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Irmãos surdos: Henrique e Bruna

Em outubro de 2013 nascia Henrique, meu primogênito. Junto com ele, vinha um mundo desconhecido. Um amor sem medidas e uma vontade de que nada de mal pudesse lhe acontecer. Logo no teste da orelhinha, ele foi “reprovado”. A fono, muito calma, me disse que eu não devia me preocupar, pois o era apenas uma triagem, e blá blá blá… E uma pulga ficou atrás da minha orelha. Repeti esse teste umas três vezes, todos os resultados negativos. Fizemos Bera com 2 meses, e todos médicos que íamos eram categóricos em dizer que não poderiam fechar diagnóstico de surdez, já que ele era tão pequenino. No fundo, eu sabia que a audição dele não era normal – sentimento de mãe.

O diagnóstico veio com 11 meses: perda auditiva bilateral moderada. Quantas vezes me perguntei o porquê disso estar acontecendo, sofri, chorei muito! Com 1 ano ele foi protetizado e começamos um trabalho com a fono (um anjo que Deus colocou em nossas vidas) que persiste até hoje! Resultado: Henrique é um menino muito esperto e hoje fala/ouve, mais do que deveria… rsrs. Devido ao diagnóstico precoce, possui o desenvolvimento de acordo com as crianças ouvintes da mesma idade. A primeira coisa que ele faz ao acordar é me pedir para colocar o aparelho. Hoje já tem noção da diferença que o  “papapá” faz na vida dele e é uma criança muito feliz!

Quando pensava que minha provação tinha terminado, Deus me mostrou que ainda tinha muito o que aprender.

Descobri a gravidez da Bruna quando Henrique completou um ano, ou seja, estava no processo de aceitação da perda auditiva dele. Ao pensar na possibilidade da Bruna ser surda também, eu desviava o pensamento e pronto! Então ela nasceu: linda e saudável! Teste da orelhinha com reprovação em um ouvido. Pensei comigo: não vou me estressar, um raio não cai duas vezes no mesmo telhado!  Meu marido e eu resolvemos esperar um pouco mais para fazer os exames específicos. E com 6 meses confirmamos perda profunda unilateral. Fiquei feliz, afinal ela teria um desenvolvimento normal possuindo audição em um ouvido, segundo os médicos. Eu só não contava com uma perda progressiva que ocorreu do primeiro para o segundo ano de vida dela. Tínhamos a expectativa dela começar a falar e isso não ocorreu. Refizemos os exames. Perda profunda no ouvido direito e perda severa no ouvido esquerdo.

Terror. Pânico. Medo e muitas incertezas. A sensação que tinha era que estava num abismo! Fono e otorrino me ligaram, para acalmar meu coração e dizer que deveríamos partir para o Implante Coclear bilateral. Chorei por dias e noites … E mergulhei na internet em busca de informações.  Eu pensava que sabia sobre surdez, mas que nada! E foi nesse meio tempo que descobri a Paula, fui ao Rio participar de um Conexões Sonoras e ela me trouxe a esperança de que minha filha poderia ser oralizada, e FELIZ! 🙂

Bruna foi implantada em Dezembro de 2017 e a ativação do IC aconteceu em Janeiro. De lá para cá, muitas expectativas. Fonoterapia duas vezes por semana. Estamos caminhando conforme o tempo dela! E como já está mais atenta, já balbucia as primeiras palavras. Paciência é a palavra de ordem, apesar de não ser o meu forte!

Sendo mãe de dois surdos, posso dizer com convicção: o maior desafio é para nós, pais. Sofremos por pensar no preconceito, nas dificuldades, na falta de conhecimento das pessoas acerca da oralização dos surdos, até mesmo para os olhares de “pena” pela deficiência de nossos filhos. Sofremos por ter medo de não dar conta.

Hoje sou mais forte do que ontem e menos do que amanhã. A jornada de reabilitação auditiva da Bruna está apenas no começo. Mas tenho a certeza de ter tomado a decisão certa – de possibilitar que minha filha escute e (re)conheça o mundo dos sons. E agradeço a Deus por ter colocado pessoas tão capacitadas para me orientar e não desistir!

Se conselho fosse bom, a gente vendia. Mas, pela minha experiência, conto para vocês, mães de surdos:

  • É uma jornada árdua, mas a gente dá conta! Descobrir qualquer “limitação” de nossos filhos não é fácil. Porém, a melhor forma de fazê-lo é encarando de frente e buscando as melhores soluções.
  • Conte com àqueles que viveram experiências semelhantes. Dividir a dor é sempre muito bom e alivia o coração. Vale chorar, questionar, só não pode se deixar paralisar!
  • A tecnologia é maravilhosa, se aliada a um bom trabalho multidisciplinar (Otorrino, fono, psicólogos)
  • Não se vitimize e tampouco coloque seu filho neste lugar.
  • Nossos filhos não são piores do que ninguém por serem surdos. É nosso dever mostrar isso para eles e estar junto quando as dificuldades aparecerem.
  • Em alguns momentos, dá uma vontade de sair correndo e desistir. Mas logo passa pq o amor é genuíno e queremos sempre o melhor por eles!
  • Permitam a oralização de seus filhos! Dê a eles a oportunidade de “ouvir”.
  • Exija acessibilidade e RESPEITO, sempre!
79 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

3 Comentários

  • Sou mãe do Kauã ele fez 2 aninhos, está fazendo exames para fazer o ic já que não obteve bons resultados com o aparelho sendo que a surdez dele é profunda bilateral, estou esperançosa, meu grande medo é na fala. Todos os processos de exames, fono, otorrino é bastante cansativo mais o que não fazemos por nossos anjinhos não é mesmo? Lendo essas histórias me deixa mais corajosa e orgulhosa por vocês mamães que não desistiram e eu também não vou desistir por mais difícil que seja.

  • Sou mãe do Miguel Lorenzo de 4 anos surdo e usuário de implante bilateral, e estou grávida de 7 meses. Durmo e acordo pensando na possibilidade de minha filha nascer com a mesma perda auditiva do meu filho… ouvir seu depoimento me traz paz em saber que se o raio cair novamente no meu telhado… tenho exemplos de pessoas que passaram pela mesma situação e seguem vencendo…

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