Acessibilidade Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Guia de sobrevivência para surdos oralizados na faculdade

Faltava um Guia de Sobrevivência para Surdos Oralizados aqui no Crônicas da Surdez, não? Pedi a colaboração dos membros do nosso maravilhoso grupo no Facebook e fiz uma compilação de todas as dicas recebidas. Nós sabemos muito bem que não ouvir ou ouvir mal dentro de uma sala de aula, especialmente na faculdade, é uma tarefa estressante. Conheço MUITAS pessoas que desistiram de estudar por causa disso, o que me causa uma tristeza enorme. Espero que as dicas abaixo ajudem a melhorar o dia-a-dia nas aulas e deem aquele gás para continuar os estudos com força! Com as adaptações e a acessibilidade necessárias – e muito estudo, claro! – não há motivo para não conseguirmos nosso tão sonhado diploma universitário! 🙂

Pessoalmente, fiz faculdade num tempo em que não se falava de acessibilidade e só o que fiz foi me virar nos trinta, estudar muito sozinha, ler enquanto meus colegas ficavam de papo na sala fazendo barulho, ser frequentadora assídua da biblioteca, sentar na fileira da parede. Demorei a falar para os professores e colegas que eu não escutava e só me prejudiquei fazendo isso. No final acabei saindo do armário e fazendo meu TCC sobre a escolha da modalidade linguística pela família das crianças surdas (o que hoje acho engraçado, porque também caí um dia naquele velho papo de que ‘todo surdo tem que usar Libras‘, rsrsrsrs).

Bruna

Não ter vergonha de pedir material emprestado; ficar no pé do professor para ele te fornecer material escrito; se possível, FM/Roger/MiniMic; e, por fim, estude por conta própria! Eu acredito muito nessa frase que vi uma vez: nós temos que nos esforçar o dobro pra poder ser tão bons quanto eles (ouvintes) são! É uma dura realidade, mas a gente também não consegue captar tudo, mesmo com todos os recursos do mundo.

Bárbara

Pedir intérprete oralista. Exigir adequação de todo o conteúdo audiovisual para acessibilidade comunicacional em legendas Closed Caption. Solicitar a entrega de material ditado em formato word (por motivos óbvios, ou nem tanto como o fato de que o intérprete NÃO ESTÁ LÁ PRA COPIAR MATÉRIA). Disponibilização de acessibilidade comunicacional adequada quando houver eventos nos auditório da instituição.

Maria

Sentar na frente da mesa do professor, pois pode acontecer do professor sentar em frente à mesa e dali continuar dando a aula. A proximidade ajuda muito, pois quando não entendo alguma coisa, posso perguntar a ele. Fazer amizade com o professor é essencial, pois pode ajudar nas explicações das matérias. É bom pedir sempre a bibliografia da matéria para poder ler os livros em casa ou na sala de aula. Eu peço para que o professor não masque bala ou chicletes durante a aula, pois atrapalha a leitura orofacial.

Fernanda

Com a maior sinceridade, na primeira negativa do solicitado faça um barraco e imediatamente entre com uma ação judicial exigindo TUDO o que precisar de acessibilidade, ainda assim passaremos raiva, mas será bem menor. O meu kit sobrevivência é o que os professores falem de frente, repitam todas perguntas feitas pela sala, uso do Roger, material de apoio, e em palestras interprete que repetem tudo que é falado. E as provas realizo individualmente, pois já me estressei várias vezes pelo os professores não me passarem recados, como erros da prova, questões anuladas, então faço a prova sozinha que evita que perca pontos

Isabella

Sentar sempre na carteira próxima ao professor (nunca perto de portas/janelas e parede), pedir material online, interprete oralista ou de libras (cada um tem sua preferência), ler o conteúdo antes das aulas pra não ficar perdido,levar MiniMic (se tiver) e SE fizer faculdade de língua estrangeira, como eu faço, sempre conversar com professor antes pra que ele possa desenvolver uma maneira de ensinar o aluno melhor na pratica oral do idioma escolhido.

Maria Flavia

Aulas em PowerPoint sempre me ajudavam, e depois caçava nos livros e aulas práticas. Os professores que caminham enquanto dão aula são um tormento, eu saía da aula exausta. Mas gostar de estudar e do assunto ajuda muito na motivação.

Idalina

Encare tudo! Leia as leis, descubra seus direitos, corra atrás deles. Informe TODOS os professores, a coordenação do curso e na direção da faculdade que tem um deficiente auditivo em sala, que vão precisar ter paciência, mas também respeito. Não esconda dos colegas suas dificuldades (eles serão seus melhores amigos e as vezes até seus ouvidos rsrs). Foque no estudo escrito pra complementar o de sala de aula.

Luis Roberto

Sentar perto de um amigo facilita quando você não entender algo que o professor fala ou pede. Prefiro sentar nas laterais da sala, pois viro o corpo e consigo ficar de frente para os colegas e para o professor!!

Bianca

Avise sempre os professores que você é surdo e que precisa ver os lábios deles… sempre! Vergonha não ajuda em nada! Tem que abrir a boca e falar! Pedir o que precisa e saber seus limites. Sistema FM também ajuda, se você o usa. Leia o material complementar e leia mais sobre as matérias (internet tá aí pra isso)! Fiz tudo isso e to aqui… no doutorado. Impossível não existe!

Bárbara

Gente, hoje, acessibilidade comunicacional no ambiente escolar é direito adquirido. Leiam a Lei Brasileira de Inclusão, as leis municipais e estaduais, entrem com processos no Ministério público, no Ministério da Educação, na vara Cível… Exijam cumprimento e indenização em caso contrário. Não é favor, não. É OBRIGAÇÃO. Ninguém pode cobrar a mais e nem mandar o aluno se virar não. Existem NOVE formatos de acessibilidade comunicacional!! Vamos ocupar nossos espaços e fazer valer nossos direitos! Já existe jurisprudência suficiente para garantir que eles sejam cumpridos. E se estiver sendo feito serviço mal feito ainda tem como reclamar. E pra quem diz que isso não vale nada, não funciona, experimenta mexer com o bolso das faculdades pra ver se não funciona… Em 2003 nós processamos 18 faculdades, UNBb inclusa, por falta de acessibilidade. Resultado: Brasília se tornou referência no Brasil. E outra, quando teve aquela polêmica sobre os pais dos alunos pagarem a mais pela acessibilidade nas escolas, TODAS as escolas do DF ficaram CA-LA-DI-NHAS! Sabe por quê? Porquê já havia um precedente de 5 mil reais de multa por dia que o aluno ficou sem acessibilidade em suas aulas. Então, vamos agir. Não é mais necessário ficar parado reclamando e se virando sozinho quando temos leis, jurisprudência e precedentes do nosso lado, não. Ok?

Daiane

Eu sempre sentava na frente. Sempre buscava fontes e referências com professor no final da aula ou por e-mail. Estudava a ementa do curso antes pra ter noção durante a aula e ainda anotava as dúvidas pra perguntar pro professor, além de evitar surpresas. Deixava todos cientes da minha limitação e sempre tinha o apoio dos amigos e dos professores.

Danielle

A realidade é essa: maioria das instituições não oferecem inclusão. Ou seja, vai ter que virar nos 30. Se não falar a sua condição, ninguém vai saber. Peça sempre ajuda dos professores e colegas, não importa a situação. A ideia de achar que pedir ajuda é um fracasso não é verdade. E sempre agradecer às pessoas que oferecem ajuda, pois quando menos se espera, essa pessoa vai te ajudar em outro momento sem você pedir. Quando digo que não tem inclusão, é dessa forma: raramente tem legendas nos vídeos, alguns professores vão estar de costas falando e escrevendo no quadro, professores andando na sala de aula enquanto fala, nas aulas práticas com iluminação fraca. O que fazer pra contornar essas situações: sentar na primeira linha de carteira, lembrar aos professores de falar de frente e não andar na sala, pedir anotações dos colegas, pedir pros amigos “traduzirem” o que você não entendeu. Assim vai. Fui prejudicada nos primeiros anos da faculdade, porque tinha vergonha de falar sobre minha condição, e aos poucos, fui me expondo aos professores e aos colegas. Claro que é comum que eles esqueçam da nossa condição porque é difícil associar surdo como ouvinte (AASI e IC) e não pensar que colocar aparelho já resolve problema, o que sabemos que não é verdade. Quando você explica da sua condição, está fazendo com que a pessoa entenda e compreenda a nossa situação e passa informação para outras pessoas.

Cinthia

Conversar com cada professor depois da primeira aula. Assim temos a oportunidade de ver se o entendemos bem, quais os hábitos dele durante as aulas, etc. Assim, além de explicar nossas necessidades, já entramos com sugestões de como esse professor especificamente pode nos ajudar. Considerando, por exemplo, que alguns falam rápido demais, andam pela sala, passam ditados, etc. Outra sugestão que sempre me ajuda é aproveitar as oportunidades de falar sobre o tema surdez/surdos oralizados/inclusão. Quando surge o assunto, eu aproveito o gancho e esclareço. Assim, por exemplo, na minha sala, sempre que tem apresentação de música, vídeo, teatro, etc, eles antes se preocupam em pegar algumas dicas comigo.

Luana

Sempre estudo antes a matéria. Se rolar discussão entre os alunos, começo introduzindo o assunto ou algum tópico. Tento falar mais (até perguntar mais), para os professores não ficarem me interrogando muito. Evitar distração (ex: celular). As aulas da faculdades são tranquilas na compreensão. As aulas de francês são mais difíceis, sempre sento perto do professor e repito o que ele me pergunta para confirmar se entendi bem, antes dou uma lida no material pra ir me habituando com os termos. Turmas pequenas são melhores, por terem salas menores e melhor atenção do professor com a limitação de cada um. E principalmente, TER CONFIANÇA EM SI MESMO, parte mais difícil, não ter medo de expor a limitação e sempre repetir que dá sim, apesar de tudo.

Marta

A pior coisa para mim durante a faculdade eram as conversas e perguntas dos colegas. A explicação do professor era assimilada com muita atenção e leitura labial, mas sinceramente penso que o que foi primordial para mim era sempre ler muito sobre o assunto em casa, pois com a leitura em casa sempre consegui suprir o que não consegui absorver em sala de aula.

 

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • Tem um programa do Dragon que permite ler tudo que se fala no celular , pois o áudio vira legenda.
    Vale a pena comprar e instalar no celular. Inclusive serve para evitar que se digite horas no teclado,
    bastando ler que o programa transforma em texto, e é editavel.
    Quem já usa, pode me passar mais dicas, pois sei por alto como funciona, e estou muito interessado.
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  • Isso mesmo, surdos não são mudos, surdos não são incapazes, os cinco sentidos lá estão param em harmonia suprir o outro quando necessário.

    O celular é o intérprete, um fala e o outro lê o que foi falado. Um escreve e o ouvinte ouve o que foi escrito, a seleção de figuras e fotos complementam os textos.

    Um mundo tem ofertas mil de soluções. Basta procurar e definir o que deseja.

    Lembrar sempre que todo começo é sim difícil, mas a aprendizagem da vida e com a vida gera conhecimento que tal como uma árvore produzirá excelente frutos.

    A veradade é, quem quer faz.

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