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Dicas para aprender leitura labial

Quer ou precisa aprender leitura labial? Então esse post foi feito para você! Quem leu meus livros sabe que eu descobri que lia lábios muito cedo, bem pequenininha mesmo, ao perguntar para a minha vó Tereca enquanto assistia um pronunciamento do presidente americano George Bush: “Vó, você não acha que esse homem não mexe direito a boca?“. Um pingo de gente tentando fazer leitura labial numa língua que ainda não conhecia, o inglês. Lembro disso direitinho até hoje…

Embora meu diagnóstico de surdez tenha vindo muito tarde na vida, ela já estava comigo há vários anos, e por isso minhas memórias que têm a ver com leitura labial são super claras. Lembro, por exemplo, de ler a boca da minha mãe de ponta cabeça e ainda assim conseguir entender o que os lábios dela me diziam. Até hoje, quando penso em alguém, o que me vem à mente não é o rosto da pessoa, mas sim os seus lábios. Aprendi sozinha, com aquela neuroplasticidade maravilhosa que só uma criança possui, por força das circunstâncias. Como não fiz nenhum curso (e pelo que sei nem existe curso de leitura labial no Brasil), vou compartilhar com vocês algumas dicas que me ajudam e ajudaram muito ao longo dos anos. A leitura labial é vital para pessoas com deficiência auditiva! 🙂

Sua atitude é importante

Muitas pessoas me procuram querendo saber como aprender e, na primeira tentativa, começa o chororô: “Ai, mas é muito difícil!“. Difícil foi minha primeira aula de francês na surdez severa sem aparelhos auditivos, gente. Hehehe! Falando sério, o cérebro não faz click a jato com qualquer novidade, especialmente uma dessas, que requer esforço da parte dele. É uma questão de prática diária e de persistência. Se você está com algum grau de surdez, aprender a ler lábios vai quebrar um galho e lhe ajudar nos momentos mais impensáveis. Vale muito a pena aprender! Não vai ser rápido nem fácil, mas é algo útil pelo resto da vida, ou seja, vale o empenho. Sabe aquela frase que diz que quem quer, dá um jeito, quem não quer, dá uma desculpa? Pois é, se aplica ao caso.

Comece pelo básico

A dica mais básica que dou é a de ativar as legendas e prestar atenção na boca das pessoas que falam na TV. Alterne o exercício: com som e sem som. A junção de cada vogal com cada consoante faz um movimento labial, ou seja, tem uma certa decoreba envolvida. O que é decorar movimentos de lábios pra quem decorou toda a tabuada e os planetas por ordem de grandeza, gente?

Preste atenção no contexto

Às vezes você “lê” errado uma boca mas, se tiver prestado atenção no contexto envolvido, rapidamente seu cérebro lhe mostrará o caminho correto. Exemplo: você entende ‘fecha a canela‘. Sabe que não tem como fechar uma canela (!!). Olha ao redor e vê a janela aberta. Fácil perceber que a canela era a janela, certo? Quem faz leitura labial precisa estar atento ao contexto da frase, do momento, das pessoas envolvidas.

Peça para falarem devagar

Tenho 35 anos de leitura labial e nada me tira mais do sério do que tentar ler lábios em espanhol. O povo fala rápido demaisssss. Quando entendi a primeira frase, já pronunciaram a quinta. Outra coisa que me deixava louca era tentar ler os lábios dos locutores de jogos de futebol, que falam com uma rapidez impressionante! Se você for iniciante, dê-se o direito de pedir às pessoas que falem mais devagar do que o habitual. Não é lendo lábios ‘tartaruga style‘ que você vai ficar expert, mas no início, a articulação labial tem que ser mais lenta, assim nosso cérebro capta o movimento das bocas em câmera lenta e grava melhor a informação.

Vá se olhar no espelho

Se você estiver mesmo empenhado na causa, um bom exercício é treinar sozinho no espelho. Comece com uma lista de palavras, fale devagar e depois em velocidade normal, repetindo cada uma várias vezes enquanto observa o movimento dos seus lábios.

Arranje um parceiro

Se você tem um amigo ou parente que articule bem os lábios e com quem você passe relativamente bastante tempo, peça a ele para ser seu parceiro de aprendizagem. Quando saírem juntos, combinem de só se comunicar sem som. Quando criança, minha mãe era minha ‘intérprete de boca‘ sem saber: quando não entendia o que alguém tinha dito, olhava pra ela, que repetia pra mim com aqueles lábios que já eram meus velhos conhecidos, facilitando tudo!

Dê um nó no cérebro

Minha exposição ao espanhol durante a vida foi quase nula. Um dia, comecei a ler livros em espanhol, fu pegando vocabulário sem pretensões. Até que uma noite baixei um filme pra assistir e o áudio era em espanhol mas as legendas em português. Foi então que descobri que o cérebro humano adora um nó, adora ser desafiado e ter que rebolar pra conseguir dar conta do recado. A dica aqui é assistir um filme numa língua que você quer aprender ou melhorar, com as legendas em outra língua (pra facilitar, melhor começar com português mesmo), prestando muiiiiita atenção nas bocas dos personagens. Desse modo você mata dois coelhos juntos: pega vocabulário em outra língua e pega movimentos labiais em outra língua. Otimização do tempo bacana, hein?

Leitura labial é um exercício intenso de observação. É repetição, é decoreba, é atenção, é vontade de aprender. Eu juro que não tem mistério. Quem fica surdo cedo na vida aprende de um modo compensatório e mais rápido, mas NADA impede um adulto de começar a ler lábios. Nada mesmo. É puro esforço. Encare a missão como um estudo avançado do ser humano, pois você tornará um grande observador de lábios, de movimentos corporais, dos locais onde está. Aliás, leitura labial é tipo jogo de memória! A palavra ‘boca’ sempre será pronunciada do mesmo jeito, o que muda são as feições e os lábios de quem pronuncia. 😉

Dica: neste link tem um curso online de leitura labial em inglês! No YouTube só encontrei vídeos bobos de desafio de leitura labial, nada direcionado a nós. Mas se alguém tiver alguma dica boa, deixe nos comentários!

53 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

17 Comentários

  • Querida Paula, adorei esse artigo de leitura labial foi muito completo e realmente esclarecedor também eu vou fazer tudo que escreveu nesse post e vou ver como me saio. Adoro leitura labial é muito legal.
    Parabéns pelo post.

  • Adorei o site, muito bom . Eu já fazia leitura labial a algum tempo , mas confesso que estava fazendo da forma errada. Muito esclarecedor seu artigo, parabéns e sucesso pra você!

    Obrigado por compartilhar um assunto tão importante como esse!

  • Oi Paula parabéns pelo blog cheguei aqui por acaso nesse artigo, mas gostei de tudo que vi, da para perceber que você é uma pessoa maravilhosa pelo que se vê aqui e pelo que escreve, dando voz a quem muitas vezes é tratado com preconceito, parabéns

  • Eu comecei a fazer leitura oro-facial inconscientemente, já que comecei a perder a audição há uns 20 anos e aos poucos. Diagnosticada com surdez severa bilateral e hereditária, depois de me dar conta de que meu zumbido não me deixava mais dormir. Leio a face como um todo, pois percebi que deixava as pessoas desconfortáveis, mas quando não consigo entender, “miro” diretamente na boca do meu (a) interlocutor (a) e uma luz se acende!
    Bjs

  • Paula, eu gostaria de deixar uma dica, mas acredito que vc deve conhecer já.
    Eu gosto muito dos videos da Rachel’s English – American Pronunciation para estudar o inglês e aperfeiçoar a pronúncia (https://www.youtube.com/watch?v=zash7H0eMQ4).
    Ela tem um site e dá pra baixar os vídeos lá também (http://rachelsenglish.com/)
    No meu caso, melhorou demais a minha pronúncia.
    Mas é exatamente como você falou: tem que praticar bastante.
    BJs!

  • Meu nome é Janaina sou de Araucária inteirior do Paraná eu tinha 5 naos quando minha mãe descobriu o por que eu não estava escutando, pois através de uma dentista que fui, ela falava comigo com a máscara na boca e eu não entendia nada, ai a minha mãe me levou no fono e viu que eu tenho problema de audição com perda severa, ganhei aparelhos, a partir daí que fui acompanhando leitura labial com fono e comecei a falar enrolado mas fui aprendendo rsrsrs e aos poucos fui falando bem, já aprendi libras, mas não me acostumei por que eu já estava comunicando com a fala mesmo e hoje tenho 28 anos casada e muito feliz!

  • Nasci surda, então meio que virei expert em leitura labial kkkkk
    Sempre digo que todos em algum nível fazem leitura labial, porém a necessidade meio que alavanca essa habilidade. Antes do IC passei anos sem usar o AASI por preguiça, já que não me ajudavam muito, então demorei para me dar conta que minha irmã sempre conversava comigo sem voz, rápido e sem gestos. Nem vou comentar como isso era um espetáculo meio bizarro para quem via de fora, já que só ouviam minha voz!

  • Excelente! Comigo eh igualzinho, nao entendo muito a LOF em espanhol, mas agora depois do IC esta mais facil. Estou tentando aprender a lingua, ontem a noite assiti a um filme Espanhol no Netflix com audio e legendas – e LOF no idioma. Muito mais facil ver o filme no idioma/legendas no original pq legendas em ingles ia dar no, neh?

  • Eu confesso que já fazia leitura labial há algum tempo, mas de forma inconsciente porque o surdo naturalmente se esforça para ouvir e isto é uma ferramenta que temos para nos virar quando necessário. Não tinha refletido sobre a importância de ler lábios de forma inteligente, ou seja, usar os mínimos detalhes para estabelecer regras de aprendizagem. Valeu Paula pelas dicas.

  • Esses dias eu falei pra minha mãe: mãe, ou eu ainda escuto bem, ou eu sei muita leitura labial. kkkkk
    Aos 15 anos, quando ganhei meu primeiro aparelho, eu tinha perda bilateral. Pelo SUS msm, tem uma fono que ela fazia reabilitação auditiva, que era pra vc se adaptar com o aparelho e servia para aprender leitura labial.
    A gente ficava em um sala fechada, uma sentada de frente para a outra, separadas por uma mesinha. Então ela tinha um caderninho com várias palavras e frases, e ela me falava a palavra com a mão em frente a boca que era pra não fazer leitura labial e tentar entender só ouvindo. Falava, e eu tinha que repetir, quando ela falava a palavra umas três vezes e msm assim não consiga entender, ela tirava a mão e deixava eu fazer a leitura labial, e sr msm ainda não entender ela fazia mímica. Kkkkkk
    Começamos com palavras fáceis, depois as palavras com fonética mais difícil. A frases tbm, começamos com frases curtas e depois mais longas.
    A questão do contexto tbm é importante. Como na época eu ainda estudava, ela fazia uma lista de palavras com coisas de escola, tinha uma lista de palavras com coisas que falamos diariamente. Com o contexto, ficava até fácil vc saber uma palavra.
    Foi um treinamento de anos, é realmente, hoje isso me ajuda bastante. Recomendo! Há, e pode fazer em casa tbm com a ajuda de um ouvinte.

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