Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Me ajuda, Paula!

‘Me ajuda, Paula‘ é a nova categoria de posts aqui do site, inaugurada através do Grupo Crônicas da Surdez no Facebook – mas você também pode participar mesmo que não faça parte do grupo. Pedi que o pessoal me enviasse email com pedidos de ajuda que pudessem ser transformados em post e, para começar, escolhi um que sei que vai abranger muitos leitores do Crônicas da Surdez.  Respondi a cada um dos outros que me escreveram por email. 🙂

A vergonha da deficiência auditiva me prende

‘Aos 8/9 anos, meus pais começaram a me levar a fonoaudiólogos e otorrinos. Era uma pilha de exames, os mesmos em vários lugares diferentes para avaliar os resultados. Eles diziam que muitas vezes me chamavam e eu não ouvia. Eu era bem pequena, percebia isso mas não me incomodava tanto, não entendia o que estava acontecendo. Lembro de na maioria das vezes em que assistia às novelas do Vale a Pena Ver de Novo e os filmes da Sessão da Tarde, sempre perguntar para minha mãe que me acompanhava assistindo: “Mãe, o que aconteceu? Me explica“. Eu não conseguia entender nada.

Entrando na adolescência comecei a usar os aparelhos auditivos, nos dois ouvidos. Na escola, somente usava cabelo solto e aproveitava que erams longos e escondia-os. Correr? Sempre segurando os cabelos para que o vento não os mostrasse. Já mais velha, com meus 12/13 anos, passei para uma outra escola e decidi usá-los à mostra. Mas não durou muito tempo… Via as meninas de uma forma que eu descrevia como perfeição, afinal, elas não precisavam usar dois aparelhos auditivos. Passei a não usá-los mais desde então, e hoje, aos 20 anos, noto a necessidade deles e a mudança na minha audição. 

Percebi que a minha fase de negação se deu logo no início e penso que se eu tivesse insistido e aprendido a lidar com a situação bem nova, hoje eu teria uma aceitação total. Eu teria feito as pessoas se acostumarem com a minha realidade e teria me adaptado. Mas todos nós sabemos o quão difícil é tudo isso. E desde então, questiono mundos e fundos sobre o porquê de eu ser assim. Olho para algumas pessoas e penso: “Por que não ela?”. E me bate uma tristeza…

Hoje sou uma pessoa depressiva, buscando ajuda para procurar a melhor forma de como aceitar tudo isso. Até então,  nunca soube qual era o resultado do meu laudo, porque nunca me aceitei como deficiente auditiva. E hoje eu procurei e soube: perda auditiva neurosensorial moderada bilateral. Como eu chorei. Bom, namoro há dois anos e nunca contei ao meu namorado. Minha família não menciona o assunto porque desde nova coloquei uma barreira nisso e eles sabem que o assunto me faz surtar. Esta cada dia mais insuportável. Mais doído. Mais triste. Diariamente cogito abrir mão de tudo o que consegui até aqui, pela não aceitação. Do namoro, dos amigos, da faculdade e de tudo. Já desenhei todas as formas que achei que poderia usar para compartilhar isso com as pessoas ao meu redor, mas a vergonha da deficiência me prende. Lembro de perguntar para os meus pais quando pequena: “Se vocês pudessem trocar comigo, me dariam a audição de vocês?”

ps.: Me ajuda, Paula!’

Vamos lá

Querida W., eu sei exatamente o que você sente porque vivi exatamente tudo o que você está vivendo. Recebi meu diagnóstico na adolescência, e aos 16 anos, já estava na surdez bilateral moderadamente severa. Imagina o baque! Quis sair correndo, que nem o Forrest Gump, e não voltar nunca mais. Mas no outro dia precisei ir para a escola, com aquele peso nas costas: agora eu precisava usar aparelhos auditivos! Depois que os comprei – o que foi um drama na minha família por causa do preço – passei semanas reunindo coragem para ir com eles à escola. Eu parecia a Juma, da novela Pantanal, penteando o cabelo para a frente, assustada. Até que uma colega viu, me perguntou o que era, e eu fiquei gelada e saí correndo para o banheiro para tirá-los sem que ninguém visse. Sofri horrores, e a culpa foi minha. Do meu preconceito comigo mesma. Porque quem sentia vergonha era eu, os outros não estavam nem aí, mas eu estava obcecada em achar que toda a população do planeta prestava atenção nos meus ouvidos. Ridículo, não?

Esqueça perfeição, seja nas meninas da escola ou em qualquer ser humano: isso não existe. Sim, você tem deficiência auditiva, mas e daí? Sua amiga ‘perfeita’ pode enfrentar desafios muito piores que esse na vida, dos quais você nem faz ideia. A grama do vizinho, embora pareça mais verde, nunca é. E nós temos que lidar com os nossos próprios problemas e desafios, não fugir deles.

Quem tem que se acostumar com a sua situação é você, não os outros. Aliás, esqueça os outros e pare de dar a eles essa importância toda que você tem dado. Eles têm mais o que fazer do que se importar com a sua surdez, e vou te contar uma coisa super libertadora: as pessoas reagem à nossa atitude com a coisa toda. Explico. Se você continuar transformando a surdez e o uso de aparelhos nesse terror, nesse tabu, é essa mensagem que passa pro mundo, e é a isso que o mundo vai reagir. Agora, se você transformar esse peso em leveza e passar a lidar com isso de um jeito tranquilo e sereno, sem medo, sem vergonha, sem desespero e sem choro, as pessoas vão reagir a esta atitude de um jeito totalmente diferente. Como sei disso? Porque também passei longos anos da minha vida morta de vergonha, sem usar meus aparelhos, proibindo todos de tocar no assunto, não contando para os namorados. A vida era difícil e cansativa demais assim, porque me sentia uma fraude e uma mentirosa o tempo inteiro. Quando decidi parar com isso, falar abertamente sobre a surdez, usar os meus aparelhos e tudo o mais, em vez da passeata “Ela é surda” que imaginei que aconteceria, o que aconteceu foi apenas que as pessoas me diziam: “Poxa, demorou hein! Só você achava que enganava alguém fingindo que escutava…Que bom que finalmente entendeu que precisa usar os seus aparelhos

Quando a surdez nos pega na infância, é mega comum que a gente chegue à adolescência puto da vida e se sentindo injustiçado, e até com raiva de ter sido premiado com ela. Não é algo que possamos controlar, mas após uma certa idade não dá mais para ficar agindo como criança teimosa e birrenta. A vida é justa? Não! Nem com você, nem comigo, nem com ninguém. Estamos todos aqui para evoluir como seres humanos, e não é negando um problema desse tamanho e se escondendo dentro do armário da surdez que vamos evoluir. É enfrentando esse monstro, que nem é tão monstro assim quando você aprende a lidar com ele.

A boa notícia? Você tem a ‘melhor’ perda de todas. Na surdez moderada bilateral os aparelhos auditivos fazem maravilhas pela gente, e você conseguirá tudo de melhor que eles têm para oferecer – coisa que quem já está na surdez profunda não consegue, por exemplo. Você não irá se adaptar a eles apenas se não quiser, e se optar por continuar com essa atitude derrotista e negativa. Acho que chegou a sua hora da virada. Hora de se olhar no espelho e se aceitar exatamente como é, até porque chorar e se esconder não vai mudar isso. A surdez não é deficiência de caráter. Você só precisa mudar sua atitude perante ela!

Vamos traçar objetivos então? Comece tendo uma conversa franca com a sua família e avisando a eles que você está disposta a mudar e quer a ajuda deles neste processo. Se tiver chance, procure uma terapia (ajuda TANTO!). Converse com seu namorado e conte a ele. Conte para seus amigos mais chegados. E o mais importante de TUDO: comece a usar já os seus aparelhos auditivos, tirando-os apenas para dormir e tomar banho. Transforme-os nos seus melhores amigos e mude a sua vida. Você criou uma prisão na sua mente e só você tem a chave para abrir a porta dessa prisão. Liberte-se dessa vergonha que não vai te levar a lugar algum, a não ser ao fundo do poço. Tenho certeza que não é lá que você quer viver, certo? Bora! 😉

77 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

7 Comentários

  • Durante dois anos fiz terapia para aceitação da deficiência, o que me ajudou bastante, sem dúvida. Minha vergonha, é diferente, e continua até hoje. Existem ouvintes e “ouvintes” e os que mais me chocam são os profissionais da área da saúde ,tão logo. É bastante incomodo termos de ir a médicos de outras áreas, academias, nutris, terapeutas sempre com acompanhantes. Já cansei de tentar fazer isso sozinha, já chego anunciando minha deficiência (conforme a acústica do local) e mesmo assim, o tom da conversa começa bem e acaba em um desastre. PARECE ATÉ QUE SÃO AS PILHAS DOS OUVINTES É QUE ACABAM. PEÇO PARA FALAREM MAIS ALTO TANTAS VEZES QUE SINTO VERGONHA.

  • Olá! No início é super comum a negação…mas quando procura o equilíbrio e o conhecimento do porque? Fica fácil…eu hoje…costumo falar que sou uma deficiente Auditiva assumida…sabe porque? Sou especial… Deus está comigo…e entre meus amigos sou admirada pela minha capacidade de lhe dar com tal dificuldade…isso me encoraja e dar exemplos pra quem outros problema…pra seguir em frente…

  • Olá!

    Boa iniciativa, quem precisa é que deve sim pedir ajuda!

    Como alguém se atreveria sugerir ou ajudar sem que tenha sido solicitado. Toda critica, sugetões,

    iniciativas que visem o bem estar e apontar soluções devem ser apoiadas.

    Ótimo.

  • Tenho 47 anos. Descobri que tenho neuropatia auditiva em julho deste ano. Os sintomas coneçaram em fevereiro, mas só tive o diagnóstico depois de uma consulta em São Paulo, pois os médicos em Brasília, onde moro, desconheciam a doença. É difícil, mas não tenho vergonha. Como a minha fala é normal, sempre falo com as pessoas para olharem para mim, senão não consigo entendê-las. Tenho um zumbido muito alto, que aumenta de acordo com o barulho externo. Por isso, não sei se os aparelhos vão me ajudar. Tenho que usar protetores auditivos para suportar o barulho em alguns lugares. Mas não tenho vergonha. Não é minha culpa. Nem de ninguém. Aconteceu.
    Tenho 2 filhos adolescentes e marido , que também não se envergonham de mim. Já chego falando que sou surda e eles estão se adaptando bem. No trabalho, recebi todo apoio também. Estou me adaptando da melhor maneira que posso. Estou viva. Não sinto dor. Isso não vai me matar. Se não consigo mais escutar música, eu canto. Enfim, a vida continua….

  • Realmente são poucas as pessoas que noto que não tem vergonha pela perda de audição.
    Legal essa postagem sobre esse ponto!

  • Muito bom…..eu as vezes sinto vergonha, não sei explicar, mais depois passa…acho q não vou arrumar ninguém ….pode ser coisa da minha cabeça…

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