Aparelhos Auditivos Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Surdo, eu? Imagina! Não sou surdo coisa nenhuma…

Se eu ganhasse um real cada vez que alguém me diz “Surdo, eu? Não sou surdo coisa nenhuma” já tinha me mudado para as Bahamas, rsrsrs. Piadinhas à parte, a negação da própria surdez é um atraso na vida da pessoa que possui algum grau de deficiência auditiva. E isso é mais comum do que se imagina. Na maioria esmagadora dos casos, primeiro a pessoa nega que escuta mal. Segundo, começa a busca pela ‘cura gramatical’ da surdez, não admitindo ser chamado de surdo (isso me dá um sono, mas um sono…) e querendo substituir a palavra por variações do tipo ‘deficiente auditivo’, ‘pessoa com problema de audição’ e por aí vai. Terceiro, entra num processo de aceitação que, para alguns, é mais rápido, para outros, mais demorado e difícil.

O meu processo demorou muitos anos – você pode ler mais sobre ele no livro Crônicas da Surdez (Ed.Plexus). Por essas e outras, decidi pedir ajuda aos membros do Grupo Crônicas da Surdez no Facebook para que compartilhassem suas experiências, pois só a minha não conta. 🙂

Quando você decidiu parar de negar a sua surdez?

Liliana

Eu sou surda desde os 5 anos, sempre encarei isso como problema de saúde e não uma deficiência, mas ao longo destes anos não me aceitei a 100%. Havia uma parte de mim zangada por não ouvir bem e que tinha vergonha de dizer às pessoas: “desculpe não ouvi” ou “sou surda”. Só há cerca de 2 anos é que comecei a aceitar minha surdez e a ter mais abertura para falar sobre ela com amigos, colegas de trabalho, etc…

Elisabete

Resolvi este ano. Sou bilateral (um total é outro leve) portanto escuto e falo. Amei este grupo porque me identifico em muitas situações. Eu sempre quis superar até que descobri que superar é bom. Cansa e exige muito, mais muito esforço e aceitar sem dúvida foi a minha melhor opção.

Sylvia

Quando estávamos almoçando todos juntos (minha família), eu falava e ninguém me escutava. E também meus filhos me cobrarem. Sinto não ter colocado antes abençoados aparelhos!

Júlia

Uma vez eu estava conversando com uma amiga na escola, e após não entender o que ela falou várias vezes, ela me perguntou por que eu não estava usando meu aparelho. Respondi que não gostava, que tinha vergonha, e comecei a dar um monte de desculpas para justificar, até que ela disse: “Eu acho que não adianta você ficar tentando esconder ou fingindo que escuta bem porque todo mundo sabe que você não escuta. O aparelho é bem discreto e é pra te ajudar a ouvir, então é melhor usar do que não entender o que as pessoas falam”. Depois desse dia eu resolvi usar, e aos poucos fui perdendo a vergonha. Hoje em dia tem gente que pergunta, pede pra ver (principalmente crianças haha) mas eu já me acostumei, já faz parte de mim.

Marele

Apesar de ter perda há mais de vinte anos, só de dois anos pra cá fui em busca de tratamento e foi esse ano que resolvi assumir a minha deficiência, pois perdi dois empregos devido à minha dificuldade de entender as pessoas. Apesar das dificuldades que venho enfrentando sendo atendida pelo SUS não tenho intenção de desistir pois as minhas dificuldades em ouvir têm aumentado a cada dia! (1 ano que assumi a minha surdez)

Ana

Aceitar é a parte mais difícil, fiquei uns 10 anos em negação, inacreditavelmente me sentia culpada por não ouvir. Hoje eu entendi o seguinte: sou deficiente auditiva, conviva com isso. “Mas Ana você não ouviu?” Não ouvi. E ponto. Tá na sua mão, repita ou não repita. Não é mais só responsabilidade minha. Sendo assim, agora creio que aceitei minha deficiência!

Ivete

No início não aceitava, mas agora que descobri o Crônicas da Surdez vi que não há motivos para isso. Entendi que as pessoas precisam saber da minha deficiência. Hoje prendo os cabelos, informo que tenho deficiência, peço para repetir… E sinto que a maioria respeita isso.

Stela

Quando percebi a surdez, corri para procurar ajuda!!! Fico sem graça quando respondo alhos pra bugalhos, rsrsrs. Já dos aparelhos nunca tive vergonha!

Luciane

Quando meu filho falou mamãe pela primeira vez e eu não ouvi….meu marido que me disse que foi a primeira palavrinha dele…. não deu mais….fui à luta!

Lu

Quando comecei a trabalhar, sempre falo com as pessoas sobre a minha surdez, como eles devem interagir comigo! Nem todos sabem lidar com isso, mas tento levar numa boa!

Monica

Do final do ano passado pra cá, depois que tive depressão! Hoje vivo muito melhor!

Tassiara

Na verdade fui forçada a enfrentá-la. Neguei a vida toda, mesmo sabendo que tinha algo errado e com algumas audiometrias alteradas. Chegou em um ponto que meu namorado me deu um chacoalhão e falou “tu estás surda!”, me obriguei a buscar ajuda e sem dúvidas foi a melhor decisão da minha vida!

Nancy

Não sou deficiente auditiva, mas posso falar pela minha pequena. No começo escondi de todos porque não queria pena de ninguém. O olhar das pessoas quando ela usou o AASI no primeiro dia foi em um restaurante, perdão pela palavra, foi “nojento”. Olhavam como se faltasse um pedaço dela… Reações totalmente diferentes quando ela não usava. E ninguém percebe que ela não escuta,às vezes duvidam, pois é muito esperta com os outros sentidos graças a Deus. Esse dia não sairá da minha memória, mas enfim, um dia acordei e não escondi mais, se quisessem sentir pena problema deles! Sou grata e morta de orgulho por ela, ela me ensina, não eu a ela. E sempre quero a ensinar assim, os outros são os outros, o que importa é quem ela é, um ser humano PERFEITO, que precisa de um aparelho, como alguém precisa de óculos. Amo essa página, e amo cada história de vocês.

Josilene

Eu comecei a aceitar quando saí da minha cidade no interior para estudar. Sabia que na cidade grande não teria o mesmo apoio dos meus amigos do colégio!

 

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22 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

1 Comentário

  • Boa tarde!!! Sim, realmente nota mesmo muitas resistências da pessoa que tem a perda de falar e até de aceitar ajuda quando uma a pessoa, isso aconteceu comigo, bem fato. Eu perguntava/comentava escrevendo por e-mail e a pessoa nem respondia as minhas perguntas, simplesmente ele me ignorava quando eu tocava no assunto! Eu somente tentando de todas as formas ajudar #Infelizmente

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