Crônicas da Surdez, Implante Coclear, Reabilitação auditiva

Dia Mundial da Audição: o impacto econômico da surdez

03/03/2017

O Dia Mundial da Audição (World Hearing Day) e o Dia Internacional do Implante Coclear são comemorados em dias muito próximos – o primeiro, hoje, o segundo, dia 25 de fevereiro. Este ano, convidei os leitores do Brasil e da América Latina para que enviassem fotos usando seus implantes cocleares. O resultado vocês podem ver nesta montagem linda, cheia de pessoas orgulhosas da tecnologia que as permite ouvir o mundo! 🙂

Em 2017, a Organização Mundial de Saúde decidiu chamar atenção para um fato importantíssimo: o impacto econômico da perda auditiva. Vocês já pararam para pensar nisso? Fonte: WHO.

U$750.000.000

Este é o valor do impacto financeiro da perda auditiva não tratada, durante um ano, no mundo. Ficar de braços cruzados e não tratar a perda auditiva tem custos da ordem de milhões de dólares. Só nos Estados Unidos, estima-se que as pessoas com perda auditiva não tratada ganham de 50 a 70% menos do que aquelas que buscam tratamento. Na Europa, as pessoas com surdez não tratada possuem o dobro de chance de estarem desempregadas do que pessoas com audição normal. Calcula-se que custe aos cofres públicos, por ano, cerca de 105 milhões de dólares o desemprego causado pela surdez não tratada, bem como as aposentadorias por invalidez.

O custo-benefício da reabilitação auditiva

A reabilitação auditiva gera maior acesso à educação, maior empregabilidade e salários mais altos (e isso beneficia a economia), redução dos custos relacionados à depressão e à deterioração cognitiva (para o Estado e para as pessoas), etc. Nos Estados Unidos, cada dólar investido em reabilitação auditiva através do implante coclear gera um retorno de 2,07 dólares. Os implantes cocleares aumentaram significativamente a qualidade de vida das crianças surdas na Índia. No Reino Unido, calcula-se que o desemprego provocado pela perda de audição custa anualmente aos cofres públicos mais de 24 milhões de libras.

Como atuar contra a perda auditiva?

  1. Destinando recursos suficientes para a reabilitação auditiva
  2. Capacitando melhores recursos humanos
  3. Incluindo a atenção audiológica e otorrinolaringológica nos sistemas de saúde
  4. Instituindo programas de detecção e intervenção precoces
  5. Conscientizando todos os setores da sociedade

Além das consequências para a pessoa que tem perda auditiva (isolamento, tristeza, depressão, piora na qualidade da fala, declínio cognitivo, etc), ela também tem custos para a sociedade como um todo. No estudo “The societal costs of severe to profound hearing loss in the United States”, que foi publicado no International Journal of Technology Assessment in Health Care, estima-se que os custos nos Estados Unidos para alguém que tem perda auditiva severa-profunda chegue a quase U$300.000 ao longo da vida (médicos, fonos, aparelhos auditivos, reforço na educação, etc)

Não é preciso ser muito esperto para perceber que, ao reabilitar um bebê que nasceu com surdez profunda através de um implante coclear, o custo para o Estado e para a sociedade será de ordem infinitamente menor do que não fazê-lo. Vamos fazer as contas? Digamos que o Estado gaste 80.000 reais com um IC para um bebê. Quando ele tiver 18 anos e começar a sua vida profissional, esse IC terá tido o custo efetivo de R$12,17 por dia de vida. Agora, qual seria o custo se este bebê continuasse sem ouvir? Educação especial, transporte, benefícios do INSS e quem sabe até aposentadoria por invalidez logo no início da vida adulta. Multiplicados por décadas de vida? Pois é!

Chegou a hora de falarmos abertamente sobre os CUSTOS, para o Estado, da perda auditiva não tratada. Parabéns à Organização Mundial de Saúde por tomar esta iniciativa! 🙂

36 amaram.

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6 Comentários

  • Responder Anna Pennella 09/03/2017 at 1:51 pm

    Paulinha, por isso que te adoro!! Que post maravilhoso!

  • Responder Vanessa 05/03/2017 at 12:28 am

    Não consigo mais dormir em função da demora de uma resposta judicial para o implante de minha filha. Não aguento mais esperar de braços cruzados. O tempo é inimigo da surdez. Perfeita matéria. Pena que o Estado não esteja ciente disso.

  • Responder Christianne Dantas 04/03/2017 at 6:16 pm

    Muito bom Paula. Adoro seu blog e me reconforto com seus comentários Meu filho, Davi tem perda auditiva e usa aparelho auditivo bilateral desde um ano e meio de idade. Hoje ele tem 5 anos e está super adaptado..
    No início, fiquei muito assustada com um mundo que desconhecia, queria sentir o que ele sentia e entender como ele ouvia o mundo ao redor. Foi mundo importante encontrar esse blog, e conhecer através dos relatos, um pouquinho das experiências , fracassos, dificuldades e sucessos.
    Percebi que as pessoas, principalmente os adultos, olhavam para os aparelhos, mas fingiam que não enxergavam e quando estavam com crianças que perguntavam, eles mandavam calar a boca e eu sempre interceptava e explicava. Foi então que percebi que os AASI não são aceitos pela sociedade, como são os óculos ou aparelhos ortodônticos etc. E por isso precisavam ser divertidos, chamar atenção. Então descobrimos os posts sobre caracterização de AASI com personagens infantis:homem aranha, homem de ferro, hulck, carros etc. Foi um sucesso! Os AASI viraram uma brincadeira divertida e ajudaram as pessoas a olhar com mais leveza. Hoje, crianças e adultos chamam atenção dos AASI todas as vezes que trocamos os personagens. Mas ainda é muito difícil adquirir aparelhos com tecnologia avançada, pois o custo é alto e não temos incentivo. Adquirimos um AASI com conctividade Bluetooth com iPhone e TV, onde o aparelho vira um fone de ouvido , custou caro e o plano não cobre , nem podemos descontar no imposto de renda. Essa aquisição foi muito importante para a evolução de fala , hoje Davi fala ao telefone sem precisar colocar o fone no ouvido e sem ninguém ficar ouvindo a conversa. Na escola, a professora fala direto ao seu ouvido através de um microfone também conectado via Bluetooth, sem precisar ficar próximo ou olhando diretamente para ele. Se essa tecnologia pudesse ser acessível para todos, as comemorações seriam maiores nesse dia.

    • Responder Paula Pfeifer Moreira 05/03/2017 at 8:52 pm

      Concordo com você!

    • Responder Anna Pennella 09/03/2017 at 1:54 pm

      É mesmo um absurdo que as taxas de importaçao dos AASI no Brasil ainda sejam tao altas, e esse detalhe, que vc colocou, que nao é possivel nem abater no IR, é realmente inadmissivel!

  • Responder Danielle Kraus Machado 03/03/2017 at 8:45 am

    Ótimo texto! Adorei esse ponto de vista. <3

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