Viagem Viajante Biônica

Dicas para viajar tendo deficiência auditiva

Hoje é dia de dar boas dicas para quem quer viajar e tem deficiência auditiva! Eu amo viajar e sou uma Viajante Biônica com muito orgulho! Já escrevi sobre minhas viagens para a revista TAM nas Nuvens em 2012 e para a revista Viajar pelo Mundo em 2015. Pensando nisso, acho que chegou a hora de escrever um post recheado de dicas de viagem para quem, como eu, convive com a deficiência auditiva e tem planos e sonhos de desbravar esse mundão. 🙂

O vôo

Minha experiência avisando companhias aéreas sobre minha deficiência auditiva foi sempre péssima, pois nunca ganhei acessibilidade por causa disso. Apenas me colocaram numa fileira especial do avião que, de especial, não tinha nada. Porém, avisar a companhia aérea pode ser uma ótima dica quando você viaja sozinho! Pedindo assistência especial, eles vão lhe colocar junto às outras pessoas que também pediram, e assim você não perde o vôo pelas trocas de portão de embarque. Viajando sozinho a dica é: avise!

Se for vôo internacional, a melhor dica que posso dar é: saiba pelo menos o básico do inglês. Nem todos os comissários falam português e isso pode ser um problema. Deixe um bloquinho + caneta por perto e, se rolar algum problema de comunicação oral, apele para a comunicação escrita. Em geral os comissários costumam ser muito educados e abertos, não tenha vergonha de pedir a ajuda que for. Aliás, não tenha vergonha de pedir ajuda nunca, seja a quem for.

Acessibilidade na programação do avião é algo que quase não existe. Já fiz um post sobre uma companhia aérea acessível a surdos oralizados que é americana e deu show quando peguei um vôo deles: toda a programação era legendada, quase chorei de emoção. A maioria dos vôos que pego tem filmes legendados, mas são tipo 5% do total dos filmes – isso pode ser muito chato quando se pega um vôo de 13 horas, por exemplo. Portanto, a dica é: leve um livro, leve seu notebook com alguns filmes legendados baixados com antecedência, leve seu iPad e alugue e baixe filmes na Apple antes de voar.

Outra dica importante: escolha um assento que colabore com o seu melhor ouvido. Quando viajo acompanhada vou mais tranquila, mas quando viajo sozinha escolho sempre o assento da janela da fileira da esquerda do avião, porque o meu ouvido melhor é o direito. Desse modo, evito qualquer tipo de mico nos ares. Se a pessoa ao meu lado decidir falar comigo, meu ouvido direito estará de prontidão, se o comissário me chamar, idem. E o esquerdo fica virado para a janela, rsrsrs!

Preste atenção ao início do embarque, pois eles em geral chamam por alto-falantes. Nessas horas o jeito é cutucar alguém e pedir ajuda para saber quando é a sua vez.

O hotel

Se você for para os Estados Unidos, saiba que quase todas as grandes redes de hotéis têm quartos acessíveis e você pode pedir para ficar num deles. Mas a dica é: avise sobre a sua deficiência auditiva ao fazer check-in na recepção. Este quarto possui aviso luminoso de incêndio e aviso luminoso quando batem na porta, mas infelizmente ainda não estive num hotel que resolvesse a questão do telefone para quem não ouve. Serviço de quarto viajando só segue sendo um perrengue para quem não ouve porque os hotéis não fazem uso da tecnologia disponível (alô, WhatsApp, SMS, email) e seguem reféns – e nos fazendo reféns também – do telefone.

A dica de ouro é: leve o seu despertador vibratório na viagem e não dependa de ninguém para acordar! 🙂

Usa implante coclear?

Eu só viajo com pilhas – deixo a parafenalha toda de bateria recarregável, recarregador e fios em casa. Quando menos coisas você tiver que pensar e prestar atenção, melhor. É um porre ter que viajar raciocinando se a bateria está carregada ou não, se tem bateria extra, se tem adaptador para a tomada de outros países… Mato a charada com pilhas (aliás, por mim só usaria pilhas sempre) e viajo sem stress. Só não pode esquecer de fazer as contas com antecedência e levar sempre mais pilhas do que o necessário, pois prevenir é melhor do que remediar, e além disso eu nunca vi pilhas de IC para vender em lugar nenhum no exterior.

As marcas recomendam que você não passe pelo detector de metais se usa IC, mas posso falar por experiência própria: isso é uma besteira! Avisar que tem IC só serve para ficar plantado um tempão esperando que surja alguém para fazer a revista manual, e esse alguém nunca ouviu falar de implante coclear. Você perde o maior tempo. Passo pelo detector de metais sempre – e confesso que com os IC’s ligados. Mas, como não posso dar dica furada, a dica é: passe pelo detector numa boa, ele não apita, mas desligue seus processadores antes de passar para evitar desprogramá-los.

Ponha nos seus processadores seus dados pessoais + telefone, para o caso de perdê-los. Assim, quem os encontrar saberá a quem pertencem. Não custa nada fazer isso e é super fácil.

Usa aparelho auditivo?

Mesmas dicas acima! Só acrescentaria uma que esqueci: não esqueça de levar o seu desumidificador e colocar os seus aparelhos auditivos nele toda noite. Na minha opinião, os melhores são os modelos elétricos, que dispensam sílica.

Faça seu estoque de pilhas e espalhe pela bolsa, mala, pochete, nécessaire, bolsinha de mão e onde mais for – imagine colocar tudo numa mochila e perder a mochila no aeroporto? Acontece!

Locomoção

Hoje existem aplicativos que são uma salvação, como o Uber. Não precisamos mais sentir medo de cair nas garras de taxista inescrupuloso – isso já me aconteceu na Grécia e foi assustador!

Google Maps, nem preciso dizer! Uma dica: se for viajar sozinho, evite o perrengue de alugar carro, especialmente se você não escuta ao telefone. Não é questão de ser pessimista, mas sim realista. Você pode furar um pneu (aconteceu comigo em maio em Portugal), bater em outro carro, o carro pode pifar… e chamar socorro, em todos os países, envolve telefone.

Muito importante

Faça seguro saúde internacional. Nunca, jamais, em hipótese alguma, viaje sem isso. Conheço muitas pessoas que sofreram acidentes, AVC’s e uma série de outros problemas de saúde em viagens, e todos dizem a mesma coisa: graças a Deus que eu tinha feito o seguro. Faço através de agência de viagem, mas hoje em dia é possível fazer até mesmo online.

Ative seu pacote de dados internacional do celular ou então compre um chip local. Nenhuma pessoa com deficiência auditiva em viagem pode se dar ao luxo de ficar offline. Qualquer problema pode ser resolvido com um toque no smartphone, mas, para isso, você precisa ter internet – e nem todos os países têm o costume de wi-fi free facilmente encontrável.

Baixe apps que vão te ajudar durante a viagem: Uber, WhatsApp, conversor de texto em voz e vice-versa, tradutor de idiomas, etc.

De 6 a 3 meses antes de embarcar

  • Compre as passagens – quanto maior a antecedência, melhor o preço, e, além disso, alguns cartões de crédito oferecem parcelamento especial e descontos também. Você já pode aproveitar e comprar o seguro viagem/saúde internacional, que geralmente é obrigatório;
  • Faça uma tabela de dias de semana + número dos dias para saber quando você vai estar em cada lugar e organizar as datas de check-in e check-out dos hotéis a partir dela;
  • Verifique se o passaporte está em dia;
  • Faça extensa pesquisa sobre hotéis e aluguel de apartamentos por temporada;
  • Compre um caderninho e comece a anotar os nomes e endereços dos restaurantes/lojas/cafés que você quer conhecer em cada cidade;
  • Compre livros como o Time Out que vêm com um mapa detalhado das ruas das cidades;
  • Verifique a agenda de shows e exposições para poder comprar ingresso antes que eles esgotem;
  • Marque hora no médico caso você faça exames de rotina esporádicos, pra saber se a saúde está em dia.

1 mês antes

  • Faça a carteira de motorista internacional caso pretenda alugar um carro (paguei uma pequena taxa e ela ficou pronta em dez dias úteis). A CNH internacional tem a mesma validade da sua CNH;
  • Finalize a reserva dos hotéis;
  • Faça reservas em restaurantes badalados que queira visitar, por garantia;
  • Agende seu transfer do hotel ao aeroporto, ou verifique o meio mais conveniente de chegar até seu hotel (uso muito o Uber);

 1 semana antes

  • Ligue para os cartões de crédito e avise que você vai viajar para que não bloqueiem seu cartão enquanto estiver no exterior;
  • Não esqueça suas senhas de saque de valores dos cartões;
  • Junte a papelada que podem pedir na imigração: comprovante de residência, de trabalho, etc.
  • Imprima toda a papelada que comprove a sua viagem: voos, reservas, trens. É interessante até as faturas de cartão de crédito nas quais já tenham sido debitadas reservas ou qualquer coisa paga antecipadamente;
  • Pague ou agende o pagamento de contas que vão vencer enquanto você estiver fora;
  • Faça uma mala “simulada” e a pese, para saber se vai pagar excesso de bagagem;

3 dias antes

  • Organize a carteira e os documentos que vão viajar com você, e coloque junto o endereço dos hotéis;
  • Ative o internet banking (seu e das pessoas que vão viajar com você) no laptop ou tablet que for levar na viagem;
  • Compre euros/dólares;
  • Deixe todo o seu roteiro (com endereços,datas, telefones e números de voos) para uma pessoa da família.

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29 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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