Entrevistas Otorrinolaringologia

Entrevista com o Dr. Luiz Lavinsky

Minha gratidão ao Dr. Luiz Lavinsky será eterna, pois ele me trouxe de volta à vida após realizar minha primeira cirurgia de implante coclear no ouvido direito, em 2013. O Dr. Luiz foi meu porto seguro e minha bússola durante todo o processo, e me fez ir para a mesa de cirurgia sem expectativas – tenho para mim que esse foi um fator primordial no sucesso do meu primeiro ouvido biônico. Ele é Professor Titular da Faculdade de Medicina da UFRGS e atende em Porto Alegre, RS. Nunca vou esquecer o carinho e a atenção com os quais ele tratou a mim e minha mãe nos meses pré e pós-IC. Me senti segura e tranquila do início ao fim tendo ele como médico. Ele mora num lugar muito especial do meu coração (vish, só de escrever já me emociono). 🙂

Como você se apaixonou pela reabilitação auditiva?

Tudo começou nos meus primórdios como especialista em otorrinolaringologia, quando se tinha muito pouco para oferecer em termos de diagnóstico e tratamento. Montamos um programa de pais, com educadoras de surdos e fonoaudiólogas, coordenado pela minha esposa, Elaine Lavinsky. Com essa atividade, passamos a sentir a grandeza da missão de propiciar maior qualidade de vida a nossos pacientes que escutavam e não tinham linguagem oral. Com os anos, tudo ficou mais acessível, em 1989, introduzimos no Brasil as otoemissões acústicas, teste atualmente conhecido como “teste da orelhinha” que permite o diagnóstico precoce da surdez . Além disso, sempre tivemos um programa de protetização acústica e uma equipe reabilitativa, porque acreditávamos que esse era o caminho a seguir.

Como/quando foi sua primeira cirurgia de IC?

Quando surgiu, o implante coclear monocanal me chamou muita atenção e interesse, pois era um recurso de estimulação elétrica do ouvido nos pacientes com surdez profunda em que a estimulação sonora amplificada não era efetiva. Contudo, ao ver os resultados, concluí que se tratava de uma tecnologia intermediária, que valia a pena esperar mais um pouco, porque tecnologias melhores ainda estavam por vir.

Quando surgiram os implantes cocleares multicanais, aguardei um tempo para me convencer da sua efetividade e, em 1995, fizemos os primeiros procedimentos. O primeiro caso foi de um cirurgião cardíaco que se tornou surdo depois de adulto, e a  surdez que o impedia de exercer sua profissão e manter as suas atividades mínimas. Após poucos meses, ele voltou ao exercício profissional pleno, o que me causou impacto. Essa evolução podia ser explicada pelo fato de que ele já havia tido audição e todas as aptidões, uma vez que era pós-lingual (já ouvia). O segundo implante foi em um menino de 4 anos, que hoje está terminando a sua formação em um seminário para se tornar padre.

O sucesso pleno desses dois primeiros pacientes nos incentivou a buscar uma atividade organizada. Criamos o Programa de Atendimento ao Surdo Severo e Profundo do Hospital de Clínicas, voltado ao atendimento dos deficientes auditivos advindos do Sistema Único de Saúde (SUS), e um programa semelhante na esfera privada para convênios e pacientes privados, que chamamos de Instituto da Audição. Ambos contam com uma equipe altamente qualificada nas esferas médica, fonoaudiológica, psicológica e de assistência social e administrativa, conforme imagens abaixo.

O que você sente quando um paciente volta a ouvir?

Muitos sentimentos. Me sinto feliz ao ver aquela criança ou adulto reconectado com o seu meio, com o seu futuro escolar, profissional e familiar. Me sinto encorajado a seguir trabalhando, pois, ao terminar uma cirurgia, tenho a sensação de missão cumprida. Exerço a otorrinolaringologia há muitos anos e posso compará-la a outras áreas cirúrgicas – todas elas gratificam, mas o implante coclear emociona, pois resulta em uma família feliz, uma criança ou um adulto reconectado com o seu meio, e o fato de poder ouvir facilitará a sua vida. Costumo dizer: “com a medicina ajudamos pessoas; com os implantes cocleares conseguimos mudar a vida de pessoas”.

O que você sente quando o paciente não tem bom resultado?

As indicações para o implante coclear, quando levadas em conta, evitam que façamos a cirurgia em pacientes com prognóstico muito ruim. Contudo, existem fatores imprevisíveis, e nos defrontamos com resultados pobres, felizmente em um número pequeno de casos. Temos pacientes cujos resultados ficaram aquém do esperado. Contudo, nos surpreende que, mesmo nesses casos, o paciente se apega ao pouco obtido e se mostra feliz.

Nesses casos, temos um sentimento amargo de frustração devido ao que não se alcançará em termos de qualidade de vida. Fazemos, então, um esforço reabilitativo fonoaudiológico e educacional em outro contexto, com leitura labial, linguagem de sinais, apoio psicológico, etc. Tomamos as mesmas medidas quando não há viabilidade (indicação do implante coclear).

Qual foi a coisa mais bonita que já ouviu de um paciente?

As manifestações de gratidão são todas muito emocionantes, mas guardo com carinho textos de crianças parcialmente alfabetizadas que fizeram desenhos e textos expressando sua gratidão e reconhecimento. A que mais me tocou talvez tenha vindo da Paula Pfeifer, que me convidou para um post após o seu primeiro implante. Ainda guardo esse texto.

Um presente que o IC trouxe para a sua vida?

A sensação de que valeu a pena ser médico, principalmente para aquelas centenas de crianças desprovidas de recursos que receberam o procedimento através da minha atividade como professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) no Hospital de Clínicas.

Daqui a 10 anos, os ICs estarão…

Totalmente implantados, sem unidade externa e com tecnologia que superará a aptidão do ouvido biológico.

Seu conselho para quem tem medo da cirurgia:

A cirurgia é muito segura. Não tivemos complicações maiores em nenhum caso cirúrgico em tantos anos de implante.

Se você tivesse um filho com surdez profunda…

Não vacilaria em oferecer a solução do implante o mais precocemente possível. A idade mínima é seis meses e a idade máxima, 4 anos. Após essa idade, os resultados podem ser menos efetivos.

Qual é o som mais lindo do mundo

O choro de um bebê ao nascer.

36 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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