Histórias dos Leitores

Dois filhos e duas experiências: som e silêncio

“Oi, Paula,

Sou a Antônia Carvalho, de Belo Horizonte. Com trilha sonora o mundo é mais bacana? Sim! E mais emocionante, para o melhor e para o pior! Fiquei surda do ouvido esquerdo aos 15 anos por contrair catapora e aos 34 tive um neurinoma do acústico no ouvido direito e daí… foi o silêncio total! Foi como a sensação de um mergulho permanente: eu sabia que os sons existiam, mas não me alcançavam! Bom, a vida continuou, me casei, engravidei e fomos ao primeiro ultrassom. Na tela tinha um ponto meio sem forma, no meio de uma bola mais sem forma ainda e o médico anunciou que ouviríamos o coração do bebê. Ouviríamos quem, cara pálida? Ele e o marido, né? Eu vi o traçado dos batimentos no monitor, ponto! Aí veio o parto e eu vi aquela boquinha linda tremendo de tanto chorar e achei a coisa mais preciosa do mundo! Depois vieram as dores de barriga, tadinho , mas confesso que fui uma mãe bastante calma, que não se afobava demais ao ver o filho chorar! Me preocupava muito estar em casa sozinha com ele porque temia que ele precisasse de mim e começasse a chorar sem que eu visse, por isso estava sempre por perto! O Nando começou a andar em janeiro de 2001, com 1 ano e muitas vezes me virei e o encontrei atrás de mim, vermelho de tanto chorar! Me dava uma culpa danada! Em junho fiz meu Implante Coclear e ele foi ativado em julho, daí ouvi meu filho chorar, gargalhar e me chamar de mãe: Mamãe!

Quatro anos depois vamos novamente fazer um ultrassom, aparece outro pontinho sem forma dentro da bola e….tum tum…tum tum…tum tum…! Meu Deus! Sem palavras! Não sabia se ria ou chorava! Que coisa preciosa! Ah, o parto! Claro que eu ia ouvir cada barulhinho da sala de parto! Meu implante era de caixinha e minha mãe fez uma espécie de braçadeira para que eu pudesse ficar com o aparelho em segurança e lá fui eu, animadíssima! Nossa, que salinha barulhenta! Que bagunça! Deu vontade de falar: vamos botar ordem nessa casa!

Mas aí, de repente ouço um choro forte! Ai, Deus, sem palavras de novo! Que coisa mais concreta é pegar um filho no colo pela primeira vez desfrutando de olfato, visão, tato e audição! Tudo divino e maravilhoso? Nem tudo! Na hora das cólicas a aflição era enorme! Que desespero! Parece que a dor era pior e a necessidade de fazer com que ela parasse era muito mais urgente! De enlouquecer ver a carinha de sofrimento adicionada aos berros de dor! Em compensação eu pude acudir a cada resmungo que vinha do berço , lá do outro quarto, pude acompanhar as primeiras palavrinhas, pude comprar uma babá eletrônica e relaxar porque sabia que ouviria se minha filha precisasse de mim!

Dois filhos e duas experiências totalmente diferentes! O mundo é melhor para quem ouve? Não posso falar pelos outros, mas pelo menos pra mim agora ele tem mais cor e sabor! Sim, o som tempera e colore minha vida!

40 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

1 Comentário

  • Olá Antônia!

    Adorei a sua história. Sou do Rio, trabalho em uma Tv bilíngue e gostaria de conversar mais com você.

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