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11 dicas para namorar alguém com deficiência auditiva

Que tal umas dicas para namorar alguém com deficiência auditiva? Nestes cinco anos escrevendo o Crônicas da Surdez acabei descobrindo que uma das Top 3 coisas que mais tiram o sono das pessoas com deficiência auditiva é a questão amorosa. Vamos levar em conta que as pessoas que lêem este site são surdas oralizadas e a grande maioria se relaciona com ouvintes. Particularmente sou contra esse pensamento de ‘sou surda, tenho que namorar com um surdo pois só ele vai me entender‘ – o mundo é diverso demais para pensarmos assim e isso nada mais é do que medo de sair da zona de conforto. Você tem que se sentir seguro(a) e confiante para namorar com quem quiser! Conheço muitos casais surdos e conheço muitos casais em que um ouve e o outro não, e cada um encontra sua dinâmica própria de convivência. Mas acho que algumas dicas básicas são essenciais!

Aprenda tudo o que puder sobre deficiência auditiva

Se você começou a namorar com alguém que tem DA, aprenda todos os termos: DA, AASI, IC, etc. O assunto agora é da sua conta sim, afinal, você agora convive com uma pessoa que não ouve ou não ouve muito bem. Leia livros, acompanhe sites, faça parte de grupos. É muito bacana compartilhar experiências com pessoas que estão vivendo as mesmas situações que você. Aprenda, principalmente, tudo o que NÃO deve fazer e falar a respeito dessa questão.

Articule bem os lábios enquanto estiver falando

Quando temos deficiência auditiva, uma das coisas que mais nos acalma é falar com pessoas que articulam bem os lábios, já que nossos olhos trabalham junto com nossos ouvidos, aparelhos auditivos e cérebro para desvendar a fala humana. As pessoas costumam falar rápido e articular mal as palavras. Convivendo com um surdo no dia-a-dia você verá que, além de necessária, uma boa articulação fará com que até você mesmo espere isso das outras pessoas com quem conversa. Articular bem os lábios demonstra respeito e cuidado. Pratique!

Descubra o modo correto de chamar seu(sua) namorado(a)

Ele(ela) usa aparelhos ou implante? Escuta bem com eles? Prefere ser chamado em voz alta ou prefere que você entre no seu campo de visão e cutuque-o(a) para chamar sua atenção antes de iniciar um diálogo? É preciso saber disso. Quando usava aparelhos sempre preferi ser cutucada antes que começassem a falar comigo – ninguém gosta de pagar mico e ver alguém berrando seu nome pela quinta vez enquanto você nem tchuns – porém depois de voltar a ouvir com um implante coclear prefiro ser chamada pelo nome do que cutucada. O segredo é: pergunte ao seu(sua) namorado(a) o que ele prefere e siga a instrução.

Use modos alternativos de comunicação

Antes de voltar a ouvir meu maior trauma sempre foi o telefone. Tinha calafrios ao ouvir um telefone tocar e morria de medo que a ligação fosse para mim. Quando era adolescente e meus namoradinhos ligavam para a minha casa, eu mandava dizer que não estava. Quando estava na faculdade ainda não havia SMS então quando um namorado ligava eu pedia para uma colega atender ou então ignorava a chamada. Hoje em dia, graças a Deus, existem modos alternativos de comunicação: SMS, WhatsApp, FaceTime, Messenger e uma infinidade de aplicativos. Faça uso deles. Para a maioria absoluta das pessoas que não ouvem ou ouvem mal, ligação telefônica é sinônimo de tortura chinesa.

Comece a aprender a ler lábios

Seu(sua) namorado(a) provavelmente será expert em leitura labial, e seria muito legal se você se propusesse a aprender. Não existe curso ou aula para isso, é questão de observação. Fique de olho nas bocas das pessoas enquanto elas falam para que seu cérebro possa gravar o significado sonoro da articulação dos lábios em cada palavra. Assim, vocês podem até se comunicar sem som em locais barulhentos, apenas lendo os lábios um do outro.

Eduque seus amigos e sua família

Um terror de quem não escuta é conhecer a família e os amigos do(a) namorado(a), e com razão, afinal, são novas pessoas e novas bocas para desvendar. Explique para os seus esses pontos básicos acima, eduque-os e peça que respeitem esses detalhes. Como vamos gostar de uma sogra que fala enquanto estamos de costas para ela ou como vamos acompanhar a conversa de um grupo de amigos se todos falam ao mesmo tempo? Impossível. Eles não são obrigados a saber essas coisas se nunca conviveram com um surdo, mas se a partir de agora irão conviver, é questão de bom senso e educação saber como lidar conosco.

Saiba quais programas não são legais para ele(ela)

Não convide seu(sua) namorado(a) para ir assistir a um filme sem legendas. Saiba antes de propor uma balada – costumamos detestar ambientes escuros e barulhentos. Escolha restaurantes e lugares que não sejam escuros/barulhentos demais, afinal, mesmo que vocês estejam a sós a pessoa vai precisar enxergar o seu rosto para conseguir se comunicar numa boa com você. Saiba se ele(ela) gosta de programas com várias pessoas. Enfim, investigue o que seu cônjuge DA prefere.

Descubra nuances e crie intimidade

Lembro que eu tinha pavor que algum namorado passasse a mão perto dos meus aparelhos auditivos por causa da microfonia. Quando era mais nova também detestava que ficassem olhando fixamente para meus aparelhos, que respondessem por mim quando alguém me perguntava alguma coisa ou que falassem sobre a minha deficiência auditiva antes que eu mesma fizesse isso. Existem certos detalhes e nuances que você irá precisar descobrir para não pisar na bola sem querer ou magoar a pessoa que você gosta. Fique esperto!

Busque acessibilidade

Ative as legendas das TV’s da sua casa, cobre isso das pessoas com quem vocês convivem, procure programas culturais acessíveis, descubra cinemas que legendem toda a programação. Nós agradecemos imensamente!

Incentive a autonomia

Que tal dar de presente de aniversário um despertador vibratório? Ou um telefone com amplificador? Ou um acessório legal para o aparelho auditivo/implante coclear? Acho muito bacana quando um namorado(a) incentiva a pessoa com deficiência auditiva a ser o mais independente e autônoma possível. Isso faz bem para os dois.

Incentive a reabilitação auditiva – mas saiba que ela não faz milagres

A tecnologia faz maravilhas por nós mas, infelizmente, não faz milagres. O fato de um DA usar um aparelho auditivo ou um implante coclear não faz com que ele tenha a audição perfeita e muito menos com que ouça e entenda todos os sons que você ouve e entende. Tenha isso em mente. Uma das coisas mais frustrantes para nós é termos que ouvir de pessoas que amamos frases horríveis como: “Mas você não está de aparelho?”, “Você não ouviu isso?”, “Como assim você não entendeu o que eu disse se você está de aparelho?“. Ninguém merece! Quando namoramos com alguém que ouve temos também que entender o lado do ouvinte e como podemos retribuir a atenção e o respeito que recebemos. Todos os dias recebo emails de ouvintes que namoram com surdos reclamando que eles não querem usar aparelho. Já escrevi aqui e reitero minha opinião: se temos AASI’s ou IC’s que, quando usados, melhoram nossa audição e atenção, acho um tremendo egoísmo não usá-los. Passar toda a responsabilidade auditiva (leia-se chatices como interfone, campainha, alarmes, batidas na porta, sons estranhos, telefone, etc) para o ouvinte quando você pode ajudar com isso é sim, puro egoísmo. Se você namora alguém com DA, informe-se sobre reabilitação auditiva e incentive a pessoa a buscá-la. Em alguns casos, ela muda vidas!

165 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

15 Comentários

  • Uau…. Muito bom! Fato de tudo que falou! Minha deficiência é hereditária…
    Sou deficiente neurosensorial bilateral profundo, usava aparelhos mas, infelizmente não consegui acostumar e agora, fiz ic no dia 19/05/17, e estou esperando ativação! Não sei como será… Mas espero q de tudo certo…
    Leitura labial, aprendi qdo mais novo, hj tenho 37 anos, percebi q não estava mais captando as palavras e apelei pela Leitura labial…. E me dei bem… Algumas pessoas compreendiam e outras ficavam sem reação, achavam q eu era retardado…. Kkkk.. Mas faz parte…. Bjao Paula

  • Já tinha visto um post parecido cim esse. De qualquer forma bom e importante saber, são situações especificas com certeza para saber lidar. Boa essa postagem.
    Grata,
    Ana Lucia Santiago

  • Amei a matéria, sou deficiente auditiva oralidade. Perdi a audição aos 32 anos e sofro muito com isso. Sou viuva e pra mim é muito difícil conversar a respeito.
    Conheci vc numa entrevista na tv e gosto muito do seu trabalho.
    Bjos

  • Oi meu nome é Aparecida sou deficiente auditiva ,eu tenho 40anos. Eu não tenho condições comprar aparelho auditivo. Eu não namorar ninguém eu falar normal pouco enrolado. Eu tenho vergonha na pessoa dá rir falar pouco enrolado, ouve pessoas Entendo o que você falar eu não sai sozinha .eu sai minha mãe. Minha mãe não deixa sai sozinha, eu fiquei muito triste. Eu percisa namorar casar .minha vida é assim que apenas muitos triste, meu nome é Aparecida Pereira da silva ,eu mora suzano sp .bj

  • USO APARELHO AUDITIVO ,NÃO CONSIGO OUVIR DIGAMOS NORMALMENTE.SINTO MUITA DIFICULDADE EM CAPTAR OS SONS ,ISSO ME DEIXA DEPRESSIVA.GOSTARIA DE SABER SE EXISTE UM APARELHO QUE NÃO FIQUE VISÍVEL.ONDE ENCONTRÁ-LO.QUAL O PREÇO?USA-SE NORMALMENTE OU DEPENDE DE CIRURGIA.COMO FUNCIONA O IMPLANTE .SE É DOADO PELO SUS,OU SE PARTICULAR QUANTO CUSTA A CIRURGIA INCLUINDO OS APARELHOS,NO MEU CASO SÃO DOIS.SOU PROFESSORA APOSENTADA PELO ESTADO E GOSTARIA DE SABER SE O ESTADO DÁ ESSE TRATAMENTO VEZ QUE PERDI MINHA AUDIÇÃO EM SALA DE AULA.

  • A materia e bem interessante e as dicas validas, mas alguns pontos sao relativos, ou em muitos casos, nao se aplicam. Sou interprete e meu esposo tem surdez bilateral profunda. Essas questoes dependem muito da identidade que a pessoa surda assume. Se voce, por exemplo, incentiva um implante ou (re)habilitaçao a uma pessoa que assume sua surdez tranquilamente, e mais facil perde-la que ganha-la. Se voce quer mesmo namorar com uma PESSOA surda, trate a surdez como um detalhe, afinal, o que lhe interessa e a pessoa. Deixe que ela mesma te mostre como ela deseja ser tratada.

    • Nubia tudo bem?

      Esse post foi escrito pensando em surdos oralizados e que usam a tecnologia para ouvir o que for possível. A questão aqui não é assumir a surdez, somos todos assumidos porque somos surdos, a questão aqui é querer qualidade de vida.
      Concordo contigo q cada um sabe como deseja ser tratado.
      Bjo,

  • Adorei a matéria!
    Tenho um sobrinho de 12 anos implantado desde 1 ano e meio e é sempre bom estarmos informados sobre o assunto.
    Parabéns!

  • Paula, conhrci seu blog há uns tempinhos até realmente adorei!
    Sou surdo sinalizado e estudante de jornalismo (sei ler e escrever normal). Gostei este post mas sua dicas são para surdos oraluzadas, pode fazer outra dicas para surdos sinalizados nos próximos post?
    Beijos,
    Mauricio Massouh.

    • Olá! Também sou estudante de Jornalismo (3 período), e sou surda oralizada.
      E gostei muito de saber que você é estudante de jornalismo… Parabéns pela coragem e determinação!
      No entanto creio que Paula não faria uma postagem te especifica sobre surdos sinalizados, pois não é a especialidade dela.

      • Sem desmerecer ninguém,mas desde a pagina inicial fica explícito que o blog tem o foco em surdos oralizados com AA,implantado e etc.
        Tem um”site” não lembro direito,chama “SURDOSOl”
        Acho que ele vai gostar!
        Oi Anne 🙂

  • Foi por namorar um DA que descobri esse blog. Queria entender melhor esse universo e acabei me interessando pelo que a tecnologia pode proporcionar a essas pessoas.
    Depois de muita conversa e incentivo eu, juntamente com a família do meu namorado, o convencemos a fazer a implante coclear. Ele nasceu com surdez profunda bilateral e hoje, aos quase 38 anos, consegue ouvir apenas uma quantidade limitada de frequências com o AASI, nada de voz. Ele sempre treinou leitura labial e a faz muito bem. Estou apreendendo também aos poucos.

    Paula, você acha que o cérebro dele será capaz de interpretar bem a voz com o implante coclear a ponto de não precisar recorrer o tempo todo à leitura labial? Pergunto isso porque sei que quanto mais cedo o implante coclear for feito em uma criança melhor, mas no caso dele ele nunca teve contato com a voz e já tem quase 38 anos….

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