Crônicas da Surdez Implante Coclear Maternidade

Mãe biônica: as primeiras impressões

Meu filhotinho nasceu no dia 6 de maio, um domingo. A bolsa rompeu no início da madrugada e cedo lá fomos nós para o hospital. Fiquei feliz por ele ter escolhido a hora em que queria vir ao mundo, pois a cesárea estava marcada para uma semana depois.

Quem me acompanha há muito tempo sabe o quanto me impactou perceber, quando minha mãe ficou doente, o que o implante coclear fazia por mim. Eu me sentia tão, mas tão infantilizada pela surdez, que precisei de um momento de tensão máxima para finalmente entender que podia abrir mão do medo.

Naquela ambulância, numa noite fria em Santa Maria, conversando com ela estando sentada ao lado do motorista e sem vê-la, mesmo com o barulho da sirene e de um carro em movimento, entendi racional e emocionalmente que agora eu ouvia. Os IC’s me transformaram numa adulta que não precisava mais sentir pânico em nenhuma situação. 🙂

Essa primeira percepção, que ficou cravada em mim e pulsa de vez em quando, foi tão forte que pensei que nenhuma outra seria capaz de superá-la. Mas me enganei.

A vida é mais poderosa que a morte

E o nascimento do meu filho me fez perceber, de um jeito muito mais bonito e poético, o quanto a tecnologia me transformou por dentro e transformou toda a minha vida.

Cheguei na maternidade, fui ao balcão de atendimento e respondi as perguntas da funcionária sem nenhum “hãn”. Aguardei minha vez na triagem sem ficar vidrada na TV que chamaria meu número, mas sim mexendo no celular e ouvindo o alto-falante “Sra. Paula, dirija-se à sala 1“. Fiquei sozinha na sala em que me puseram para monitorar o coração do bebê e não tive problema com o que as diferentes enfermeiras me diziam – e em nenhum momento precisei explicar que era surda.

Ouvir o primeiro choro

Fui para a sala de parto ouvindo e conversando com o maqueiro e as enfermeiras. Ouvi e entendi cada mísero barulhinho dentro da sala, o que me permitiu participar ativamente daquele momento tão único e incrível.

Aproveito para agradecer à Patricia M., que me emprestou o Kanso para o parto – uso dois N6 mas depois de fazer todos os testes  possíveis para tentar que eles ficassem nas orelhas estando deitada olhando para o alto sem sucesso, desisti. Graças à Pat, deu tudo certo!

A cereja do bolo, com certeza, foi ouvir o primeiro choro do meu filho!

Para vocês terem uma ideia do significado disso, até 2013 eu jamais havia me permitido chegar perto de ousar sonhar em ter filhos. E pensar que se tivesse não conseguiria ouvir esse choro me deixava tão triste…

Mas eu fui capaz de ouvir o primeiro som emitido pelo meu filhotinho assim que ele nasceu: um choro bem alto. E lindo!!! Fiquei nas nuvens por ter podido estar 100% presente no nascimento dele.

Assim que Lucas nasceu, precisei começar a aprender a desvendar os seus sons e choros. No início, estava super apavorada. O Luciano fazia comentários sobre os diferentes tipos de choro dele eu ficava paranóica achando que nunca seria capaz de fazer essa diferenciação.

Tive mais uma prova do poder de adaptação do cérebro humano, porque tenho um bebê de quase quatro semanas em casa e consigo decifrar seus murmúrios, gritinhos, choros e qualquer som que ele emitir. Inclusive tem um som que eu adoro, que parece um pio, quando ele está mamando.

E viva o Scan do N6 que me permite ouvir seus choros super altos (são raros, ele tem 1 noite ruim para cada 7 noites boas!) num volume bem confortável. Quando o cachorro começa a latir junto enquanto ele chora, realmente, só o Scan na causa…

A surpresa

O mais surpreendente foi a rapidez com a qual me adaptei a dormir usando um implante coclear – com os dois não dá, pois um dos lados da cabeça precisa estar no travesseiro.

Nas primeiras noites tentando, praticamente não dormi, porque  todo barulho me acordava: minha respiração, o ar condicionado desarmando, qualquer som que o nenê emitisse. Tinha para mim que essa era uma missão impossível.

Lá pela quarta noite parece que o cérebro fez ‘click’, e aí, pronto! Agora durmo tranquilamente toda noite com o IC direito, já que não confio no esquerdo tanto assim e o som que entra pelo direito é bem mais refinado.

As primeiras noites em que fui 100% responsável por ouvir o Lucas me deixaram meio apavorada, mesmo com ele dormindo no carrinho ao meu lado no quarto. Quase um mês após o nascimento dele, isso não é mais problema e cheguei ao ponto de acordar apenas quando ele faz algum chorinho ou barulho bem significativo.

O cérebro é tão esperto que já sacou que não precisa me acordar quando ele resmunga ou faz barulhos e continua dormindo.

A única providência que tomei foi a de mudar o meu ímã direito para um ímã de força 2, já que agora fico praticamente 24hs por dia com o IC e preciso aliviar essa parte. Deu super certo, com o bônus de que ficou tão agradável que nem sinto que estou de implante coclear com o ímã 2. Adorei!!

Duas noites foram engraçadas, porque estava com baterias recarregáveis e elas acabaram no meio da madrugada. Fui acordada pelo Luciano me avisando disso e depois fiquei naquela vibe do ‘ai meodeos e se eu estivesse sozinha com o nenê?

Nesse primeiro mês em que eu mal consigo tempo para raciocinar direito, tomar banho, comer, pentear o cabelo (e eu achava que a falta de tempo era lenda, hahahaha!) e qualquer outra coisa, nada melhor do que ser prático e não precisar pensar muito. No caso, usando pilhas no lugar de baterias recarregáveis de IC. 🙂

Presente da Rayovac: muitas pilhas de implante coclear e pilhas para a parafernália eletrônica do bebê!

A constatação

Sou uma mãe surda que ouve. O implante coclear me deu a coragem necessária para realizar meu sonho de ter minha própria família. Precisei voltar a ouvir para ouvir o meu barulho de dentro…

Meu pior pesadelo a respeito da adaptação inicial já foi vencido, e só tenho a agradecer ao meu marido por ser um companheiro fiel e escudeiro nessa fase. O maior presente para mim agora é poder dormir seis horas seguidas, e isso só é possível quando o Luciano assume a madrugada e desliga meu IC noturno para que eu possa apagar num sono silencioso dos deuses.

Sao 24 horas ininterruptas de estímulo sonoro na maioria dos dias desde que Lucas nasceu. Sinto duas coisas ultimamente: saudade de dormir toda santa noite no mais absoluto silêncio sem me preocupar com nada e presença total no momento presente. Justo eu, sempre tão ansiosa e ligada na tomada, precisei me tornar mãe para desacelerar e contemplar mais o que e quem está ao meu redor.

Ser uma mãe surda que ouve é perder o acesso irrestrito ao silêncio . É aprender a viver com sons o tempo inteiro, é desvendar os barulhinhos de um pequeno ser humano que depende 100% de você. É sair, mais uma vez, da bolha silenciosa para a qual eu poderia voltar quando bem entendesse. E, talvez, o mais generoso ato de todos: me manter totalmente no mundo sonoro. Nunca fiz isso por ninguém antes. Agora, faço com gosto.

Aproveito para agradecer todo o carinho e mensagens que vocês me enviaram neste último mês. Acalentaram demais o eu coração e têm sido uma ótima companhia para as muitas mamadas diárias. Obrigada por serem essa grande família cheia de energia boa.

Nos próximos posts vou contar como a tecnologia tem me ajudado a monitorar o bebê enquanto trabalho e faço outras coisas, e também sobre o teste da orelhinha e o BERA de confirmação dele. Fiquem ligados!

70 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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