Deficiência Auditiva Histórias dos Leitores Implante Coclear

Implante coclear aos 79 anos de idade: a história da Joselina

Eu tinha uma audição excelente, diziam até que além do normal. Segundo a minha mãe, eu ouvia através das paredes. Uma pessoa falando muito baixo em um cômodo ao lado daquele em eu estivesse, podia ter certeza de que eu não só ouviria, como entenderia tudo.

Na infância, tinha cinetose – enjôo em viagem. Só não enjoava em viagens de carro. Isso numa época em que raras pessoas tinham carro. Então, só táxi mesmo… Com o tempo, tratamento e insistência, passou. Depois, passei a viajar até de avião, sem problemas. Sempre gostei muito de música – clássica e popular. A minha mãe tocava piano.

Em 1981, exatamente no dia 12 de maio – a data foi marcante porque no dia seguinte, o Papa sofreu aquele atentado – tive a minha primeira crise de labirintite e fortíssima. Não entrarei em detalhes de como foi diagnosticada. Fui medicada e, passada a crise, fiz a minha primeira audiometria e timpanometria – estava normal, segundo o otorrino. Não era possível comparar porque não tinha audiometrias anteriores.

Pioneirismo

E assim o tempo foi passando, tive outras crises de labirintite, fiz tratamentos e audiometrias até que, em 1990, os resultados das audiometrias já não eram tão bons… Já tinha alguma perda, mas nada que me atrapalhasse. Em tempo: sou engenheira química e sempre trabalhei na indústria e orgulho-me em dizer que todos os cargos que ocupei foram, pela primeira vez, exercidos por uma mulher! 🙂

Essa perda auditiva foi aumentando e o meu médico preocupou-se bastante, chegando a pensar em tumor, segundo me diria mais tarde, após todos os exames terem dado resultados normais. Só as audiometrias mostravam perdas sucessivas…

A partir do ano 2000 a minha surdez progrediu muito e rapidamente. Um dia, estava falando ao telefone com a minha irmã e, quando mudei da orelha esquerda para a direita, não ouvi mais nada. Voltei para a orelha anterior e perguntei se ela tinha parado de falar. Não! Eu tinha perdido muita audição da orelha direita. Nova audiometria e comecei a usar um aparelho somente na orelha direita. Não obtive bons resultados com os aparelhos daquele fabricante e não gostei do representante.

Mudei de fornecedor em 2003.  Já estava aposentada, mas tinha me registrado como autônoma e continuava trabalhando como consultora. Em 2005 parei de trabalhar. Como podia participar de reuniões, dar treinamentos, etc.? Passei a trabalhar como voluntária em uma associação porque não consigo ficar parada…

Implante Coclear

Procurei informações sobre implante coclear; só encontrava no site do Hospital de Clínicas da USP e não eram detalhadas. Opiniões, só de mães de crianças que tinham sido operadas lá. Conversava com médicos e fonoaudiólogas e diziam que “era uma cirurgia muito invasiva” e, eu, na minha ignorância e com as opiniões deles/delas, achava que tinha que abrir a caixa craniana e ninguém me contradizia… Muito estranho!

Fui trocando os aparelhos auditivos conforme iam surgindo outros mais potentes. Na noite de 18 para 19 de dezembro de 2015 (noite de sexta-feira para sábado) tive um surto de “surdez súbita”: fui dormir ouvindo, com aparelhos, é claro e de manhã, quando acordei e recoloquei os aparelhos, não ouvia nada. Procurei uma emergência do Plano de Saúde e a médica otorrino, diagnosticou uma inflamação nas vias aéreas superiores, atingindo os ouvidos. Havia um muco viscosos na parte superior do nariz e no canal auditivo de ambos os lados. Aplicou algo no nariz; receitou um anti-inflamatório para tomar durante cinco dias e um spray para o nariz. Fiquei bem.

Em meados de janeiro, ocorreu exatamente o mesmo problema. Nessa ocasião, a minha irmã descobriu o Dr. Luciano Moreira. Marcou uma consulta e fomos lá. Após exame, prescreveu o mesmo medicamento e me deu uma requisição para uma tomografia dos mastoides, cujo resultado foi normal. Perguntou-me porque não fazia um implante coclear.

Expliquei-lhe os meus receios: abrir a caixa craniana e terem me dito que em adultos o resultado era incerto ou nulo. Na época eu já tinha 77 anos. Ele me disse que não tinha que abrir a caixa craniana e já tinha feito cirurgia em pessoa idosa. Então me animei, mas resolvi pensar mais um pouco no assunto.

Em 2016, após pesar todos os prós e contras, resolvi fazer a cirurgia. E começamos os exames. No meio do processo, ocorreu algo desagradável: o falecimento de um membro da minha família; éramos muito próximos e eu, emocionalmente, não estava bem. Superada essa fase, continuei os exames e a cirurgia foi realizada no Hospital Copa D’Or, em 7 de novembro de 2016, sábado. Correu tudo maravilhosamente bem. Não tive quaisquer reações adversas; sequer a temida tonteira. O Dr. Luciano me deu alta no dia seguinte, de manhã. Eu estava já com 79 anos. A recuperação ocorreu sem problemas.

Recebi a unidade externa no dia 20 de janeiro de 2017 (feriado de São Sebastião). A Dra. Márcia Cavadas, achando que eu já tinha esperado muito tempo, teve a gentileza de me propor essa data, pois o material chegara na véspera. Segundo o Dr. Luciano me disse, no dia da cirurgia, eu seria a primeira pessoa, no Brasil, a receber este modelo de unidade externa (Kanso, da Cochlear), que fica invisível porque é preso no cabelo e, não, atrás da orelha (mais um pioneirismo), mas só chegaria ao Brasil em fevereiro de 2017. Felizmente chegou um pouco antes.

Encontrar o Dr. Luciano e a SONORA fez toda a diferença. Tive ótimos resultados com o implante: consigo conversar em grupo, assisto televisão sem precisar de legendas e já posso ouvir música, que é a minha grande paixão. Ainda tenho dificuldade com o telefone, mas sei que conseguirei. Enquanto espero, uso um viva-voz, o que era impossível antes da cirurgia. Comprei o PhoneClip e já posso usar o celular…

Em tempo: não há nenhum caso de surdez na família, pelo menos até a geração dos meus bisavós. Antes deles, não tenho como saber. A minha mãe faleceu, lúcida, com 97 anos e ouvia bem, sem aparelhos. Da geração anterior, um tio avô, por parte do meu pai, faleceu com 98 anos, também ouvindo sem aparelhos. Até onde eu sei, fui a primeira surda. Mas desse pioneirismo não gostei…

Um conselho

Em tempo: não peçam informações sobre cirurgia de implante, a médicos que não a fazem, nem a profissionais de empresas que comercializam aparelhos auditivos. Sempre dirão que é uma cirurgia muito invasiva..

 Joselina I. T. Nobre

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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