Deficiência Auditiva Histórias dos Leitores

Declaração de amor de um namorado ouvinte para seu namorado surdo

Meu nome é Edilson Andrade, 30 anos, Administrador, Analista de Marketing e ouvinte. Nasci na cidade de Sumaré/SP, me mudei para a cidade de São Paulo no ano de 2013. Há mais ou menos seis meses conheci o homem que iria mudar a minha concepção de viver, ou seja, que me fez pensar em acessibilidade e principalmente descobrir novas formas de comunicação. Valter Lenine Fernandes, 33 anos, professor, historiador, doutorando em história econômica pela USP, surdo oralizado e atualmente aprendendo Libras.

Conheci o Valter através de uma foto que vi no perfil no Facebook de um amigo, num tempo que ele não identificava a surdez em sua página pessoal. Iniciamos a nossa conversa por mensagem, no segundo dia ele disse que era surdo bilateral com perda profunda, fiquei assustado! Primeiro por não saber como seria o nosso encontro, segundo por achar que não conseguiria ter e/ou manter uma conversa.

Ele me ignorava, dizia que estava ocupado, demorava a responder as mensagens, enfim não sabia mais o que fazer para estabelecer uma comunicação.  Nesse período, não imaginava que ele era surdo oralizado e usuário de aparelhos auditivos, logo resolvi fazer um curso de Libras online pela Universidade de São Paulo.

Continuei insistindo, até que um dia ele enviou uma mensagem me convidando para ir até a região da Av. Paulista tomar um café e conversar. Estava saindo do escritório, fiquei tenso porque não sabia se conseguiria falar. Cheguei, ele se levantou, me conduziu para a melhor posição da mesa para que pudesse ler os meus lábios, depois me explicou a questão da iluminação e de um local mais silencioso para que pudesse ter uma excelente conversa.

Eu fiquei assustado porque tinha uma expectativa de que todo surdo fosse mudo e, na verdade, esse jeito de conduzir a situação desde a escolha do café à iluminação, eu entendi como uma gentileza, portanto um jeito único de relacionar com o ser humano. Existiam algumas regras: sem celular na mesa, conversa olhando fixamente no olho sem desviar a atenção.

Gradativamente os meus pré-conceitos sobre o mundo dos surdos foram quebrados. Ao longo do tempo, cada vez mais apaixonado pelo Valter, percebi um mundo doce, cheio de afeto, carinho, compreensão e amor. Relacionar-me com o Valter me mostrou um lado da história que infelizmente todos ignoramos. Depois de me envolver, percebi que apesar de todas as dificuldades que ele enfrentou e enfrenta, sempre tem força para continuar a lutar pelo uso da tecnologia, pela interação com o mundo surdo e ouvinte, etc.

Apesar de algumas pessoas considerarem dois mundos diferentes, ele demonstra claramente que os nossos mundos são conectados pelo amor que vence qualquer barreira da comunicação.

Hoje, quando olho para ele, vejo um homem imponente, lindo e educado. Eu, morrendo de vergonha, até hoje, aprendo diariamente com o seu jeito quando ele não consegue fazer leitura labial e ao mesmo tempo ter concentração quando decide ser cozinheiro – ele ama cozinhar! Ah, não posso me esquecer da questão do telefone quando ele entra em desespero pedindo para realizar uma ligação, tive que aprender a ser o Valter no call center. Aprendi a escolher filmes com legendas, saber qual a melhor posição em uma sala de cinema, a lutar para que os direitos sejam cumpridos.

Além disso, aprendi com o Valter:

… a receber carinho e ser mimado a cada manhã através de mensagens, dizendo eu te amo;

… saber que o meu café estará sempre preparado, do jeitinho que eu gosto;

… não me preocupar com a coberta pois sei que ele irá me cobrir, pois fica alegre com a minha expressão de felicidade;

… esperar uma nova surpresa todos os dias através de mensagens e da sensibilidade da expressão facial;

… saber que sempre terei  total atenção nos restaurantes, bares e outros locais;

não pensar apenas em mim, mas em um mundo que precisa de mais acessibilidade;

… me preocupar que o mundo precisa de mais legenda nos aeroportos, nos cinemas, teatros, bancos, hospitais etc;

… dividir, confortar e superar os medos;

… repetir o assunto quantas vezes forem necessárias sem gritar até aprender que preciso de uma boa articulação labial;

… deixar o som do carro no último volume só para que ele consiga compartilhar a sensação de sentir uma música;

… saber que a melhor forma de falar com uma pessoa é olhar nos olhos;

… e principalmente, saber que todos os dias, por mais conturbados que sejam, ele estará ali, apoiando e dando suporte.

Eu agradeço o universo por ter colocado o Valter em minha vida! Juntos, aprendemos com a surdez. Hoje não existe uma divisão entre surdo e ouvinte, mas uma vontade única de sermos um casal feliz através do que é um sentimento verdadeiro: o amor.

Eu te amo, Valter Lenine Fernandes.

65 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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