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Minha filha é surda

‘Oi Paula, tudo bem? Hoje você comentou em uma publicação que eu fiz pra minha filha no grupo Crônicas da Surdez no Facebook. Quando eu escrevi aquilo há 1 ano atrás foi a primeira vez em que falei abertamente sobre a surdez da minha filha. Não por vergonha, mas por receio dela passar por algum constrangimento, por que infelizmente sabemos que isso acontece.

Também depois de muitas pesquisas, grupos e visitas a locais com muitas crianças com deficiência auditiva, parei de ser tão protetora. Não o suficiente, devo confessar que sou ainda muito protetora, mas estou aprendendo da melhor forma a desapegar das coisas que podem fazer ela sofrer. Paula, a pior coisa que existe é ver um filho sofrer…

Meu nome é Jannayna, tenho 25 anos e o nome da minha filha é Ana Beatriz de 8 anos. Engravidei com 16 anos, a tive com 17 anos. Descobri a deficiência dela com apenas 1 ano e 2 meses, graças à professora da escolinha que percebeu. Minha família sempre falou muito tarde então achávamos que era normal ela com 1 anos e 2 meses não falar nada – e achávamos que ela fingia que não ouvia quando chamávamos.

Tive ela em um hospital público e na época não era obrigatório o hospital fazer o Teste da Orelhinha em bebês. Aos 3 meses de vida ela teve uma parada respiratória e acreditamos que esse pode ter sido o motivo da perda dela. A Ana Beatriz tem perda auditiva mista bilateral.

Foi difícil no começo, mas hoje lidamos super bem com tudo isso. Tento fazer o melhor pra ela e graças a Deus tenho anjos ao nosso redor que ajudam demais no desenvolvimento da minha filhota. Hoje ela está na terceira série, sabe ler e escrever; estamos nos saindo muito bem na parte de alfabetização  – a professora falou que ela é muito dedicada. Ela é super falante, é difícil entender mas nós tentamos, rsrsrs!

Essa é a nossa história – um pedaço dela, pois essa história só começou. 🙂

O texto publicado lá no grupo

A deficiência auditiva, não tem nenhuma sequela visual. É a única deficiência totalmente sensorial apenas. Mas não significa que ela seja mais leve que as outras deficiências. Apesar dela não afetar o desenvolvimento físico da criança. Surdez é uma deficiência que, muitas vezes, isola a pessoa, já que ela tem dificuldade de compreender o que a maioria das pessoas fala. É mais difícil acompanhar uma conversa em grupo, mesmo com boa leitura labial.

Ao contrário do que dizem a deficiência auditiva não é invisível, é apenas mais discreta. Um usuário de Libras desperta curiosidade alheia. As próteses auditivas ou implante coclear são aparentes e chamam atenção também.

De alguma forma, as famílias, em especial as mães, idealizam um filho durante o período de gestação. Passam nove meses (às vezes menos) imaginando seu rostinho, seu sorriso, seus detalhes. Um grande orgulho para qualquer mãe é exibir seus filhos, de qualquer idade. Quando, por algum motivo, esse filho tem alguma deficiência, é comum que a família tenha uma reação de negação. Aconteceu comigo.

Via fotos, lia textos e repetia: eles estão enganados, minha filha não tem isso. Confesso que chorei. De medo. Pensava em como seria a vida dela, como seria a minha vida. Fiquei atônita. Mas todo esse susto levou apenas alguns dias. É preciso maturidade emocional e muita autoconfiança, para não se deixar abalar de ser um centro de olhares alheios inconvenientes. Porque, certamente, alguma hora alguém vai perguntar porque a criança fala com a voz assim ou porque ela usa a prótese auditiva e, claro, invariavelmente, algum desagradável fará um comentário infeliz do tipo: “ai, coitadinho dele, ele usa aparelho?

Como a criança é ingênua e indefesa, essa tarefa cabe aos pais. São eles que vão incentivar a autoconfiança da criança desde cedo. Como mãe eu confesso: é absurdamente cansativo ter que dar satisfações a cada minuto, conviver com olhares piedosos ou preconceituosos. Mas quando penso nisso tudo eu coloco minha filha em primeiro lugar e encaro tudo. Ela é quem importa, os outros são apenas os outros.

Penso que o melhor que posso fazer por ela é ensiná-la a encarar a deficiência com naturalidade. E queremos que nossos filhos tenham autoestima, é importante, então, reconhecer não apenas a sua deficiência quanto os aparelhos que podem melhorar suas vidas. E se quiserem olhar, que olhem. Desde que os nossos filhos estejam bem conosco e com eles mesmos, isso não os abalará. Obrigada ao meu DEUS por me da à graça de ser MÃE, e de pode cuidar e amar essa menina que veio para alegrar a minha vida. Que todo preconceito se torne amor, que um dia podemos viver em um mundo melhor!’

32 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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