Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva Implante Coclear

Gravidez e surdez

Antes de fazer o primeiro implante coclear, ter filhos era algo que não estava nos meus planos. Eu não gostava da ideia de não ser 100% capaz de garantir  segurança de uma criança. Sim, sei que existem milhares de mães surdas que dão conta do recado, essa não é a questão. Estou falando sobre a minha experiência e os meus sentimentos a respeito disso. Eu, Paula, não queria me tornar mãe sem ouvir. E como nunca imaginei que um dia voltaria a ouvir do modo como ouço hoje, deixei esse assunto enterrado e segui vivendo.

A maravilhosa audição biônica (que para mim, hoje, é tal qual a minha audição natural em 90% das situações) remexeu com cada célula do meu corpo. Foi como se cada uma delas tivesse voltado à vida, tivesse voltado a vibrar, a respirar; é difícil explicar com palavras tudo o que senti depois da ativação. Quando entendi que havia conseguido sair da prisão do silêncio na qual achei que passaria o resto dos meus dias, foi preciso sentar e repensar minha vida, minhas escolhas. Tudo.

O destino deu uma forcinha para que muitas mudanças fossem aceleradas. Conheci o Luciano (começamos a nos falar no dia da minha ativação, 11/11/2013), me apaixonei, passei um ano na ponte aérea Rio-Santa Maria, viajamos juntos para vários lugares do mundo. A cada dia que passava, eu era capaz de fazer mais coisas que jamais sonhei que um dia seria capaz de voltar a fazer. Voltei a falar ao telefone. Voltei a ouvir música e entender a letra. Voltei a não ser dependente de leitura labial. Voltei a poder conversar no escuro. Voltei a ficar sozinha em casa sem medo. Voltei a poder me comunicar em outras línguas. Voltei a controlar minha voz. Voltei a reconhecer o barulhos mais ínfimos de uma casa.

Isso foi me enchendo de coragem e de vontades novas. Vi que estava vivendo na cidade errada, que estava há mais de década no emprego errado. Percebi que tinha vários sonhos não realizados por causa da surdez. No final de 2014, larguei tudo e me casei, chegando no Rio de Janeiro de mala e cuia. Foi o abandono da zona de conforto mais louco que eu poderia imaginar: ouvindo há um ano, largando um emprego público, assumindo uma casa, me tornando madrasta de três pequenos, ficando longe da família e vivendo numa cidade completamente estranha na qual eu não tinha amigos. É como dizem por aí, ‘cuidado com o que você deseja’. Eu desejava mudança! Rsrsrsrs… 🙂

Em 2015 minha mãe adoeceu e minha sogra já estava muito doente, e, e função das idas e vindas e acontecimentos decorrentes disso tudo, percebi que ter voltado a ouvir tinha me transformado numa adulta – coisa que, até então, nunca tinha me sentido como. O dia em que chamei a ambulância sozinha e fui dentro dela colocar minha mãe na UTI de madrugada – e consegui conversar com ela durante todo o trajeto mesmo com o barulho das sirenes – foi um dia de mudança radical na minha alma. Eu era capaz! Havia acabado de enfrentar a situação mais assustadora e adulta da minha vida inteira, e dei conta do recado graças à minha audição. Algo mudou em mim.

Em 2016, após a morte da minha mãe, não conseguia parar de pensar que estava sozinha no mundo. Não de modo literal, pois tinha meu marido, minha avó, meu irmão, meus tios, mas sim quando pensava em qual era a minha história e no que eu queria construir em termos de família. Aos 35 anos e sem filhos, minha ficha caiu: nada mais me impedia. Meu principal pavor do assunto havia sido vencido. Mas não totalmente, pois eu seguia com um ouvido ‘morto’.  Foi então que pensei que deveria fazer logo o implante coclear bilateral, afinal, se decidisse ter um filho, isso seria adiado eternamente. Dia 16/06/2016, voltei a ouvir também com o ouvido esquerdo. Agora, não faltava mais nada.

Mas…cadê a coragem?

Muitas vezes ouvi de pessoas – inclusive próximas – a pergunta: “Mas e se seu filho nascer surdo?”. Isso me incomodava. Era como se eu estivesse fazendo o maior esforço possível para me encorajar a ser mãe e as pessoas apenas quisessem me lembrar do que poderia dar errado. Durante uma consulta com minha fono, Márcia Cavadas, comentei isso com ela, e a sua reação é algo que levo comigo até hoje: “Se for surdo, olha a sorte que essa criança vai dar sendo seu filho e filho de um otorrino especializado em surdez! Relaxa! Vai dar tudo certo!“.

O tempo foi passando, a vontade foi aumentando, a certeza foi chegando e decidi que era hora de tentar. Check-up de saúde completo feito, lá fomos nós dar início às tentativas – achava que, em função da minha idade, passaria um ano tentando até acontecer alguma coisa, mas quinze dias depois já estávamos grávidos. Que susto!!

Descobri a gravidez em Chicago, durante um congresso de implante coclear, um dia antes de fazer 36 anos. Tremi e chorei de nervoso, pensando quem era eu para ter a audácia de colocar um ser humano no  mundo. Cá estou eu agora, a míseros dois meses de conhecer o meu filho, que vai se chamar Lucas.

Durante a gravidez, ninguém teve a deselegância de me perguntar se meu filho vai ser surdo, ainda bem. Mas é claro que pensei nisso. Não de modo compulsivo, nem com medo, nem a fundo. Apenas pensei, já que é uma possibilidade como tantas outras. Minha intuição me diz que isso não vai acontecer, e meu racional me lembra sempre das palavras da Márcia. É claro que eu não quero que ele seja surdo, pelo simples fato de ter vivido todas as agruras da surdez nessa vida e não desejar isso para o Lucas. Espero mesmo que os desafios dele sejam outros, não esses.

Por enquanto, o que me preocupa é como farei para me acostumar a dormir com um implante coclear (com dois, é impossível). Sou acostumada a dormir no mais completo silêncio desde sempre, qualquer som me acorda. Se bem que dizem que quem se torna mãe não dorme nunca mais, então…rsrsrs. Comprei uma babá eletrônica vibratória, meu primo me deu uma babá eletrônica de vídeo. A gente se vira!

Me sinto muito afortunada por saber que vou ouvir Lucas me chamar de mãe, vou ouvir seus choros, seus pedidos de ajuda, seus berros e suas gargalhadas. E hoje entendo porque isso me paralisava de medo no passado. Conheci todos esses sons da vida e sabia que se fosse para ser mãe, queria a experiência completa. Graças à tecnologia e à medicina, vou me tornar uma mãe que é uma surda que ouve. Graças aos IC’s, todo o processo da gestação foi tranquilo. Fui a muitos exames e consultas sozinha e foi super zen fazer isso. No último ultrassom, entrei numa sala escura com um radiologista que mais parecia um papagaio, e não olhei para ele sequer uma vez, com a visão fixa na tela da TV. Ainda assim, entendi tudo o que ele disse e respondi a todas as perguntas. Nesse dia, foi impossível não lembrar de um exame que fiz na época da surdez profunda sem audição biônica, no qual voltei para casa com torcicolo de tanto tentar enxergar os lábios do médico na penumbra.

Não sei como será na sala de parto pois uso dois processadores que vão atrás da orelha e eles caem toda vez que encosto a cabeça num travesseiro. Quero ouvir durante o parto, é claro. Aliás, fechar os olhos e imaginar ouvir o primeiro choro do meu filho nessa vida é algo que me faz encher os olhos d’água. Se já me emociono agora, imagino no momento em que isso acontecer. Haja coração…

Precisei percorrer todo o caminho imposto pela surdez para ter coragem de pensar em gravidez. Hoje percebo que, por mais desgastante, sofrido e cansativo que tenha sido, eu precisava passar por tudo o que passei para chegar até aqui. Obrigada pela companhia de vocês durante todo esse processo! <3

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

9 Comentários

  • Olá Paula! Tudo bem? Quando assisti ao seu vídeo e li esse seu post me vi quando eu era beeeeem antes de ser mãe! O medo realmente é algo impressionante né? Mexe com tudo!!! Mas depois que a gente o vence… rimos disso! Rsrsrsrs. Bom não sei se já viu meu site ou página do facebook, inclusive já fiz um post em seu grupo fechado do FB, sou autora da Mamãe Surda. Tudo que posso dizer é que esse todo seu sentimento é perfeitamente e absolutamente normal!!! Não existe em lugar nenhum um manual instruindo detalhadamente como ser mãe e muito menos como educar um ser humaninho apesar de ter milhares de livros, artigos, ‘manuais’ ensinando macetes para ser a boa mãe e ter o bom filho! Isso porque cada ser é único! Cada relação de dupla mãe-bebê é única! Cada dinâmica familiar é única! Sinto pelas perdas (mãe e sogra) porém gostaria de deixar uma dica importantíssima: tenha uma rede de apoio sim! Pode ser aquela sua amiga em que você realmente confia muito ou até mesmo contratar terceirizados para te dar suporte para que você possa dedicar ao seu bebê Lucas! Ah e se precisar de algum auxílio, alguma dúvida, algum desabafo estou à disposição. Venho buscando estudar assuntos referentes à maternidade, informar é ter poder, mas tem que saber filtrar! Eba, peraí como assim? Se eu acabei de dizer há pouco que não existe um manual??? Pois é, infelizmente muitas de nós perdemos essa coisa que chamamos de instinto natural, não vivemos em comunidades como antigamente, estamos cada vez mais ‘isoladas’ dentro de nossos lares, sozinhas e com isso traz insegurança, medo, dúvida etc. O que quero dizer com esses estudos são os que buscamos evidências sobre os riscos do parto, sobre as dificuldades da amamentação, sobre as diretrizes para a vacinação, etc e as trocas de experiências, relatos, desabafos que existem tanto em ‘on’ (blogs de maternidade, grupos nas redes sociais) quanto em ‘off'(rodas de mães, eventos maternos, workshops maternos) são muito importantes para todas nós, mulheres contemporâneas e urbanas. Então, Paula, se Deus te deu o dom para se tornar mãe de Lucas, confie! Siga e ouça seus instintos maternos que vão surgir naturalmente e busque informações, faça rede de apoio… E que venham muitas outras descobertas auditivas que tanto curte com o seu pequeno Lucas! Ah é possível sim usar os ICs na sala de parto, busque alternativas junto com o marido e a sua equipe médica! Ou então tenha uma equipe de filmagem e fotografia para registrar tuuuudoooo! Desejo boa hora e quem sabe um dia desses nos esbarramos pelas ruas do Rio de Janeiro? ;D

  • Vai ser muito feliz. Hj falei com uma fono sobre seu blog…Ela conhecia tb e falamos de vc como se fala de uma amiga em comum..Comentamos que vc é muito legal , que está grávida e seu menino vai se chamar Lucas…Muito legal mm. Boa sorte!

  • De todos os textos que já li, esse é o mais emocionante. Já te acompanho tem um tempo e eu quando vi sua primeira foto grávida, lembrei que você já tinha se perguntado sobre isso e na hora imaginei exatamente o que relatou, você já havia vencido este questionamento. Deus abençoe abundantemente sempre. Amém. Que Lucas venha para trazer muito mais alegrias e emoções nos seus dias sempre.

  • Acabei de ler relatos de um filme baseado em fatos reais,concorrendo ao Oscar. Sua história é linda e tudo ocorreu no seu tempo. O medo foi o grande vilão. E quando o perdemos, crescemos. Digo isto, porque ocorreu comigo, agora quando decidi fazer o implante coclear. São muitas coisas para te falar…acho até que sabes o quê… Quanto ao nascimento do Lucas, curta este momento mágico, único. No meu caso, usando os AASIs, não foi possível. O IC fará toda diferença, no seu caso. Querida, que Deus continue te abençoando. Beijos no seu coração e que Lucas venha cheio de muita luz para acrescentar muitas bênçãos na sua vida e do Luciano. Irei um dia ao Rio, implantada para ouvir os verdadeiros fogos de artifícios e encher de beijos todos vocês.

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