Crônicas da Surdez Otorrinolaringologia

Como é ser uma surda casada com um otorrinolaringologista

Por ironia do destino, sou surda e acabei me casando com um otorrinolaringologista que é especializado em surdez e cirurgião de implante coclear. Muitas pessoas me perguntam como é ser uma surda implantada casada com um otorrino. Precisei pensar um pouco sobre isso para conseguir escrever esse post. 🙂

Acho que o mais importante de tudo é dividir a vida com alguém que me entende quase 100% – digo isso porque até hoje ele não entende quando resolvo que quero usar um implante só ou quando demoro para colocar meus implantes, rsrsrs! É um alívio falar de zumbido com uma pessoa que entende o sofrimento que isso causa, é muito bacana dividir minha felicidade com qualquer conquista sonora com alguém que entende a dimensão de voltar a ouvir após ensurdecer.

É muito divertido usar acessórios de conectividade com um marido otorrino – toda vez que vamos a um restaurante ou pegamos um vôo longo ele quer porque quer que eu esteja com um MiniMic, e já demos boas risadas em várias situações por causa disso. A mais engraçada foi uma vez, durante um vôo, em que eu estava dormindo com os IC’s conectados ao MiniMic e ele foi ao banheiro e de lá começou a falar e eu acordei de susto com a voz dele na minha cabeça…Pensem num SUSTO!

É hilário quando faço qualquer acusação de ronco e recebo aquele olhar de ‘como uma pessoa que não ouve enquanto dorme pode acusar alguém de roncar?

Já dei muita dor de cabeça ao Luciano, como, por exemplo, a primeira vez em que tive uma otite após ser implantada. Otorrinos acabam se acostumando aos pitis dos pacientes, mas quando a paciente é a própria mulher, sai debaixo. A cada otite meu escândalos ficavam maiores – quem tem implante morre de medo de ter uma otite que evolua para algo pior e o afete. Não sei como ele me aguenta nessas horas…

Quando fiz meu segundo IC, fui uma péssima paciente no pós-operatório. Foi maravilhoso estar em casa poucas horas após a cirurgia com um médico de plantão 24hs, mas e o meu comportamento? Dois dias depois, me sentindo ótima, saí de turbante e tudo pra tomar sorvete e passear na praia (sob o sol do Rio de Janeiro) com minha avó. Resultado? Ouvido inchado, cabeça inchada, dor, mal estar que acabou comigo em cima da cama encolhida em posição fetal e um sonoro: “Você está louca?”. Fui a pior paciente do mundo e tenho consciência disso. Fiquei com vergonha depois.

Ser casada com um otorrino me fez aprender que médicos são, acima de tudo, seres humanos. Nada desse papo de ‘semideus’ da medicina mais antiga. É muito bonito ver um médico movendo montanhas para ajudar um paciente, para realizar uma cirurgia, para acalmar uma mãe desesperada de madrugada, para tirar o medo de um pai desinformado na primeira consulta, dando boas e más notícias para uma família. E testemunhar a felicidade dele ao fazer um implante coclear em alguém me faz levantar as mãos para o céu e agradecer a sorte que tive! 🙂

A convivência diária em casa e na SONORA às vezes me faz pensar que me formei em Medicina, hehehe. Fico achando que sou expert em surdez (#sqn) e vivo arriscando palpites. Sou muito grata ao Luciano por me jogar aos tubarões quando percebe que comecei a me retrair – a primeira vez que pedi a ele para perguntar algo em inglês numa viagem por mim e recebi um “Pergunte você mesma!” fiquei possuída, mas cinco minutos depois entendi o motivo de ele ter feito isso. E agradeci!

Se meu marido fosse um otorrino que não tivesse ligação com ouvido e com surdez, acho que não teria tanta graça. Ele entende o que significa deixar de ouvir e o que significa voltar a ouvir de um modo que me traz muito orgulho e admiração. Ele convive com isso todos os dias por ser casado comigo. Nós compartilhamos a visão e o conhecimento do que a tecnologia é capaz de fazer na vida de um surdo e temos conversas longas e cheias de epifanias sobre isso. É realmente muito gostoso compartilhar meus dias com ele. Temos os nossos momentos de ‘surdez’ um com o outro, mas isso faz parte da rotina de qualquer casal.

Com o Luciano aprendi que falar é tão importante quanto ouvir, e que OUVIR o outro de verdade faz toda a diferença – não importa se é seu marido, seu irmão, seu amigo, seu tio, as pessoas querem ser ouvidas. Você pode ter a audição perfeita mas, se não estiver com os ouvidos atentos ao que o outro diz, de nada adianta. Com ele aprendi que amar alguém é abraçar todas as diferenças e os desafios que essa pessoa traz para a sua vida. E, como seres humanos complexos e cheios de nuances que somos, a surdez é apenas um dos desafios que precisamos enfrentar. Às vezes ela nos une, às vezes ela nos separa, mas havendo amor, todos são transponíveis.

Ah, não posso esquecer: minha eterna gratidão por ele sempre me salvar de ter que falar ao telefone. Consigo, mas não gosto e acho que nunca vou gostar (sei que não sou um alien porque uma porrada de ouvintes também detesta) e o Lu vive quebrando o galho para mim quando um de nós tem que ligar para a NET, a Vivo, o cartão de crédito ou para onde for. Essa generosidade me deixa com um sorriso no rosto todas as vezes!

158 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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