identifiquei bastante com o que ele passou. A gente ouve os sons, mas não entende as palavras com Clareza, não sabe de que lado o som tá vindo.. enfim, é muito chato mesmo. Que bom que ele resolveu bem com o aparelho.

  • Paula fiquei muito emocionada ao ler o relato da vida do Guto parece q estava vendo a história do meu pequeno Gabriel com 11 anos no futuro ele tem perda neurossorial profunda só que no ouvido esquerdo, sabe Paula gostaria de sabe se não existe como conseguir que uma pessoa com deficiência em só um ouvido possa ter os mesmos direitos, pois como relata o Guto é exatamente assim que sinto meu Gabriel existe sim uma limitação com essa perda se não houvesse nós não teriamos dois ouvidos, dois olhos…é pq um precisa do outro para se completar então penso que só quem tem um problema assim ou convive com alguém q tem sabe que não é real essa fala “a mais você ouve bem do outro lado”…nossa isso me incomoda muito pq sei que isto faz muita diferença, vou pesquisar sobre este aparelho e Paula se vc puder me ajudar vc sabe como ter mais informações sobre este CROS? sabe são histórias de vida como a do Guto e a sua que nos ajudam muito, um grande abraço aos dois q que Deus os abençoe sempre.
    Marly Queiroz.

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