Histórias dos Leitores

Deficiente auditiva e cantora

Maria Esther, deficiente auditiva e cantora, nos brinda hoje contando um pouco da sua história!

Cantando e me divertindo, me divertindo e cantando!”  Minha avó Djanira sempre dizia isso pra mim. Assim como aquela piada dos dois surdos, um de cada lado do açude:
– Pescando?
– Não, estou pescando!
– Ah, pensei que estava pescando!

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Eu sempre ria muito! E ainda rio, e lembro dessas coisas sempre, porque elas me confortam e me fortalecem. A importância é que pequenas coisas vividas na infância permanecem vivas na minha memória e têm grande influência em quem eu sou. Sempre gostei de cantar no chuveiro, mas, por um motivo que ainda não consigo definir, veio a coragem de cantar em público pela necessidade de alguém representar o CTG Querência das Lavras na Semana Farroupilha de 2012. E lá fui eu, bem faceira… e deficiente auditiva. Subi no palco e cantei, sinceramente, para representar o CTG e me divertir com meus parceiros de palco, porque fazer música, pra mim, é pura alegria! E não é que me saí bem?

Com essa história de ensaiar a gurizada pra apresentações, muito treino vocal, acabei desenvolvendo uma capacidade de superar a minha limitação auditiva e conseguir cantar razoavelmente. Esse ano, mais uns tantos decibéis perdidos, comecei a não conseguir escutar muito bem a minha voz, então, a coisa se tornou bem mais difícil. Mas lá está Deus, como sempre na minha vida, e me emprestou quatro ouvidos substitutos: os do meu filho João Marcos e do meu parceiro Daniel Simões, que têm paciência e sutileza para perceber se o tom está adequado, se as notas estão corretas e não me deixam fazer fiasco em público.

Em 2013, novamente fui bem na Semana Farroupilha. Nunca na minha vida imaginei ganhar um prêmio de Melhor Intérprete. Agora tenho dois, dos quais me orgulho muito e sei que se devem ao amor que tenho pelas coisas da nossa tradição e da nossa cultura.
Ontem foi mais um dia de superação: cantar na Noite de Poesia e Seresta. Ao ser carinhosamente convidada pela Rosa Helena, senti-me lisonjeada, mas senti um certo medo, afinal, seria um ritmo diferente, estilo diferente, um tom muito alto e num evento tradicionalmente marcado por belas apresentações. Como sempre participo, assistindo, apresentando ou declamando, resolvi aceitar.

Tive, no palco, um problema de microfonia do retorno do som dos instrumentos e da minha voz no meu aparelho auditivo, resumindo: cantei sem me escutar e ainda com sons agudos e graves apitando nos meus ouvidos. Pode não ter sido a mais bonita apresentação da minha vida, mas, para mim, foi a melhor! Quando desci do palco, perguntei pro meu filho se eu tinha desafinado muito e ele: “Não, mãe, foi bem. O som que deu um problema, mas foi bem bom, pode ver na filmagem”. Assisti a filmagem e acho que cumpri meu papel e não estraguei a apresentação. Pra mim, ficará marcada como uma das melhores apresentações que já fiz, pois novamente não me acovardei. Obrigada Deus, pela certeza que me dá!  Eu canto e me divirto!

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Aqui são fotos minhas cantando na Semana Farroupilha, recebendo Troféus de melhor Intérprete Adulta da Semana Farroupilha 2012 e 2013 de Lavras do Sul e cantando na Noite de Poesia e Seresta. Meu filho comigo na premiação, um “par de ouvidos adicionais” que eu tenho! Uso Intuis Dir na OE e Intuis SP na OD.

PS: Estava lendo a tua “listinha” de coisas que irritam, ri bastante, pois sei bem o que é, e fico apavorada como as pessoas querem determinar a vida alheia. Sou educadora especial, professora de Libras e acredito que cada um de nós tem o direito de optar pela nossa forma de comunicação. Eu gosto muito dos meus aparelhos e de poder escutar! Não tenho nenhum problema em usar Libras com alguns de meus alunos e com os que têm bons restos auditivos, estimulo a fala e leitura labial, tudo sem estresse nem imposição. Já estimulei um aluno a fazer o IC, tem outros que estimulo a usar Libras, mas sempre perguntando pra eles o que eles querem.  “Cada um de nós compõe a sua história, cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz”!’

39 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

8 Comentários

  • Eu toco teclado e tenho perda auditiva, me sinto como Beethoven que tinha a mesma deficiência. Mas para mim ainda é muito difícil admitir que minha perda aumenta aos poucos, e que alguns toques agudos no teclado faz doer os meus tímpanos se estiverem um pouco alto, qual só uso para gravar. Mas no fundo já me senti como um cachorro que gurne ao ouvir uma flauta ou clarinete, e faz as pessoas pensarem que está cantando.
    No entanto tenho sonhos, que merecem serem desabrochados lindamente como assim está historia de amor e superação de Maria Esther.

  • Parabéns……(??) pena que não postou seu nome.
    Fiquei feliz de saber que “Nada é impossível neste Mundo!” e “Querer é Poder!”

    Além de eu também ser deficiente auditiva, tenho uma irmã que também é, porém, ela não conseguiu usar aparelho auditivo por falta de incentivo, estrutura e talvez também por falta de avanço tecnológico nos tempos antigos (ela tem 72 anos), mas, no tempo atual ela não quis nem saber em usar. É oralizada.Tocou piano por muito tempo e muito bem. Fico triste é saber que os meus pais não a incentivaram ir adiante, talvez por não acreditar no futuro.

    Sucessos para você!
    Bjs

  • Gostei da piada…:)
    Sua história tambem é comovente. Realmente é Deus que nos direciona quando acreditamos NEle.
    Que bom que consegues auxilar o próximo…esse tambem é o sentido da vida, auxiliar sem ver a quem…

    Tudo de bom para voce e a todos te acompanham nessa jornada.

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