Hein?? Uma crônica de Martha Medeiros

Crônica de Martha Medeiros publicada na Zero Hora de domingo. Confiram!

“Quando meu pai ouve uma asneira muito grande, mas muito grande, ele costuma dizer: “É preferível ouvir isso do que ser surdo“, relativizando a ignorância alheia: há coisas piores na vida.

A surdez nunca me comoveu profundamente. Sempre imaginei que a deficiência auditiva seria a mais tolerável, mesmo sabendo que esse ranking é um disparate, não existe a melhor e a pior deficiência, ainda que, em segredo, todos já tenham pensado um dia: entre ser cego ou surdo, surdo toda vida.

O surdo tem recursos. Aparelhos auditivos, leitura labial, linguagem de sinais. Ele só não socializa se não quiser. E se não quiser, tem o álibi perfeito. “Desculpe, não estou escutando nada“.  

Acabei de ler um livro que é o que costumo esperar de um bom livro: inteligente, divertido, humano, terno e bem escrito. Chama-se Surdo Mundo, do talentoso David Lodge, autor inglês. O título é um trocadilho deplorável, como todo trocadilho, mas não se pode querer tudo.

É a história de um professor de linguística aposentado que está perdendo a capacidade de ouvir. Ele, um aficionado pelas palavras, já não as escuta com precisão. Sua mulher está cada dia mais irritadiça por ter que repetir as frases toda hora. Seu velho pai já está meio surdo também, e além disso, caduco, o que torna as conversas entre eles totalmente nonsense. Uma aluna bonitona e sem escrúpulos entra na jogada e torna a confusão ainda maior. Mas essa confusão tem mesmo a ver com a surdez que ele sofre, ou com a surdez que ele deseja?

Estamos nos tornando surdos por gosto. As fofocas propagadas diariamente no local de trabalho, as queixas mil vezes repetidas na sala de jantar, as grosserias disparadas pelas janelas dos carros em meio ao trânsito, as angústias de sempre reprisadas nos divãs, as confissões íntimas que acabam por se banalizar: quem está a fim de ouvir quem hoje?”

Não por acaso, a personagem maluquete do livro está fazendo uma pesquisa sobre bilhetes de suicidas, pessoas que chegam ao extremo de se matar, por quê? Simplificando o que não é simples, poderíamos dizer que elas não estão sendo escutadas com a paciência e devoção que precisam. Um dia cansam de falar sozinhas.

Estamos todos muito barulhentos, virulentos, verborrágicos, ansiosos. Há muita comunicação, mas pouco conteúdo. A surdez pode ser uma deficiência física, mas pode também ser uma deficiência provocada, voluntária: cansei, não quero escutar mais nada.”

DONNA ZH

O que vocês acharam??

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17 comentários em “Hein?? Uma crônica de Martha Medeiros”

  1. Angelita Tessmann

    Oi, Paula. Eu li a coluna da Martha ontem e a primeira coisa foi pensar em você!! Bjs

  2. amanda

    Incrível esse texto! Adorei!
    Meninas, fiz um 3×4 com a Paula e adorei saber um pouquinho maissobre ela. Confiram lá no blog:
    http://minhasinspiracoes.wordpress.com
    Bjoo

  3. Roberta Sampaio

    Paula,texto excepcional,muito muito bom! Ótimo é que passa mesmo coisas que a gente já pensou ou sentiu. adorei! =D
    xêro

  4. Jana Paniz

    Oi Paula!
    A Marta manda muito bem, né?
    Achei muito tri tua iniciativa com esse blog. Te acompanho sempre pelo sweetestperson. Agora o crônicas da surdez também será de leitura obrigatória.
    Acredito que todos, inclusive as pessoas que não possuem deficiência devem se manter informadas sobre os assuntos para que possamos ajudar uns aos outros e transformar o mundo em um lugar melhor para viver.
    Beijos e parabéns!!

  5. Glauber

    Olá Paula !! Muito bom o seu Blog !! Estou sempre a ler, uma amiga do trabalho me falou de seu Blog, sou deficiente auditivo, tive meningite aos 6 anos e tenho surdez profunda bilateral, uso Implante Coclear, e o IC tem sido primordial para minha vida, mas sou dependente também de leitura labial, o relato da Martha achei interessante, mas algumas coisas são polemicas e complicadas, ser surdo exige muito da pessoa em varias coisas, vc sabe do que estou falando, o que não concordo com a Martha é que como se ela estivesse falando que ser surdo é melhor do que ouvir bobeiras e fofocas, isso pode ser uma vantagem sim, mas penso que o principal de tudo está na capacidade de pensar, raciocinar e ver as coisas com o cerebro, e ouvir com o entendimento, ter a capacidade de ao mesmo tempo que somos surdos, saber olhar o mundo em volta sobre o prisma da inteligencia, a pessoa que é surda e usa a cabeça, e também exercita o raciocinio , tem uma melhor percepção das coisas em volta, sabe dominar as emoções, o que não é facil, assim penso que a surdez favorece e aguça o sentido da percepção das coisas, o modo de pensar, a curiosidade também faz da pessoa uma pensadora e acho que cada surdo deve aproveitar isso, perdemos um sentido, mas temos o privilegio de ter por natureza humana o aguçamento de outros sentidos que ajuda a sobreviver, já vi muitos surdos famosos, como um cientista russo que ficou surdo e perdeu a capacidade de comunicação com seus colegas, então decidiu ler livros, leu tanto que aí surgiu outro problema: sabia tanto por ter lido muito que não conseguia conversar com seus amigos, por que ele estava seculos a frente deles no quesito conhecimento, e ficava sozinho por isso, cada deficiencia tem seu jeito, a surdez para mim é uma das deficiencias que eu acho mais problematica, por causa de afetar a comunicação com pessoas, cada surdo tem seu mundo em particular, tem seu modo de sobreviver, cada ser é unico no Universo, Deus nunca faz alguém igual, e isso é uma das muitas maravilhas que Deus faz, bom, para finalizar, para eu a maior dificuldade de ser surdo, está mesmo em saber controlar as emoções, o surdo é muito facil de se emocionar, explodir, enfim a vida hoje na sociedade com os meios e comunicação só falando sobre os podres do mundo, ouvimos tanta coisa detestavel que a Martha acho que deve ter alguma razão na parte que melhor ser surdo do que ouvir os podres do mundo. :)

  6. Camila

    Paula,
    Ontem quando recebi a ZH e – tradicionalmente – fui direto pra coluna da Martha Medeiros, pensei em ti. Fiquei curiosa pra saber tua opinião sobre a crônica.
    Um abraço. Parabéns pela iniciativa do blog.
    Acompanho sempre, assim como o Sweetest.

  7. Greize

    Gostei do Post.São dúvidas que permeiam sobre nossa cabeça.Mas uma coisa eu detesto as pessoas falarem ou escreverem tipo.., concordo com o pai dela, não sei se ele falou certo ou foi trocadilho??Essa coisa de que “é melhor ser surdo que ouvir isso ou aquilo”..afffff.Vem não, ninguém quer isso pede para trocar de lugar para ve??hihih.Ouvir é mto bom e se tem coisas ruins, é só reter o que é bom, não precisa perder audição não.Qto saber qual deficiência é pior, ou trocar de lugar, deixo aqui um depoimento do ator.
    O ator Michael J.Fox – (filme de volta para o futuro).Que sofre de Parkinson.
    “Um sábio reuniu várias pessoas com problemas e as chamou para jogarem tudo em um poço, todas foram e jogaram, então o sábio diz, agora vocês podem pegar qualquer outro problema ai dentro do círculo, é só trocar… lá dentro tinha vários e diferentes!!??Muitos se entreolharam, pensaram.. por fim acabaram pegando seu próprio problema de volta”Moral:Cada um da conta do seu, pensar em trocar de lugar com outro pensamos, mas no final, todos estão na sua luta, e cada um que vê da conta da sua.(é mais ou menos isso não lembro direito..rs.).bjos De Belo horizonte/MG

  8. Anna Maria Pennella

    Achei muito dura e leviana a colocação desta senhora! é muito fácil para um ouvinte dizer que o surdo “só escuta o que quer”, ou “quando quer”!! Como diz o ditado, pimenta nos olhos dos outros é refresco!! Eu nao sou surda, sou ouvinte, mas trabalho com pacientes com os mais diversos tipos de perda auditiva. Dizer que “o surdo tem recursos….. só nao se socializa quem nao quer” é igualar todos os tipos de surdez como um só tipo, e não é bem assim… nao é tao fácil assim!
    É verdade que, comparando-se com (apenas) 10 anos atrás, temos muitos recursos mais do que antes para tentar recuperar a audição e a socialização do paciente, graças a Deus! Isso é inegável! E, realmente, a maior parte dos pacientes que procuram auxílio especializado, se beneficiam com os recursos disponíveis (seja AASI, seja IC….). Porém, há pacientes que, por motivos vários (baixa discriminação vocal, diplacusia, recrutamento, zumbido, alterações neurológicas…), mesmo que queiram, o uso do AASI não resulta em uma melhora dos níveis de audição ou da capacidade de compreensao vocal conforme o esperado. Como se costuma dizer, “há casos e casos”… Tem pessoas que acham que, colocando aparelho auditivo, a audição vai ser igualzinha como era antes! nao mesmo!!! Existem muitas variantes a serem levadas em conta. Inclusive as ambientais… Dizer que “só nao se socializa quem nao quer” é muito fácil!
    E torno a dizer: muitas vezes, mesmo com todo o esforço que o deficiente auditivo faz para se comunicar, as pessoas nao compreendem a perda auditiva, nao tem paciencia com as limitações do surdo!
    Bjs!

  9. Samara Correia

    Fiquei morrendo de vontade de procurar esse livro para ler. E concordo com você… é muito barulho e pouco “conteúdo”. Fico louca de ver tanta gente com fones nos ouvidos, gritando pra lá e pra cá, gente que nem coloca o fone.. liga o som do celular na maior altura, barulho do trânsito, tv, gritarias… Assim que coloquei o aparelho começei a ouvir muito mais, claro que isso é ótimo, mas tem horas que prefiro ficar um pouco sem o aparelho… é como fechar um pouco a cabeça para tanta coisa desconexa.

    bjus

  10. Marina Dalmaso

    Oi Paula, sou fonoaudióloga e uma colega me falou sobre teu blog… Desde então visito sempre! Quando li a crônica da Martha lembrei de cara de ti e de o quanto foi infeliz sua opinião sobre a surdez… Fiz uma crítica no meu blog ”www.marinalikethis.blogspot.com” sobre esta crônica e te indiquei como “leitura obrigatória”! Sucesso pra ti e que tu tenha uma boa adaptação com o Pure!!

  11. Carine Almeida

    Ao contrário do que você escreve, o texto da Martha não foi feliz.
    Não se pode dizer que a surdez possa ser uma deficiência voluntária, pelo simples fato de estar cansado de dar atenção às pessoas ao seu redor.
    E de maneira alguma alguém pode mensurar qual é a ‘melhor’ deficiência e dizer que o surdo só não se socializa se não quiser.
    Como ela escreveu, a surdez nunca a comoveu. Talvez falte isso, sensibilidade.
    Mas foi bom poder ler a opinião de outra pessoa.
    Bjos.

  12. Priscila Zimmer

    Achei que ela foi bem infeliz no início da crônica, falando dos surdos físicos. Mas a parte final, onde ela diz que estamos deixando de escutar por opção, no caso os que não tem nenhum problema de audição de fato, eu concordo. Tem tanta bobagem sendo dita que, na ânsia de ignorá-las, acabamos ignorando às vezes a quem devemos realmente ouvir.

  13. Ester

    Fiquei revoltada com o texto da martha, agora imaginem: as pessoas ouvintes vão ler o texto e achar q a vida é facil para os surdos, o q definitivamente não é, mas Graças a a Deus nós superamos.
    e concordo totalmente com o Glauber e a Anna Maria Pennella.

  14. marcia nazario

    Gostei do texto da Martha,acho que é compatível com os tempos em que estamos vivenciando hoje…
    Porém,acho que ela foi ‘infeliz’ ao misturar a deficiência auditiva(fato) ao que realmente condiz com o texto e só piorou ao dizer que as pessoas surdas não se socializam,pois não querem.
    Só faltou ela dizer,que ser surdo ou ‘ficar’ surdo é até uma boa nos dias de hoje.
    Lamentável,esse trecho do texto dela.
    Beijos!!

  15. Soraya Teixeira

    Como assim? Oi? Sou ouvinte, não sou fonoaudióloga nem linguista mas até eu sei que alguém que nasceu surdo e não foi rapidamente socializado quando bebê, pode não adquirir “linguagem” em nenhum nível, ficando incapaz até de pensar. Que recursos, então, tem alguém assim? Alguns neurologistas, falando do nível de isolamento que a surdez pode trazer, chegaram a chamá-la de “autismo evitável”. Eu, por meu lado, ainda prefiro ler essas bobagens que ser cega. Faça-me o favor, Martha…

  16. Ana Luísa Martins

    Achei a crônica da Martha Medeiros muito infeliz. Li na ZH de domingo e na mesma hora pensei, preciso ver o que a Paula achou disso …
    Nós que não temos nenhuma deficiência até podemos como leigos pensar esse tipo de coisa, ficar ‘comparando’ as diferenças entre cegueira e surdez. Mas uma pessoa formadora de opinião e com um alcance tão grande deveria ter pensado melhor no que essa crônica representaria para as pessoas que sofrem com estas deficiências.
    Mesmo sem saber por experiência própria como funciona tenho certeza de que não funciona assim ‘só não socializa quem não quer’.

  17. Maxcéli

    Amo amo amo seus escritos Martha Medeiros!!!!
    Eu me vejo neels…vc consegue passar nas palavras coisas que realmente acontece na tragetória da vida…essa vale louca rsrsrsr sempre leio e divulgo seus pensamentos e poesias como prova de minha adimiração por ti…muita sabedoria e saúde para continuardes a escrever tantas coisas profundas com simplicidade ao mesmo tempo…que nos tocam…
    Sua admiradora de sempre.
    Maxcéli Del Piero

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