Histórias dos Leitores Implante Coclear

A história da Bárbara: Implante Coclear bilateral em Portugal

Chamo-me Bárbara Góis, tenho 24 anos, e sou portuguesa. Nasci e vivi na ilha da Madeira, terra do Cristiano Ronaldo, e desde 2010 vivo em Lisboa, capital de Portugal. A história da minha surdez começou muito cedo, aos 4 meses de idade. Contraí meningite bacteriana que me deixou uma sequela para a vida, surdez profunda neurosensorial bilateral. Felizmente, a minha mãe depressa agiu e descobriu o implante coclear. Fui implantada no ouvido esquerdo aos dois anos e meio de idade e a partir daí desenvolvi a minha linguagem oral. Fiz toda a minha vida como uma pessoa normal, embora com alguns percalços. Conquistei muitas coisas boas, uma delas foi ter concluído o mestrado integrado em Engenharia Biomédica na faculdade. Passaram 22 anos e alguns meses que tenho o implante unilateral e este ano consegui realizar mais um sonho, ser implantada de novo no ouvido contralateral. Novamente irei à descoberta dos sons a partir do ouvido direito que esteve sempre adormecido quase a minha vida toda. Mas definitivamente é uma experiência totalmente diferente do primeiro IC pois neste momento vou poder vivenciar isto de forma lúcida e numa perspectiva mais madura.

Ativação do segundo IC

 

A consulta para a ativação do segundo IC ficou marcada para as 14h do dia 12 de junho. Nesse dia, eu e a minha mãe esperamos na sala e a ansiedade foi crescendo à medida que o tempo passava, ainda mais com o atraso da consulta. Lá cheguei à sala vivenciado um momento especial, ativar o ouvido direito com um novo processador pela primeira vez na vida. Estava um ambiente extremamente calmo e assim fui me acalmando.

Tive uma expectativa diferente pois pensei que sairia dali a ouvir pelo menos sons mas isso não aconteceu ainda. Entendi que tinha que passar por um processo mais lento e percebo que seja assim pois tinha privação auditiva no ouvido direito durante 24 anos. Quase um quarto do século, é de doidos! Portanto saí de lá a sentir apenas estimulação eléctrica no ouvido direito, sem nenhum som, e a servir de muleta para o ouvido esquerdo. O maior espanto que apanhei foi o quão o IC direito apoiava muito bem o IC esquerdo, é como se tivesse substituído o processador antigo pelo mais recente pois a tonalidade do som era diferente. Apenas estimulação eléctrica no nervo auditivo direito e já começa a influenciar a “operação” do ouvido esquerdo.

O cérebro faz coisas mesmos fascinantes para compensar certos mecanismos. Os audiologistas (sim, tive dois a apoiar-me, então melhor ainda) recomendaram que eu mudasse os programas do processador novo, gradualmente, uma vez por semana, para aumentar a sensibilidade do ouvido direito. Tenho tido pequenas descobertas sempre que mudava para o programa superior.

Comecei a ter uma percepção diferente da minha própria voz. Já não ouvia mais o “abafamento” na minha voz, por outras palavras, tinha aquela sensação que falava com uma batata dentro da boca. Se bem que isso foi mais sentido nos últimos anos pois não me lembro de ter tido voz abafada mais tempo atrás. O motivo? Eu estou convicta que é da performance do implante esquerdo que está a diminuir aos poucos pois neste momento tenho 5 eléctrodos desligados ou avariados que não são possíveis de ser retomados. Portanto tenho perdido alguns sons graves nos últimos anos e notei bastante isso em ambientes ruidosos onde não conseguia descriminar a fala sem olhar para as bocas das pessoas.

A leitura labial sempre foi um apoio parcial mas nestes anos tenho apoiado nisso muito mais do que eu queria. É como se o instinto de sobrevivência fosse ativado forçando-me a aprender a ler melhor os lábios. A minha família começou a suspeitar também a minha audição que estava inferior que o normal. Antes de saber dos elétrodos avariados eu punha sempre as culpas no processador Freedom. Já estava a achar estranho como é que poderia ouvir pior com este processador em comparação com o processador anterior (ESPrit 3G) pois normalmente o processador mais actualizado oferece sempre melhor qualidade sonora.

À medida que fui mudando de programa do processador N6 (IC direito) fui sentido os sons cada vez mais metálicos e isso deixou-me frustada pois não estava a reconhecer estes sons novos mas num espaço de uma semana o “metal” diminuiu e o som ficou cada vez mais natural o que me permitiu descriminar melhor a fala, inclusive a música! Outra descoberta foi sentir maior força nas consoantes e vogais quando ouvia as pessoas falarem. Foi uma chapada de luva branca para mim própria pois tinha uma noção errada das vozes das pessoas pois sentia que elas não articulavam tão bem como eu queria mas na verdade elas sempre falavam com todas as letras ditas para fora.

Acredito cada vez mais na premissa do feedback auditivo, ou seja, quanto melhor é a descriminação da fala por consequência melhor é a própria fala. Eu sempre tive um sotaque “diferente”, “esquisito”, “não-consigo-dizer-qual-a-região-de-onde-vem-o-sotaque”, isto dito por alguns que fiz questão que me respondessem da forma mais sincera possível. Isto é da consequência de ouvir apenas com um ouvido, ainda para mais sendo uma audição artificial. Espero atingir um objectivo, a longo prazo, que é ouvir os sons na sua plenitude!

57 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • Barbara bonita história.
    Nao consegui entender como vc escreve o português com a grafia igual a nossa.
    Só no final do texto vc escreveu objectivo. Esteve algum brasileiro a ajudari ? rssss

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