Crônicas da Surdez

Leitura labial X Leitura corporal

Adoro dizer em entrevistas que considero a leitura labial um superpoder. Um dos raros momentos em que um surdo consegue se sentir ‘superior’ (com o perdão da palavra, ok?) a um ouvinte é quando alguém fala algo sem som, o ouvinte fica “Hã? O que? Repete? Não entendi!” e o surdo entende tudo. É só aí que nossos papéis são invertidos. Costumo dizer que meus aparelhos auditivos são meus melhores amigos e a leitura labial, meu anjo da guarda. Juntos, os danados formam uma dupla imbatível.

Mas hoje a idéia é falar sobre leitura corporal. Tenho a impressão de que esse talento me foi concedido graças também à surdez. Se não fosse ela, tenho certeza que não teria motivo para prestar tanta atenção às bocas e corpos alheios, afinal, não precisaria. As pessoas são livros abertos – basta saber ler direitinho. A linguagem corporal em muitos casos diz mais até mesmo que a voz e o que quer que alguém esteja falando. Afinal, a voz pode dizer mentiras, mas dificilmente o corpo vai acompanhar a safadeza direitinho. Para mim, basta um pouco de convivência para ‘pegar’ todos os tiques específicos e – feliz ou infelizmente, cada caso é um caso – saber com exatidão quando alguém está mentindo. O corpo fala, e fala muito, às vezes mais que a boca. Para bom observador, meio tique nervoso basta.

Esses dias conheci uma guria, e só pela boca dela e certos gestos com as mãos e sobrancelhas ficou nítido que o tonzinho de superioridade da voz da dita cuja não era somente impressão minha. Impressão ou implicância, tanto faz. Perdi a simpatia no ato. Mas o melhor momento para colocar em prática nossos conhecimentos de leitura corporal é quando estamos num embate verbal acalorado com alguém. A boca diz uma coisa e o corpo nega ou desmente com a mesma velocidade. Acho até engraçado! A verdade é que a falta de som nos torna especialistasem captar nuances imperceptíveis e detalhes que passam batidos pela maioria das pessoas que ouvem. Não sou boba e uso isso a meu favor. Quer mentir pra mim? Tenta! 😉

E vocês? Confiam mais em qual superpoder? Contem aí!

11 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

20 Comentários

  • Meu pai sempre dizia que se perdemos um sentido teremos algum outro mais aguçado… Hoje eu acredito! Sou deficiente auditiva e como Instrutora de Pilates essa percepção corporal ajuda muito no meu trabalho. Consigo perceber se o quadril está alinhado, se o padrão respiratório está correto, se o aluno está ativando o power house (coisas do método), e tudo fica mais fácil! 🙂

  • Olá Paula!!

    eheheh, entendo perfeitamente o que vc está falando, as vezes eu até fico constrangido só de olhar para a pessoa, que até fico com vergonha de olhar, o pior é que eu percebo tão facil como a pessoa é que aí já era, fico timido no meio dessa gente, porque a gente percebe muita coisa, se é rejeitado, desprezado, ou se somos uma coisa que faz as pessoas não parar de observar a gente, de tal forma que dá vontade de falar: qual é o seu problema? porque vc não desgruda esse olho e cuida de sua vida? ehehe, mas eu nunca falei isso para ninguem, no final eu até acho engraçado e acostumo com isso, e tem vez que dou até um olá para a pessoas, a gente tem a visão bem apurada que conseguimos captar em 360º mesmo que não estejamos olhando para os lados a gente percebe muita coisa, até se alguem está olhando para a gente sem a gente ver ehehehe, super poder ou não, isso é uma caracteristica nossa, não acho super poder, mas um dom de sobrevivencia, porque Deus é tão bom que nos capacita.

    Abração

    Glauber

  • Olá Paula,
    Eu sempre tive a capacidade de captar tudo das pessoas sem elas dizerem nada antes mesmo de eu perder a audição aos 16 anos. Acho que nasci assim, sempre atenta a tudo ao meu redor,mas, com a deficiência ( não gosto dessa palavra…) eu não sei explicar se eu fiquei mais atenta ou se realmente essa é uma característica minha, pois sempre fui ligada a coisas que desvendam o comportamento das pessoas, tipo linguagem corporal,etc…Mas confesso que eu pego tudo no ar, sinto quando alguém está mentindo ou quando alguém é falso e ainda, tem pessoas que só de eu olhar já não simpatizo, o santo não bate. Eu sou meio sensitiva mesmo. No entanto tem uma coisa que me dá muita raiva: quando alguém disfarça e coloca a mão na frente da boca para falar com outra pessoa, é muito deselegante e grosseiro.
    Abraço.

  • Bom dia, Paula! Olha, eu tenho memória fotográfica para muita coisa, inclusive olhares… tu crê que outro dia alguém me olhou de uma forma e eu lembrei de um olhar com a mesma expressão de alguém há uns 5 anos atrás??? Realmente, a falta de som ou o som “incompleto” (sou implantada), nos torna extremamente visuais e percebemos sim esses nuances… Mas cada caso é um caso e como dizia o dr Carl, célebre personagem do seriado Lie to Me: todos mentem, a questão é saber porquê a pessoa está mentindo…

  • Oi! Eu também tenho esse super poder. Tantas vezes eu flagro mentirosos(as)e os ouvintes não querem me acreditar até que a verdade aparece e perguntam: como vocês sabia? Pela expressão no rosto delas e, ás vezes, atitudes, modo de se mover. Não é outro sentido, trata-se apenas de aprimorar a observação. Como não ouvimos, observamos mais.

  • Eu sempre comento para as pessoas que sei analisar as pessoas pela aura que passa e comportamento do corpo! E dificilmente estou enganada! Se alguém me perguntar, posso falar que a pessoa é assim e assim só de olhar nos olhos. Os olhos são a janela da alma.

    Sempre sei se a pessoa está interessada ou não no que estou conversando só de olhar pro corpo.

    Este conhecimento da linguagem corporal me ajudou muito a apresentar bem os trabalhos de faculdade porque sabia como me portar e passar mais confiança para a platéia. E passei com nota máxima no quesito de apresentação.

    Acredito que por ter feito muitos anos de ballet ajudou muito a compreender melhor a linguagem corporal, porque acabo percebendo mais detalhes como a postura e movimento das pessoas.

    Tenho uma amiga que éramos muito grudadas na faculdade, eu surda e ela cega. Sempre soube o que ela estava fazendo ou sentindo de verdade mesmo que a cara dela não mostrasse reação alguma, para qualquer situação a expressão do rosto era a mesma. Ela dormia de olhos abertos durante a aula, se os outros vissem podiam jurar que estava prestando atenção na matéria da aula e só eu sabia que ela estava dormindo só de olhar para a cara dela. Confesso que ria demais da situação!

    Eu acho muito interessante um cego ter forma parecida com os surdos, eles conseguem identificar como as pessoas estão pela voz mesmo, por exemplo, uma pessoa se mostra feliz, mas o cego sempre vai saber que a pessoa na verdade está triste. Não dá para enganar!

    • Como é possível uma cega dormir de olhos abertos? Nunca ouvi falar disso! No caso da sua amiga fizer isso durante a aula, dá para rir, sim….!!

      • No caso dela, a cegueira é a forte miopia de 20 graus e enxerga muito mal mesmo, precisando de lupas e aparelhos especiais para poder ler ou enxergar algo de longe. Por isso eu a ajudava a ler os avisos e quadros da faculdade e ela escutava para mim os trabalhos.

        Quando ela era criança enxergava melhor, mas com o tempo foi perdendo a visão. De aparência, ela é igual a todo mundo, com olhos normais, bem bonitos com cílios longos igual a uma boneca.

        Imagine, durante a aula sentava no lado dela, eu passava a mão na frente do rosto dela e comprovei que estava dormindo mesmo! Aí comecei a rir! Por causa da dificuldade de enxergar as coisas à sua volta, a expressão era sempre a mesma, indiferente às coisas, mas eu sempre sabia o que estava sentindo pelas sutilezas.

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