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Closed Caption: as legendas desvendadas por uma captioner

Quem é deficiente auditivo e já deu um piti histérico por falta de closed caption na TV, atire a primeira pedra! Quando a captioner Amanda Schnaider me escreveu, encomendei na hora um post sobre closed caption, afinal, falamos tanto dele aqui que seria ótimo ler o que alguém que trabalha com isso tem a dizer. Já que brigamos por legendas, que tal aprender como elas são feitas? 🙂

Você sabe o que é closed caption?

‘Você sabe o que é closed-caption (legenda oculta)? Caso não saiba, basta ativar a opção “CC”, modo 1, na sua televisão. Você vai ver uma legenda com letrinhas na cor branca, subindo ou surgindo na tela, com um fundo preto. Essa legenda vai exibir as falas e os possíveis sons da programação televisiva. A produção dessa legenda não é simples. Ser uma captioner não é “só” reproduzir um texto falado por escrito. Existem muitas questões que estão por trás da produção e da revisão da legenda oculta e eu estou aqui no Crônicas da Surdez para contar um pouquinho – bem pouquinho mesmo – desse universo que eu estou descobrindo, dia a dia, onde  trabalho.

Com a Norma Complementar nº 01/2006, do Ministério das Comunicações (MC), a acessibilidade na TV aberta começou a ser implantada em 2008, quando o número de horas  diárias do conteúdo exibido pelas emissoras que contavam com legenda oculta e dublagem ainda era muito reduzido.

Esse número aumentou progressivamente, e, neste ano de 2017, já é de 24 horas diárias a partir deste mês de julho. A legenda funciona sob a norma vigente da ABNT NBR 15290:2016 – Acessibilidade em comunicação na televisão, que revisa a norma ABNT NBR 15290:2005, elaborada pelo Comitê Brasileiro de Acessibilidade. Com isso,  antes de mais nada, percebemos a evolução e a conquista que foram essas 24h diárias de programação com acessibilidade e a dedicação que os captioners devem ter ao produzir as legendas, pois existe uma lei a ser cumprida e um padrão a ser seguido nessa produção.

Duas formas de gerar closed caption

O primeiro aspecto a ser destacado é que existem duas formas de se gerar a closed-caption aqui no Brasil: uma é por meio da estenotipia – um método mais antigo cujo treinamento dura mais de um ano e é mais trabalhoso – e outra é por reconhecimento de voz – opção mais atual e inovadora, com um treinamento mais rápido e simples.

Para os dois tipos, existem inúmeras críticas de quem vê as legendas e não faz a menor ideia de como são geradas. Na empresa em que trabalho, utilizamos o reconhecimento de voz, por meio da locução, com o mesmo motor de reconhecimento que a Google usa e um software muito bom. É sensacional quando nós conseguimos produzir a legenda antes de o programa ir ao ar. Fazemos a locução de tudo o que é dito, revisamos o texto final e fazemos o envio manual – alguém abre o arquivo no software e vai enviando as linhas da legenda revisada em tempo real – ou encodamos a legenda no vídeo – colamos a legenda no arquivo do vídeo com marcações de entrada e saída, pronta pra ser ativada – e o resultado final é uma maravilha!

Legendas ao vivo

Seria o céu se tudo fosse sempre assim, mas a legenda, muitas vezes, tem que ser produzida ao vivo e esse é o segundo aspecto que eu gostaria de mencionar aqui. Isso acontece nas seguintes situações: quando a programação também é ao vivo na emissora; quando o vídeo finalizado não chega com tempo suficiente para uma revisão; quando a programação muda em cima da hora etc.

Quando lidamos com algum desses casos, isso significa que, em tempo real, estamos repetindo todas as falas de todos os falantes daquele programa, indicando cada um deles, bem como a pontuação correta para o texto – que é marcada em um tempo diferente da fala, com delay (atraso), ou, simplesmente, inserida na fala da seguinte maneira: “oi vírgula tudo bem interrogação”. Doideira, né? Se ficou confuso durante a leitura, imagine falar assim durante a exibição de um programa! A língua enrola, você pode engasgar, tossir, espirrar e, nisso, já perdeu umas palavras. Além disso, algumas palavras não são reconhecidas pelo programa, que, apesar de ser o de maior destaque, ainda está sendo melhorado.

Reprodução fiel do que é dito

Como se não bastasse essa correria do “ao vivo”, temos que nos preocupar em não mexer muito no texto original, principalmente, em canais que fazem a exigência de que se escreva absolutamente tudo: todas as palavras, sons e silêncios. Eles são bem rigorosos e fiscalizam tudinho! Isso é bom para garantir uma reprodução fiel, mas não editar o texto falado gera alguns problemas para o captioner, que sofre falando muito rápido durante a exibição, e para o leitor surdo, que está lendo textos muito longos, que estão escritos em sua segunda língua, passando muito rápido e com informações desnecessárias, às vezes. Para que, apesar de tudo isso, a leitura não seja difícil e o trabalho tenha boa qualidade, nós passamos por um treinamento de locução com instruções para trabalharmos nas produções de CC ao vivo e offline.

Outro aspecto que ajuda a garantir uma boa qualidade de legenda é o tempo adequado de exibição, que, muitas vezes, não é alcançado – e, por isso, defendo as possibilidades de edições que não mudem o sentido nem o registro do texto. Quando conseguimos fazer a revisão prévia para ser enviada manualmente, ainda não podemos garantir o tempo certo para cada linha de legenda, porque existe a grande quantidade de informação pra pouco tempo – porque os programas não são produzidos com o pensamento de que existe uma legenda sendo gerada; existe o delay do envio; existem as falhas de sinal etc.

A única garantida nesse caso é a boa qualidade da revisão do texto e isso já é um conforto na hora de fazer o envio! O quadro da perfeição, lá onde eu trabalho, acontece quando a legenda pode ser colada no arquivo do vídeo, porque temos uma boa revisão, um bom tempo de legenda em tela e uma perfeita sincronia com a fala.

O que é ser captioner?

Digo que ser captioner é ser a voz de muitas vozes. É fazer a acessibilidade acontecer, dando seu melhor. É locucionar – no meu caso – e revisar o texto, pensando no público que faz uso da legenda oculta. Encontramos algumas dificuldades, algumas questões e, por isso, reafirmo a já sabida importância da participação do público, principalmente, das pessoas com deficiência auditiva nos feedbacks das legendas. Mandem mensagens, e-mails e recados nas páginas e nos canais dos programas aos quais vocês assistem, informando as dificuldades e os problemas observados. Assim, alcançaremos a acessibilidade que buscamos, aquela que é real, pra valer.’

Fontes: aqui e aqui.

44 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • Enfim, muito bom para nós, deficientes auditivos, falarmos sobre o closed caption.
    Sempre fui adepta da legenda, já enviei e-mail para emissora da Globo (fale conosco) sugerindo legenda no Canal Viva, onde reprisa os programas anteriores, porém sem sucesso…
    Vale ressaltar que outras emissoras: Band, Record, Rede TV… não aderiram a legenda. Há uns tempos atrás apareceu a legenda e posteriormente desapareceu, ou seja, não retornou mais.
    Peço encarecidamente ajuda de vcs para conseguirmos acessibilidade ao closed caption em TODAS as emissoras. Como podemos proceder?

  • Muito interessante…Tenho uma pergunta: pq as legendas somem de vez em qdo? Já aconteceu na globo ficar dias..muitos dias sem legenda em sua programação…Isso faz alguns anos…Teve uma novela – akela de um coronel ..que um ator morreu durante as gravações…nao me lembro pq nao assisti – que simplesmente a legenda era impossivel de se ler..de tão truncada..ficou meses assim. Pq isso ocorre? Vcs teriam um email para enviar para a globo sobre isso?
    obrigada

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