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Implante Coclear: a história da Sandra

“Fiz o implante coclear no dia 12 de janeiro, e essa decisão  para mim foi o primeiro passo desse pequeno milagre que é ouvir de novo. Enxergo muitas possibilidades pela frente na minha vida agora. Pensava que pudesse ter problemas durante a recuperação, mas foi super tranquilo e melhor do que tinha previsto.

Nesse meio tempo, até a ativação, tive que ensinar meus familiares, amigos e colegas a interagir comigo, a me cutucar e falar mais devagar, articular bem a boca. Mesmo que desde criança me concentrasse na leitura labial, sem sons tive dificuldade de compreender e deduzir as coisas.

Por mais que eu soubesse como seria esse processo, na prática tudo é mais complicado. Me fechei um pouco, tinha que me adaptar com o silêncio. Era mais fácil ver filmes, séries com legendas.  Convivi com o constante famoso zumbido, minha ferramenta para suportá-lo tem sido a oração – sem Deus nada disso seria possível, ele tem sido meu equilíbrio desde sempre.

Na maior parte do tempo falava com meu pai, achava engraçado que ele fazia até mímica para se comunicar comigo. O que um pai não faz por um filho! Pai te amo, obrigada por suportar a minha chatice. Quando me recuperei da minha cirurgia, saí um pouco, fui na igreja, mesmo sem ouvir, as pessoas falavam: “E aí, tá ouvindo bem? Nossa, tá surda sério?  Fala mais baixo tá falando muito alto!

Falta empatia em muitos, outros são apenas curiosos. Mas também encontrei apoio: “Vai dar tudo certo!”, “Estou orando por você!”, “Estava preocupada com você, que bom que correu tudo bem!”, “Multiplique Senhor, o mundo precisa de pessoas assim!”.

Em momento algum olhei para trás. Se cheguei até aqui agora é bola pra frente, cada dia estou mais perto de receber o meu prêmio.  Não posso modificar minha surdez, o jeito é modificar o meu jeito de lidar com ela. Vejo que tudo depende apenas de mim, dá minha fé…

Era candidata ao IC há anos, mas achava que não precisava dele naquele momento. Até que no mês de julho de 2016 procurei  um otorrinolaringologista, Dr. Marcelo Soki, e falei que os meus zumbidos estavam demais. Fiz audiometria, minha audição estava piorando rápido, poderia ser essa a causa do zumbido. Como minha perda era progressiva o IC seria minha única opção.  Senti que era o otorrino certo e a hora certa de fazer o implante cloclear.

Fiz os exames recomendados, check up geral e estava pronta. Preferi tomar uma atitude, meu medo era o de paralisar e não fazer nada. Meu otorrino me apresentou o blog da Paulinha, primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi acessar, achei extraordinário e único seu trabalho. Adquiri seu segundo livro “Novas Crônicas da Surdez” e achei excepcional. Encontrei apoio, carinho e conforto em cada página dele.

Aprovada a cirurgia vivi um misto de ansiedade e possibilidades. Tentei manter as expectativas baixas, esperava era apenas ouvir e compreender melhor.  Já no centro cirúrgico, pedi para Deus entrar comigo. Foram 4 horas de cirurgia e tive alta no mesmo dia, pedi para meu pai comprar uma pizza para comemorar. Comi e mais tarde vomitei tudo, rsrsrsrs.

Lembro de um filme no qual a garota almejava ser campeã de surfe, mas um tubarão arrancou um de seus braços. Ainda assim ela se tornou campeã e quando foi entrevistada e perguntaram que experiência ela tinha ganhado, a  resposta foi: “Abracei inúmeras pessoas e oportunidades que talvez com os dois braços, teriam passado despercebidas!” Foi assim comigo também.

Dia 21/02/2017, foi o dia da ativação. No primeiro momento, não ouvi minha voz. Ouvia um som robótico, de Pato Donald, dava risada, mas nada disso se comparou com a emoção de ouvir o som entrar pelo meu processador. Minha vida ganhou mais cor. Estou com meus IC’s há pouco mais de um mês e estou orgulhosa de mim mesma. Sempre tentei viver de forma que a criança que um dia fui tivesse orgulho do que sou hoje.

O primeiro som que ouvi fora do consultório e que demorei para identificar foi uma vassoura varrendo o chão. Chorei, aquilo significou muito. Foi ótimo conversar sem muito “Hãn?”. Ouvi a água caindo na panela ao lavar, risos, passarinhos, latidos de cachorros, interruptor de luz. Meu pai sempre falava quando me levava até o ponto de madrugada para ir trabalhar: “Guarda essa chave filha, vai acordar o pessoal!“. Passávamos perto das sacadas de outros apartamentos e eu ficava tipo sem entender porque ele me dizia aquilo. Quando descobri o barulhinho das chaves é que fui entender meu pai. 🙂

Depois de um dia reconheci minha voz, não lembrava dela ser rouca desse jeito, rsrsrs. Me adaptei bem! Ainda tenho dificuldade para entender sem fazer leitura lábial, filmes dublados, entender músicas, mas sei que chego lá. Nos primeiros dias foi difícil manusear sozinha o aparelho. Teve um dia que minha vontade era jogar o IC no chão, pois eu não lembrava onde ficava o imã na cabeça – mas aí lembrei do prejuízo que seria né? Peguei o jeito depois de uma semana, enchi muito a paciência da minha fono Joana.

O implante coclear causou impacto na minha vida, tô super feliz. O principal talvez seja que essa decisão partiu de mim, as consequências serão minhas, os méritos alcançados serão meus, pois não depende só dos IC’s, boa parte depende de nossa força de vontade – aceitar o que se tem agora, deixar se surpreender hoje ou talvez daqui uns meses, respeitar seu próprio tempo. 

A fonoterapia, tem sido minha aliada, todo dia uma descoberta e um objetivo a ser alcançado. Por vezes não consigo, quem sabe amanhã? Meu maior desejo depois de ativar era congregar. Quando entrei na igreja comecei a chorar pois ouvi tudo, um som proporcional ao que ouvia antigamente. A espera foi árdua mas o fruto disso tudo foi tão doce e grandioso! Ouvir os hinos, a palavra, a orquestra, isso significou tanto. Indescritível minha alegria naquele momento.

Saí com minhas primas e um grupo de amigos. Antes morria de medo pois perdia o fio da meada muito cedo. Sempre chorava quando chegava em casa e dessa vez não chorei! Ri e ouvi as perguntas direcionadas a mim; nunca pensei que fosse viver isso, é mais do que mereço. Fui em consultas médicas e pela primeira vez em anos não precisei ficar em estado de alerta para ouvir chamarem meu nome. Sinto muita gratidão por tudo. Foi difícil me aceitar, não tive opção a não ser enfrentar tudo. Decidir sorrir em vez de ficar me perguntando “por quê eu?”. Olho para trás e percebo que tudo foi exatamente como deveria ser. Durante a minha jornada aprendi a evoluir, perder quando necessário, Deus me ensinou a enxergar tudo com os olhos do coração. Tudo o que sou e tudo que tenho hoje devo a Deus, meu grande mentor.”

45 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

4 Comentários

  • Bom dia Sandra. Lendo cada parte deste seu depoimento da sua vida não conseguir deixar de me emocionar. Graças à Deus que você conseguiu vencer mais esta etapa da sua vida. Choro cada vez que leio algo que as pessoas que são surdas postam. Parabéns, felicidades. Só Deus mesmo em nossas vidas.

  • Dr. Marcelo !Profissional competente e humilde!Já fiz duas cirurgias com ele.Só tenho agradecer mto o que ele fez por mim.

  • Parabéns Sandra, fico grato por saber da sua trajetória, você é mais uma inspiração. Estou a caminho. Boa sorte e grande abraço.

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