Mais um depoimento

*depoimento de uma leitora

“Há pouco tempo acompanho o “Crônicas da Surdez”, que descobri por acaso, procurando informações sobre IC, sequer imaginava que havia um espaço desses na net e, o mais bacana pessoas compartilhando suas experiências. Sou reservada, mesmo assim derrubei essa barreira para contar de mim a vocês.

Sou surda ou deficiente auditiva, como queiram (rotular é o que menos me importa, como verão a seguir), neurossensorial bilateral, severa no OE e profunda no OD, faço uso de AASI desde os 5 anos de idade apenas no OD e sou oralizada.

Fico me perguntando em que momento da minha vida percebi que realmente era “diferente” dos outros. A descoberta veio meio tarde, apenas aos 5 anos meus pais se deram conta que eu tinha algum “problema”, não houve um diagnóstico preciso se minha perda é de nascença ou posterior, enfim hoje não importa, convivo com a dúvida e sinceramente não sei se faria diferença saber o como e o por quê. Também já passei da fase de questionar por que comigo; se isso faz parte da minha evolução, então que eu possa aprender da melhor maneira.

Sempre estudei em escola normal, atividades normais. É verdade também que eu era uma menininha e adolescente tímida, mesmo enfrentando essas dificuldades nunca permiti me abater, penso que a vontade de viver e principalmente conviver com os outros foi mais forte que cair no “coitadinha”. Tive e tenho amigos maravilhosos e compreensivos, mas também deparei com muita gente ignorante, esses nem lembro quem foram; meu cérebro sequer registrou a passagem dessas pessoas, para quê??? O que me acrescentariam? Dor? Isso eu já tinha no meu íntimo por não ouvir totalmente…

Mas ao mesmo tempo muitas e muitas vezes eu esqueço que sou surda, sabem por quê? Fui privilegiada e abençoada com pais maravilhosos que foram atrás do que fosse possível melhorar minha vida e a pudesse levar normalmente: uso do AASI, sessões de fonoterapia, telefones amplificados. Inclusive, fui incentivada a me virar sozinha, a olhar o mundo como é de fato e não tive mãozinha na cabecinha não. Meus pais se preocuparam em me deixar independente.

Fiz duas faculdades, a primeira nem concluí, nada relacionado a surdez. Simplesmente escolhi o curso errado! Informática… depois me formei em Artes Visuais, fiz pós graduação em Gestão de Negócios e, atualmente trabalho em uma instituição de ensino privada, como designer de material didático. Cursei a língua italiana, por achar bonita. Cursei inglês, mesmo não conseguindo ter fluência, por motivos óbvios, dá para o gasto. Estou sempre fazendo cursos relacionados à minha área de trabalho, e outros que possibilitam me manter empregável, tanto que novas ideias já estão fervilhando na minha cabecinha.

Minha vida é normal, amo dançar inclusive! Porém, música é difícil para mim no sentido de escutar mesmo, somente clássica. Adoro correr! Ainda não me tornei atleta, pois deixo a desejar na disciplina de treinamento: no entanto já participei de algumas corridas de rua, quem sabe um dia eu faça a minha primeira maratona? Faço Pilates Studio. Viajo sozinha sem problemas. Leio e muito. Gente! Ler, principalmente para quem não ouve, ajuda e muito, muito mesmo; seja para melhorar o vocabulário ou nos manter informados. Sempre digo que ler é o que me salva da ignorância! Livros é a minha paixão, muito mais que artes, a minha formação.

E sabem o que mais? Minha perda é de severa a profunda, sem aparelho  auditivo eu nada ouço, um sonzinho que seja, mas minha comunicação e articulação são “perfeitas”! Tanto que quem me conhece custa a acreditar que tenho um “problema” auditivo (claro, tem aquele sotaquezinho que nos acompanha, e mesmo assim, acham que sou estrangeira! rsss…) Verdade também que nem vou me anunciando desnecessariamente a qualquer um que sou DA, pois na maioria das vezes passo tranquilamente por ouvinte! Mas pessoal isso não é vergonha, não! É mais ou menos assim, se a pessoa vai “entrar” na minha vida, aos pouquinhos ela vai sabendo de mim… se não, é uma informação desnecessária para ela, desde que eu consiga comunicar o que preciso… entretanto isso já me fez passar por esnobe, metida, orgulhosa e por aí afora. Hoje, cuido mais da minha imagem, mas quando era pequena e adolescente, eu não tinha noção de que passava isso, simplesmente por que não ouvia! E como nem tudo são mares de rosas, foi justamente na adolescência que bateu a negação, a vergonha e os dramas por não ouvir. Graças a família e amigos passou, afinal tinha de ter minha “birra” de adolescente, né, pois nada tinha de rebelde…

Então só me lembro de que não sou ouvinte, quando estou com um grande grupo de pessoas, no trabalho quando todos falam ao mesmo tempo, em um restaurante, enfim em situações com muitas pessoas, com sons externos, se num primeiro momento pode bater uma tristeza, ela não toma conta, eu rapidamente sacudo esse pensamento e aproveito o máximo do momento em que me encontro.

Mas o que quero deixar dito aqui com meu depoimento, corram atrás, tentem oralizar o máximo que conseguirem. Antes que me esqueça, nunca senti necessidade de Libras, portanto aos usuários de Libras, tentem ao menos ser bilíngues, afinal estamos no mundo dos ouvintes e somos nós que temos de nos fazer entender! Façam fonoterapia, treinamento auditivo, usem aparelho auditivo sem vergonha, afinal ele só te ajuda a ter qualidade de vida! Aparelhos auditivos e sessões de fono são caros, sem dúvida, mas o SUS está aí também! E lembrem-se, ninguém está sozinho nessa, como podemos observar nesse blog! Quem sabe não depende de nós aqui fazermos do nosso AASI e do IC, o charme que nos acompanha? Tantas pessoas acham um charme usar óculos… então?!

PS: Estou encaminhando para fazer o IC, se eu conseguir, como acredito, será um depoimento para a Lak, no DNO, pois com ela eu tenho vislumbrado novas possibilidades e sons para a minha vida…

Um grande abraço a todos!
D. – 30 e tantinhos aninhos – Curitiba – PR”

**Concordo com a D. Não vejo motivo para ficarmos presos no silêncio se houver alternativa. E não conseguiria jamais ficar restrita a me comunicar apenas com um pequeno grupo de pessoas – acho que temos que fazer todo o esforço possível para nos comunicarmos com o mundo, com todas as pessoas que quiseremos, e não apenas por questões pessoais, mas também por questões profissionais.

13 Comentários em “Mais um depoimento”

  1. Rodrigo Nunes

    Eu tenho um clone feminino?! Essa história bate com a minha. Até na idade! =))

    1. D.

      hummm… eu clonada? =D
      Também quero saber desse evento de IC, heim?!

  2. Gui Chazan

    Que depoimento! Praticamente me vi no espelho, grande parte do que escreveste aconteceu igualzinho comigo, D. Fico feliz de ver a tua força de vontade e persistência de continuar se aprimorando e sempre aprendendo mais, parabéns!

    Tem um ponto que tocaste que quero, tento e não consigo entender.

    “Antes que me esqueça, nunca senti necessidade de Libras, portanto aos usuários de Libras, tentem ao menos ser bilíngues, afinal estamos no mundo dos ouvintes e somos nós que temos de nos fazer entender! Façam fonoterapia, treinamento auditivo, usem aparelho auditivo sem vergonha, afinal ele só te ajuda a ter qualidade de vida! Aparelhos auditivos e sessões de fono são caros, sem dúvida, mas o SUS está aí também!”

    Concordo contigo que a oralização é importante, afinal é o meio de comunicação da maioria. Também considero Libras uma língua que deveria ser aprendida pelos ouvintes. Mas no momento, questiono-me por que há essa resistência da comunidade surda sinalizada de não querer aprender sinais nem leitura labial. Claro, é mais difícil, mas com certeza é útil. Alguém saberia me responder?

  3. Lara

    Lindo depoimento dela!
    Somos capazes de fazer tudo independentemente de qualquer coisa!

    Beijos

  4. Mariana

    Nossa, parece que fui eu que escrevi!!
    Igualzinho comigo! Me identifiquei muito, muito mesmo!

  5. Fernanda Danielle Agostini

    Achei interessante o que o Gui disse e estou passando por essa situação.
    “por que há essa resistência da comunidade surda sinalizada de não querer aprender a leitura labial e a escrita portuguesa?”

    Estou tendo a experiência de me relacionar com surdos, porém alguns deles não se esforçam em tentar me entender através da leitura labial, eles só falam comigo se tiver um intérprete por perto. Eu tenho procurado aprender Libras para melhorar minha comunicação com eles, e ai tenho me questionado o pq deles nao tentarem se comunicar comigo atraves da leitura labial sendo que eu estou tentando aprender Libras?

  6. Karyne

    Olá D.! Tbém me identifiquei com seus comentários e olhe só que coincidência, sou curitibana e com 30 e pouco anos… rssss. Me diz com que fono vc faz acompanhamento? Eu fazia com a Katia Ribas e com a Lorena Koslowiski. Abços!

  7. Greize

    Lindo depoimento.Sobre a pergunta da Gui, tem vários artigos, depoimentos, e cada sinalizado te da uma resposta, diferente.Alguns usam LS e oralização, outros não.Não vou entrar nisso, da maior Bafão.

    Mas a pergunta da Fernanda tem resposta:”o pq deles nao tentarem se comunicar comigo atraves da leitura labial sendo que eu estou tentando aprender Libras?”.Alguns querem sim falar com vc atráves da oralização, pq comigo acontece isso, o caso foi que alguns, são pré-linguais e não tiveram nenhum apoio da família e fonoaudiólogos quando crianças.No Sus tem Fono sim ,mas a demora e fila é demais, e particular o preço é surreal.Outros , simplesmente não querem buscar fono, depois de adulto.Não me pergunte o porque??!!
    Bjuss

  8. Maria Salete

    Bom dia
    O depoimento de Denise é muito bom.
    Porem vale lembrar que o implante cocler e o primeiro passo a voltar escutar ou escutar pela primeira vez, porém e preciso seguir todas as orientaçóes medicas, e fonoaudiologicas para ter um progresso no uso de implante.
    Att
    Maria Salete

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