Deficiência Auditiva Histórias dos Leitores

Declaração de amor de um namorado ouvinte para a namorada surda II

Paula, seu trabalho é fantástico! Seus relatos são muito esclarecedores em diversos momentos e confortantes em outros tantos.  Conheci você através da minha namorada, Carol, que usa aparelhos auditivos desde os três anos. São quase cinco anos de relacionamento e durante este período seus textos sempre nos acompanharam.

Posso dizer que você também é responsável pelo sucesso da nossa união, porque o que eu sempre admirei nela foi a forma de lidar com a surdez, e isso tem grande contribuição sua. Todas as vezes que ela me marca em alguma publicação do Crônicas da Surdez e compara com a nossa rotina ou agradece de alguma forma meu comportamento, me sinto como um aluno que estudou e acaba de tirar uma boa nota. É o mesmo que saber que estou no caminho certo. 🙂

Uma vez a Carol postou um texto sobre a surdez no Facebook, e notei que aquilo para ela não era motivo de vergonha. Ela só queria que todos soubessem das suas limitações de uma maneira diferente, dizendo que existem vários lados positivos e que a vida dela era sim muito normal. E desde o começo do nosso namoro até hoje, quando as pessoas descobrem que ela usa aparelhos, a feição muda imediatamente: vem logo aquele olhar de pena e as perguntas procurando entender como eu lido com isso. Na mesma hora abro o meu melhor sorriso, o olhar apaixonado e falo da maneira mais simples e debochada, que isso não muda nada e que ela é meu maior orgulho.

Seus livros são presentes esperados com muita ansiedade. Eles funcionam como desabafos, explanações detalhadas de tudo que ela tentou falar naquele post do FB. Eles conseguem descrever o que o surdo não quer ou tem vergonha de dizer. E isso ajuda demais! Acredito que por ser considerada, pela grande maioria, uma das deficiências mais “tranquilas”, quem utiliza aparelhos auditivos, principalmente, passa por muitos momentos de exclusão e acaba escondendo vários incômodos.

Com o tempo fui aprendendo a enxergar o mundo de outra forma e hoje sou um cara bem melhor.  Como a perda dela é muito grande, o aparelho não supre totalmente suas necessidades e por isso ela faz muito uso da leitura labial. Mudei e mudo constantemente. Passei a falar mais devagar, sem as mãos na frente, nunca de costas ou de lado. Esses são os passos básicos que logo no primeiro encontro tive que aprender, mas a cada dia Carol e as suas postagens me ensinam ainda mais.

Elas nos fazem perceber que as coisas mais simples fazem toda a diferença. Como no momento de escolher o lugar de sentar no bar, parece uma tarefa simples, mas este era um dos lugares que Carol mais odiava ir antes de me conhecer e eu não sabia qual a razão. Hoje procuro as mesas mais afastadas das caixas de som ou do barulho da rua e tento sentar em uma posição que ela possa acompanhar os lábios do maior número de pessoas do grupo.

Ou até mesmo na hora de dormir, quando já ocupo meu lado na cama sabendo que o dela é o que menos incomoda o ouvido. Isso até a nossa última conversa, onde eu digo que a amo e me ofereço para guardar seus aparelhos junto aos meus óculos. Procuro fazer isso tudo sem deixar que ela perceba e pense que é um esforço, pois não é. Apenas tento minimizar suas dificuldades, porém, sem deixar que ela fique dependente de mim e deixe de fazer uma série de coisas, já que não posso ficar sempre por perto.

Pessoas como você mostram que os desafios, que ela passa todos os dias, são normais e que devem ser enfrentados. No caso dela não é muito comum encontrar pessoas na mesma situação e faixa etária para compartilhar momentos peculiares, como você faz muito bem. Minha avó também é surda, mas nem por isso as duas têm conversas que ela espera ter com alguém que passe por algo semelhante ao do cotidiano dela. Geralmente minha avó pergunta quanto tempo dura a pilha dela, onde ela faz a manutenção ou comenta o quanto é ruim usar aparelhos auditivos. Não que minha avó não seja uma boa companhia, mas Carol não teve essa oportunidade de saber o que é não usar aparelhos e esse tipo de situação não lhe deixa confortável.

As situações que você descreve são tão semelhantes, que às vezes acho que você é uma amiga que conhece ela como ninguém, mas está distante e que mesmo assim não deixa de dar notícias. Isso é muito bacana! Ela me mostra tudo seu, por onde você anda, as suas viagens, momentos de descoberta com os implantes… Você é um exemplo. Quando tenho alguma dúvida ou não sei como agir em alguma situação, recorro discretamente aos seus livros.

Fiz muito isso na época em que ela estava muito irritada com os moldes que nunca se encaixavam perfeitamente e colocou na cabeça que queria fazer o implante. Leigo sobre a cirurgia, tive muito medo que fosse algo muito agressivo e o resultado não chegasse perto do esperado por ela. Não vou negar que ainda tenho um pé atrás, mas lendo seus relatos pude entender melhor sobre o procedimento e saber por que Carol não parava de falar nisso. Infelizmente os médicos ainda não aconselham que ela faça a cirurgia, porém isso já não é um grande problema.

Não sei se um dia ela fará o implante coclear, mas tenho certeza de que estarei ao seu lado e com o Crônicas da Surdez na mão buscando ajudar da melhor forma possível.

Deu pra perceber que sou completamente apaixonado por ela bem do jeitinho que ela é? 🙂

Eu adoro sua voz rouca logo quando acorda ainda sem aparelho dizendo bom dia, gosto de ficar beijando-a no ouvido para mostrar que o barulho não me incomoda, acho graça das conversas por mímicas enquanto tomamos banho, fico distraído admirando sua beleza e colocando o tempo todo seu cabelo por trás do aparelho…

Pode ser brega, mas para mim ela é a mulher mais linda do mundo! Todos tendem a pensar que eu sou um bom namorado para Carol, que ela tem sorte por eu ser tão “compreensivo”, mas é justamente o contrário. O grande privilegiado sou eu! Encontrei uma pessoa maravilhosa, que exalta o que há de melhor em mim e que me mostra todos os dias o verdadeiro sentido da vida, com a qual eu quero compartilhar todos os momentos que ainda virão.

Num dia de muitas incertezas e medos, ela me fez chorando uma série de perguntas. E se os nossos filhos nascerem surdos? Se eles precisarem de mim e eu não conseguir escutar? Será que eu vou deixar de ouvir tua voz dizendo que me ama? Nesse momento, aflito e com os olhos cheios de lágrimas, eu só consegui responder lhe abraçando bem apertado, confortando e dizendo que nada daquilo iria acontecer.

Hoje eu faria diferente! Diria que nossos filhos seriam sortudos por ter uma mãe que poderia ensinar tudo a eles com maestria e muito amor. Que caso eles precisem, eu sempre estarei ao lado pra ajudar. E caso você deixe de ouvir, eu ainda assim te amarei com todos os meus sentidos.

Por fim, espero que um dia suas palavras alcancem um público ainda mais amplo, chegando até as pessoas que não possuam nenhuma relação com a surdez. Ainda são muitas as situações em que ela precisa de auxílio: avisos no avião, chamadas em repartições públicas, legendas em programas e vídeos… E o próximo só nota que isso é uma dificuldade, quando afeta alguém do seu convívio ou a si mesmo.

Aguardo o próximo livro e também a sua vinda ao Recife, para que Carol e eu possamos lhe conhecer e parabenizar por tudo que você faz! Obrigado.

154 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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