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Carta de uma filha surda a uma mãe ouvinte

Mãe,

Hoje você faria 58 anos.

Às vezes me pego pensando em tudo o que enfrentamos juntas para que eu pudesse chegar até aqui. Com 35 anos e dois ouvidos biônicos, olhar para trás é revisitar a nossa história. A minha surdez foi nossa. Minhas dores foram tuas e tuas lágrimas foram minhas.

Primeiro, a negação. Dia desses um amigo me perguntou como foi que a gente esperou até os meus 16 anos para tomar uma atitude a respeito da minha deficiência auditiva. Fui o mais longe que pude na memória e lembrei de uma audiometria que fiz quando era muito pequenininha. Você saiu do consultório cuspindo fogo e dizendo ‘onde já se viu essa fonoaudióloga achar que a minha filha tem esse problema?

Seguimos.

Eu, com os infinitos “Hãn”, as otites, as dores de ouvido. Você, levantando o tom de voz, articulando os lábios, respondendo por mim, me salvando o tempo todo.

Criamos uma simbiose que só quem é unido por laços de obrigação entende – quem precisa do outro para funcionar bem, para existir, para ouvir. Foi assim conosco. Eu precisava da sua ajuda e durante 30 anos você foi os meus ouvidos.

Eu brincava com o tamanho das suas enormes orelhas. Lembro até do dia em que meu irmão, bebezinho, rasgou o lóbulo de uma delas puxando um brinco seu. Você ficou com aquela cicatriz de filho para sempre e eu gostava dessa história que envolvia nós três.

Não vejo como erro nossa paralisia e negação frente à surdez na minha infância e adolescência. Outras coisas muito mais difíceis aconteciam, ao mesmo tempo, nas nossas vidas. Fizemos o que tínhamos forças para fazer. Não era a hora certa de encará-la. Você soube respeitar o meu tempo, soube entender que minha força estava em processo de construção, soube ser meu porto seguro todas as vezes que precisei sem me pressionar.

Quando pedi para tentar descobrir o que eu tinha, você estava lá. Quando fui comprar meu primeiro aparelho auditivo, você foi comigo. Quando precisei lidar com a palavra deficiente pela primeira vez na minha vida adulta, você enxugou as minhas lágrimas. Quando quis me aventurar viajando sozinha pelo mundo, você esperneou e depois me deu uma mala de presente.

Quando decidi sair do armário da surdez, você ficou assustadíssima, mas logo estava repetindo o meu discurso com o peito estufado de orgulho. Na noite de lançamento do meu primeiro livro, você estava lá num cantinho chorando. Você tirou a foto que mudou a minha vida, dormindo sentada num restaurante, quando dei minha primeira palestra. Você dormiu de mãos dadas comigo durante meus exames para saber se podia fazer um implante coclear. Você chorou feito criancinha quando me deu tchau para que eu pudesse entrar no centro cirúrgico. Você passou 15 dias trancada num quarto de hotel comigo até que eu tivesse alta e pudesse voltar para casa.

Você me levou até a Plataforma de Atlântida para eu descobrir se tinha voltado a conseguir ouvir o mar. Você chorou feito criancinha todas as vezes em que estávamos juntas e te contei que tinha ouvido algum som de novo. Você me explicou incansavelmente que som eu estava ouvindo quando perguntava: “mãe, que barulho é esse?”. Você vibrou e sorriu como se tivesse 10 anos quando meu marido falou com você pela primeira vez e disse que estava apaixonado por mim. Você brigou para que eu colocasse música no meu jantar de casamento. Você veio conhecer minha casa nova e me perguntou uma noite: “Como eu vou fazer pra viver sem você? Você é a minha vida!”

Você começou a desaparecer aos pouquinhos.

Te procurei na fila de autógrafos no lançamento do meu segundo livro, mas você não estava lá. Te procurei de novo na fila em Belém, Recife, São Paulo, Porto Alegre. Onde você estava, mãe? Onde eu estava que não percebi o que acontecia na minha ausência?

Quando entramos naquela ambulância e te levei ao hospital sem saber o que aconteceria, senti um medo tão grande. Você era a rocha, aquela que resolvia tudo, que enfrentava todos, que não tinha medo de nada e nem de ningúem. Eu não. Mas precisei ser. E em 24hs você se transformou em minha filha. Fui te visitar durante um mês, três vezes por dia, na UTI. Quando me despedi para voltar para casa, você disse “eu te amo mais que o mundo“. Achei aquela frase tão linda, e descobri que você passou a vida me dizendo que me amava mais que o mundo – eu que nunca escutei e prestei atenção. Achei comentários seus no Crônicas dizendo isso… 🙁

Quatro meses depois, pude te levar para casa. Na primeira noite, dormimos de mãos dadas e seu corpo inteiro tremia. Você estava assustada e só tinha eu para cuidar de você. Me olhava como se estivesse pedindo socorro. Troquei suas fraldas, te dei banho em cima da cama, penteei seus cabelos, puxei seus pés todas as vezes que você pediu. Eu estava completamente apavorada, porque você tinha se tornado um bebê.

Você foi se apagando, de pouquinho em pouquinho. Eu telefonava e sentia sua voz cada vez mais distante, cada vez mais fraca. Você ficava brava quando eu perguntava como você estava. Você parou de me mandar as muitas mensagens que me mandava todos os dias. Parecia que nosso laço estava se desfazendo, e isso doía tanto. Sempre tive uma esperança infantil de que você ficaria bem, voltaria a andar e a ser minha mãe.

Num fim de tarde de março, passeando com o Pikachu pela Rua Santa Clara, senti uma pontada no coração. Tudo ficou nublado e vi você correndo em direção ao vô Chico, com seu vestido de 15 anos. Caí de joelhos e fui para casa chorando. Quando cheguei, soube que você tinha partido. Nunca senti dor igual. Foi como se tivessem passado uma faca na minha barriga e arrancado minhas entranhas todas. Meu mundo parou, o tempo parou, respirar era um suplício. Só lembro do Lu me empurrando para fora de casa para que chegássemos a tempo no aeroporto.

No seu velório, eu não queria chegar perto do caixão. Não conseguia acreditar que minha mãe, minha filha, minha melhor amiga, minha irmã mais velha, minha grande companheira, a pessoa que mais me conhecia e me fazia rir no mundo, estava sem vida. Demorei a conseguir te tocar. E quando toquei fiz e refiz várias vezes os contornos do teu rosto e dos teus dedos na tentativa desesperada de nunca esquecê-los. Fiquei de mãos dadas com você pela última vez.

Sinto uma falta imensa de você, e quando você aparece nos meus sonhos é como se tivesse vindo me visitar. Tenho sua voz gravada num vídeo da ativação do meu primeiro implante, e não acredito que nunca mais vou ouvir um berro seu chamando “Paulaaaaaaa! Paulo Séeeeergioooo!”.

A vida ficou despovoada sem você, mãe. Você foi embora cedo demais. Até hoje, para conseguir dormir, muitas vezes preciso imaginar que estou de mãos dadas contigo.

Feliz aniversário, aí onde você estiver!

Te amo mais que o mundo…

174 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

10 Comentários

  • Paula, chorei…
    A cada letra chorava mais..
    Demorei pra terminar de ler pois estava chorando… sei como é perde uma mãe. Eu sei o tamanho da falta q tu sente. Pois eu também perdi a minha mãe em 2012.
    A última palavra q minha mãe me diz: _ Filha, pede a nossa Senhora Aparecida p eu melhorar… ( ela começou a segura p não chora e chorou e eu berrei de choro..)
    Essas últimas palavras q ela diz jamais será apagada de minha memória.
    E tiver q ir embora pois na uti não pode fica.. são 39 km do hospital até minha casa, vir embora chorando, chorando sem parar.. queria fica com ela na uti mesmo q o médico não deixasse. Tinha esperança de q ela voltasse p casa.. mas infelizmente não deu.. ela se foi.. sinto uma enorme falta dela.
    Se eu pudesse fazia de tudo p ter ela de volta.
    Só de pensa nela dar vontade de ir lá busca ela..
    Tenho esperança q vou com ela de novo…

    Paula, q Deus conforte seu coração pois sei q não é fácil supera a morte de mãe..
    Bjs

  • Não é certo você fazer um marmanjo de 46 anos chora, kkkkkkk amei esta carta e te admiro muito, você esta sendo um ajo da guarda para muitas pessoas como eu!

  • lindo texto…
    sou mâe de um lindo rapaz com laudo bilateral profundo, oralista, professor de ed. fisica e atleta surdo.enfim meu orgulho, me sinto exatamente como sua mâe, uma vencedora nesse mundo preconceituoso.

  • Nossa eu estou totalmente sem palavras !!!!!

    Que carta mais maravilhosa, e mais tocante q eu ja vi em toda minha vida .

    Tenho uma filha Implantada e não conseguir conter a minha emoção .

    Simplesmente Perfeita !

  • Paula e Deus abençoe você, sou surdo, tive sonho usar implante coclear, mais os médicos me indicaram que não é conveniente para mim. Que Deus abençoe você e conforte você e suas famílias.

  • Eu sei que vou chorar , mais mesmo assim leio e termino com esse nariz horrível vermelho.
    LINDA, sua carta.
    Sinto, uma mistura de filha que tbm, não tem mais sua mãe e de mãe, que tem uma filha com deficiência auditiva.

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