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Campanha “Telefone TDD não é acessibilidade para surdos”

Você certamente já se deparou com um ‘0800 para deficientes auditivos e da fala‘, o famoso telefone TDD. Essa geringonça dinossáurica, que só tem utilidade como peça de museu,  é vendida até hoje no Brasil como sendo a grande ferramenta de ACESSIBILIDADE para surdos. Sim, você leu direitinho. Não, não é uma piada – é a legislação vigente. Qualquer banco, instituição financeira, concessionária de rodovia e outros locais públicos e privados que se dizem acessíveis oferecerão isso como acessibilidade. Os Correios estão divulgando essa ‘novidade’ e se declarando super acessíveis aos surdos por causa dela. É pra rir ou pra chorar? Se você não escuta, meu amigo, é pra chorar. E, depois, comprar a briga pelo fim dessa inutilidade.

Como funciona o dinossauro, digo, telefone TDD? Vejam só! Em vez de disponibilizar um número para o qual qualquer surdo possa mandar um SMS ou um WhatsApp de qualquer lugar onde estiver – em pleno ano de 2016 todo mundo tem um telefone celular – disponibilizam um telefone caro e inútil, que precisa de intermediários para fazer uma coisa básica e ridiculamente simples como enviar uma mensagem.

A melhor descrição que encontrei na internet sobre como essa inutilidade funciona foi num link antigo:

O dispositivo chama-se Telecommunications Device For The Deaf (TDD) e custa aproximadamente R$2.000,00. Trata-se de um telefone público comum, que é acoplado à um aparelho de teletexto. O surdo retira o telefone do gancho, coloca no aparelho teletexto e disca para a Operadora de Telefonia. Uma atendente então faz o serviço de intermediação entre um deficiente auditivo e uma pessoa ouvinte. Ela saúda o surdo através de uma mensagem de texto. O surdo então digita o que ele quer dizer e a operadora então diz para a pessoa do outro lado da linha o que o deficiente auditivo “falou”. Em caso de resposta, a mensagem é transmitida pela operadora em mensagens de texto para o surdo. Este sistema permite que o surdo faça ligações telefônicas e se comunique com pessoas ouvinte de modo simples e ágil.”

Não sei vocês, mas eu senti vontade de me atirar da janela depois de ler isso…

  • O negócio é do tamanho de um laptop
  • foi criado em 1964 (!!!!)
  • custa os olhos da cara
  • só faz UMA coisa
  • não é portátil
  • não conecta com a internet
  • custa R$2.565 reais no Brasil
  • precisa de duas pessoas e dois desses para enviar uma mensagem.

Socorro. Tá bom ou quer mais? 🙂

Acessibilidade diz respeito a recursos que são grátis (ou ao menos muito baratos), de fácil acesso e disponíveis 24hs em qualquer lugar. A única vez em que vi um negócio desses ao vivo e a cores foi no aeroporto de Santa Maria, num canto, jogado às traças, cheio de bichos e sujeira, sinal clássico de falta total de uso. O pior é que não é nem a falta de uso, mas a falta de utilidade.

Eu sempre senti raiva disso, mas ontem foi a gota d’água. Eu estava na rodovia que liga Cabo Frio ao Rio de Janeiro, quando me deparei com várias placas avisando que a rodovia tinha telefone TDD caso algum surdo precisasse entrar em contato. Liguei de curiosa. Da primeira vez, deu uma mensagem dizendo que o número não existia. Liguei mais 3x e o telefone tocou, tocou, tocou…e ninguém atendeu. A geringonça deve ficar numa sala na qual ninguém entra, já que certamente jamais houve um telefonema.

Imaginem a cena: se eu tivesse me acidentado à noite e estivesse sozinha no carro e presa nas ferragens com meu celular no bolso. A legislação me obriga a me deslocar até algum lugar que tenha telefone TDD (onde seria isso no meio da estrada, meu deus?) e entrar em contato com alguém, isso se eu tiver a sorte de atenderem o telefone do outro lado da linha.

Qual a alternativa mais simples e certeira para alguém que tem um celular no bolso? Um número que eu possa ligar, mandar SMS ou chamar no WhatsApp. Agora me digam: qual é a dificuldade, meu povo? Telefone TDD em 2016 é o mesmo que, em vez de rampa de acesso, dizer ‘temos pessoas para pegar cadeirantes no colo quando for necessário‘. Pelo amor de Deus, como é possível que o poder público e as pessoas em geral não enxerguem e não se revoltem contra isso?

Já perdi as contas de quantas vezes precisei de algo do banco e fui direcionada ao ‘0800 para deficientes auditivos e da fala‘. Acontece que eu não tenho um telefone TDD, e esse 0800 especial só funciona para quem tem um. Acontece que eu jamais compraria isso. Acontece que é uma falta de respeito e FALTA DE ACESSIBILIDADE querer obrigar um surdo a se adequar a uma tecnologia dos anos 60. O grande problema de não chamarem surdos oralizados para as reuniões que envolvem interesses dos surdos em geral é esse: ficamos de fora e nossas necessidades não são conhecidas porque não somos ouvidos. Nem mesmo para os surdos sinalizados o telefone TDD é útil.

telefone-tdd

Abro hoje aqui a campanha TELEFONE TDD NÃO É ACESSIBILIDADE PARA SURDOS. Participem espalhando pelas suas timelines, deputados, senadores, CONADE, etc. Não vamos esperar até sofrer um acidente numa estrada à noite, precisar cancelar um cartão de crédito num final de semana, ter que pedir socorro para polícia e bombeiros em emergências ou qualquer coisa parecida para acabar com essa humilhação. Para mim, chega. Somos surdos, sim, mas existe tecnologia grátis e suficiente para não precisarmos de intermediários quando se trata de acessibilidade. Ajudem a espalhar essa campanha! Conto com vocês!

46 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

11 Comentários

  • E vocês não acreditam: é obrigatório mesmo fora do Brasil.
    Estou traduzindo um material de uma grande montadora de carros norte-americana e eles dizem, num documento voltado para a América Latina, que: “O Fornecedor deve ter um TDD funcionando em cada local do Centro de Atendimento. O TDD deve fornecer aos Clientes da [NOME DA MONTADORA] o Ponto de Atendimento de Segurança (PSAP).”
    Tõ besta que isso seja obrigatório.
    Solidariedade com vocês, aí 🙁

  • Tentei com o site do Deputado Atila Nunes( membro da defesa do consumidor ) Reclamar Adianta , mas ta complicado, pois parece nao ser o local ideal para tal reclamação.
    Entao hoje vi no site do Vereador Alexandre Isquierdo Eleito no ano de 2012, com 33.356 votos, integra a bancada do PMDB na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
    Como parlamentar, legisla – apresentando projetos de leis e votando leis – e fiscaliza a atuação do poder executivo. Além de integrar pelo segundo ano consecutivo a presidência da COMISSAO DOS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIENCIA, foi eleito Membro Suplente da Mesa Diretora na Câmara Municipal e compõe a Comissão de Prevenção as Drogas.
    Em tempo , nao é meu político preferido mas se entrar na nossa luta , eu vou apreciá-lo.
    Já enviei o link do manifesto contra o telefone TDD, e agora é so torcer para ver o que acontece.
    – See more at: http://www.alexandreisquierdo.com.br/site/biografia/#sthash.mcx0BLMq.dpuf

  • Pessoal , estao entrando no Zapp do programa reclamar adianta, para se manifestar sobre o telefone TDD ?? Tentem vale a pena.

  • Há anos que digo isso, esta merda é obsoleta, não compensa, nunca compensou nem quando passou a ser comercializado no Brasil. Pior é que ainda vigora como se fosse a coisa mais moderna do mundo em acessibilidade para surdos. Cacilda, prestem atenção: o telefone pra surdos (TS ou TDD) já teve sua utilidade, isso numa época em que ainda não existiam celulares funcionais, nem os serviços de comunicação mediados por computador eram tão bons em tempo real quanto hoje. E quando eu ainda passo por isso nos SACs da vida enquanto tento resolver meus direitos de consumidora por e-mails ou chats on line, sempre tem um trouxa que me direciona pro canal de deficiente auditivo em que o uso de TS é exigido, aí fico tão p. da vida. Já experimentei e não compensa. Telefone para surdos é coisa ultrapassada. Celulares e tables são a bola da vez e ponto.

  • Já estou agindo pelo zapp e gostaria que a Sra que teve contato com o aparelho na Rodovia , fizesse através do zapp uma narração do ocorrido, no teste de funcionamento do sistema.
    Mandei agora a foto do logo da campanha.

  • Sim é realmente complicado já li como funciona.Portanto sugiro que entrem em contato com o programa RECLAMAR ADIANTA do Deputado Atila Nunes , que é colunista influente da Defesa do Consumidor em grandes jornais.Atraves desse programa vc faz sua reclamação e recebe orientação e muitas vezes ajuda do
    programa .O mesmo acontece de segunda a sexta de 10 a 12 hs na Radio Bandeirante AM e Sabado e Domingo na TV Bandeirante. Náo precisa ser exatamente um caso de consumo para reclamar no programa, que me parece tem um site também. Já resolví alguns problemas com eles. O telefone do programa é 21 32825588 ou Zapp 21 993289328 ( é a melhor opção para nós)
    Portanto, vamos ao Zapp pessoal acabar com essa inutilidade.
    Obs: Não tenho parentesco ou nada parecido com o Deputado.

  • Fico me perguntando como eles consideram essa geringonça de comunicação (?) “de modo simples e ágil.”
    Simples e ágil pra quem???

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