Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva Implante Coclear

Enfrentando a surdez com amor

‘Como alguns sabem, minha esposa Paula é surda. Eu a conheci logo após ela ter se submetido a um implante coclear (hoje ela é implantada bilateral), o que facilitou bastante a nossa comunicação e aproximação.  Entretanto, usar implantes cocleares ou aparelhos auditivos não significa poder ouvir normalmente. Primeiro porque esses dispositivos ainda precisam ser desligados para se tomar banho, dormir, dar um mergulho, quando acaba a bateria ou quando têm defeitos.

Além disso, a audição através da tecnologia possui algumas limitações. Nesses 3 anos de convivência, aprendi muitas coisas que a medicina não ensina sobre surdez e amor. Tenho certeza que muitos pais, filhos, maridos, esposas e amigos vivem algo parecido com as situações que vou descrever aqui…

Por outro lado, como médico tratando de pessoas com deficiência auditiva, estou acostumado a enfrentar diariamente dois desafios:

  1. Diagnosticar a perda auditiva, sua magnitude e decidir quais as medidas necessárias para sua melhor reabilitação. Isso pode envolver o uso de aparelhos auditivos, um implante coclear e terapias fonoaudiológicas para estimulação e treinamento auditivo.
  2. Adequar o deficiente auditivo ao seu meio familiar e social. Fazer as pessoas próximas entenderem que a comunicação oral tem dois lados igualmente importantes: O de quem fala e o de quem escuta. Não é raro que essa seja a tarefa mais árdua do que a primeira.

Quem nunca teve dificuldade de entender alguém que fala muito rápido, com poucas expressões faciais, ou sem variações de tom de voz? É comum que algumas pessoas, quando começam a perder a audição, digam que não estão surdas e sim que alguém “fala pra dentro”… Grande parte das vezes essa “desculpa” é uma meia verdade. Alguém que fala muito baixo, de costas, com a mão na boca ou articulando mal as palavras não está colaborando para a boa comunicação. Isso vale para todos, especialmente para aqueles que têm perda de audição.

Assim, se você convive em casa, no trabalho ou com um amigo que tem uma perda auditiva, entenda que o aparelho auditivo ou implante coclear não são sensitivos. Eles não podem captar seus pensamentos. Expressar-se bem é o mínimo que cada um de nós pode fazer.

Levando em consideração minha experiência como médico e como marido, seguem algumas dicas que podem melhor muito sua comunicação (e sua relação) como quem tem alguma dificuldade para ouvir:

A comunicação não depende só da audição

Todos nós fazemos leitura dos lábios, da face, do corpo e do cenário. Para quem ouve com ajuda da tecnologia, a leitura labial ganha uma importância ainda maior. Assim, se você quer ser entendido, fale olhando para a pessoa, de forma clara e articulada. Minha convivência com a Paula ensinou-me a falar melhor com todos meus pacientes e amigos, mesmo aqueles com os que ouvem bem.

A perda de audição não se resolve apenas aumentando o volume

Existem muitas causas para a surdez. Elas causam lesões em algumas estruturas com funções diferentes. Graças a um fenômeno chamado “recrutamento”, a tolerância de algumas pessoas que usam aparelhos auditivos à volumes elevados é muito baixa e pode ser muito desconfortável. Nesses casos, gritar não resolve nada e pode piorar a situação.

A segurança de quem não ouve bem depende de você

Tape o nariz e não sinta cheiros, feche os olhos e caia na escuridão, não coma nada e não sinta o paladar, não toque em nada e não perceba o tato. Para a maioria das pessoas, todos os sentidos podem ser totalmente evitados, menos um: A audição. Os sons estão em toda parte, em todos os momentos. Mesmo tapando os ouvidos e diminuindo sua importância, não temos como viver no silêncio. Assim percebemos a importância da audição para nossa segurança. Se alguém que você convive não ouve bem, esteja atento e ligado aos sinais auditivos de alerta e perigo, principalmente quando ela está sem aparelhos ou implantes e assuma sua responsabilidade em protege-la.

Não queira ser os ouvidos da pessoa o tempo todo

Apesar do que acabei de dizer, alguém que busca sua reabilitação auditiva pode e deve usar (e treinar) ao máximo sua audição. Assim, deixe que ele se vire. Estimule sua independência auditiva. No meu dia a dia quando estou com a Paula, é sempre mais cômodo eu fazer uma ligação de voz, por exemplo, do que deixar ela faze-la. Mas se eu não a estimulasse a falar ao telefone, como se ela tornaria capaz disso? De vez enquanto, dou uma forçada pra ela falar sozinha. À principio ela não gosta, mas depois que acaba a ligação sempre faz uma cara de orgulho.

Algumas situações são muito ruins para quem não ouve bem

Usuários de aparelhos auditivos e implantes que podem ouvir bem em locais silenciosos podem ter grande dificuldade de compreender a fala em ambientes barulhentos. Isso faz com que encontros sociais ou familiares com muitas pessoas se tornem desgastantes. A palavra aqui é compreensão.

Aprenda tudo o que puder sobre surdez e seu tratamento

A reabilitação auditiva é amparada em ciência e tecnologia e portanto, um campo em constante mudança. Quem vive a deficiência todos os dias tem muitos desafios e pode não dar conta de se manter ligado em tudo que surge de novo. Sua ajuda pode ser fundamental para descobrir um novo acessório sem fio, um novo telefone mais adequado, a disposição correta dos móveis da casa ou um restaurante com a luz e o ruído adequados para irem jantar juntos.

Quando comecei a namorar a Paula, eu achava que o amor podia contornar todas as dificuldades que a surdez dela nos imporia. Eu estava redondamente enganado! Sua dificuldade de ouvir me tornou uma pessoa mais atenta, mais dedicada e mais consciente do meu papel na nossa comunicação. Foi assim que percebi que num relacionamento, a surdez não é algo a ser contornado, mas uma chance única de se aproximar de quem você ama de um jeito que você não conhecia.’

**Post escrito pelo meu marido, Dr. Luciano Moreira, que escreve o Portal Otorrino.

92 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

6 Comentários

  • Dr. Luciano fiquei emocionada com o seu depoimento, a sua inteligência e sensibilidade.
    Parabéns a você e a Paula.

    Um abraço,

    Anita

  • O AMOR É LINDO <3
    OBRIGADA AO CASAL A NOS AJUDAR TANTO. VOCÊS SÃO ENVIADOS POR DEUS, COM A MISSÃO DE FAZER O BEM A TANTA GENTE!

    • Isso tufo foi de uma importância enorme pra mim e vou mandar para meu narifo e meus filhos que por muitas vezes ainda não entendem que sou uma surda ouvinte e que apesar de usar aparelho auditivo não escuto e não compreendo o que falam como uma pessoa normal!Muito obrigada!

  • Nossa! Esse post conseguiu traduzir tudo oque tento explicar para todos ao meu redor. As pessoas não compreendem que apesar de eu estar com a protese auditiva, minha audição não será capaz de captar e identificar todos os sons ao mesmo tempo, eles acham que somos como os brinquedos a pilha, basta apertar o botão e funcionará perfeitamente. Muito dificil conviver com certas pessoas incompreensiveis, que só sabem perguntar: _ Cade seu aparelho?, _ Não está de aparelho hoje não?, _ Porque você não coloca o aparelho pra vc escutar oque os outros falam? . É cansativo, desgastante mesmo, por isso acho que tem horas que é melhor ficar no silêncio mesmo.

Deixe seu comentário