Histórias dos Leitores Implante Coclear

O que aprendi sendo mãe de implantado

Fonte: Aqui | Foto: Shutterstock

Todo ano, quando chega perto do aniversário do implante coclear do meu filho, me vejo experimentando emoções quando vejo o quão longe ele chegou e os caminhos que já percorreu na vida. Toda mãe de criança com necessidades especiais sabe como pode ser emocionante criar seu filho.

Aprendi durante esse processo de múltiplos testes, tentativas com aparelhos auditivos, cirurgias e ativação de implante coclear que estou amadurecendo junto com meu filho: mental e emocionalmente, de todas as formas. Aqui está o que aprendi sendo mãe de um implantado.

O implante coclear é uma tecnologia maravilhosa

Eu já tinha ouvido falar sobre IC e conhecia um pouco sobre o assunto antes de descobrir que meu filho era surdo. Se eu era uma expert? Com certeza não! Precisei de muita pesquisa e conversa com o otorrino para entender como funcionava. Só quando meu filho fez a primeira cirurgia e ativou é que fui entender o quão maravilhosa essa tecnologia era (e com isso quero dizer ‘oooooi, ele pode ouvir o iPad ou a TV direto no cérebro com um som alto e claro sem ruído!)

Pense no IC como um mensageiro dentro da cabeça do seu filho, levando uma mensagem do ouvido para o cérebro! É essencialmente um ouvido biônico, uma prótese, mas que se comunica com o cérebro! Só compreendi o quão maravilhoso era quando vi meu filho desenvolver a habilidade de ouvir e entender os sons com o tempo.

Você vai se tornar expert em IC

Aprender sobre implante coclear não é brincadeira! Ainda estou aprendendo sobre o equipamento e os cabos e acessórios que podem ser usados com ele, todos os detalhes técnicos dos mapeamentos. É um aprendizado tanto para a criança quanto para os pais.

A fonoaudióloga do meu filho tem sido ótima em me fazer entender que nem mesmo muitos médicos entendem de IC como nós. Há sempre algo novo para aprender e provavelmente seguirei aprendendo muito a cada novo upgrade de processador – o cérebro vai precisar se reajustar aos novos sons a cada avanço tecnológico!

Os adultos vão olhar porque ele é diferente

É assim e sempre será. Desde que meu filho fez seus implantes, não houve uma única ida a alguma loja em que alguém não tenha ficado olhando para ele – na maioria das vezes adultos, não crianças! Entendo que as pessoas sejam curiosas. Tem uma dúvida? Pergunte! Isso não me incomoda. Mas ficar encarando meu filho? Por favor, não faça isso!

Encarar é algo que se espera de crianças, não de adultos que deveriam ser suficientemente sábios para abrir a boca e perguntar. Infelizmente, apenas 3 adultos me fizeram perguntas ano passado!

Sempre haverão críticos

Um dos meus maiores medos antes de decidir fazer um IC no meu filho era a comunidade surda. Antes de aprender sobre a tecnologia do IC, fui abordada por um surdo que me implorou que não implantasse e ficou ofendido quando eu disse que estávamos considerando essa opção.

Depois de muita pesquisa é que fui descobri que a maioria das pessoas na comunidade surda não apóia o implante coclear – e isso me deixou bem triste!

De jeito nenhum quero que meu filho se sinta rejeitado pela comunidade surda. Lutei com isso por um longo período. Mas entendi que ninguém poderia tomar essa decisão por nós. Como seus pais, nós tínhamos que decidir o que era melhor para ele. Se escolhêssemos não implantar, algumas pessoas nos criticariam por não ajudá-lo da forma que poderíamos ter feito. Precisei aceitar o fato de que a decisão não tinha que levar em conta agradar aos outros – nós precisávamos fazer o que sentíamos que era o certo para o NOSSO filho.

Tomei a decisão certa para o MEU filho

E estou convencida de que foi a escolha certa para o nosso menino. Desde a ativação, tem sido uma jornada incrível de altos e baixos. Mas quando penso em tudo o que meu filho já conseguiu e nas oportunidades que demos a ele, tudo o que posso fazer é me sentir abençoada. Tenho a consciência de que abrimos a porta para que ele tome sua própria decisão sozinho mais tarde.

Se ele escolher continuar usando seu implante quando for mais velho, ótimo. Ele pode querer Libras como sua forma principal de comunicação. Estaremos de acordo com o que ele escolher. Tenho certeza que meu filho terá o melhor dos dois mundos e o poder de tomar suas próprias decisões.

Meu filho vai se desenvolver no seu próprio tempo

Eu estava muito preocupada que meu filho ficasse para trás em comparação a outras crianças da idade dele. Ele não tinha ativado o IC até os 18 meses de idade. Embora ainda esteja em desvantagem na fala, ele faz progressos incríveis todos os dias e se destaca de muitas outras maneiras. Ele consegue entender 50 sinais de Libras em inglês. Ele reconhece cada letrinha do alfabeto. E aos 2 anos e meio, conhece todas as cores.

Aos 3 anos, ele conseguia ler 20 palavrinhas; aos 4, já eram 40. Para mim, isso é maravilhoso. Por causa da privação auditiva que sofreu no início da vida, sua acuidade visual é impressionante. E fico pasma com sua inteligência. Ele brinca e aprende como qualquer criança, mas ainda não consegue dizer isso com suas próprias palavras.

Meu filho implantado me enche de orgulho

Acredito piamente que existe uma conexão muito forte entre crianças especiais e seus pais. É uma conexão diferente. Você se sente incrivelmente orgulhoso de cada mísero progresso que seu filho faz. Quando meu filho faz um barulho diferente ou tenta falar uma palavra nova, nós ficamos enlouquecidos porque sabemos que cada passinho é um passo enorme na vida dele. E isso me mostra que tomamos a decisão certa!

Qualquer conquista auditiva me transforma numa mãe cheia de orgulho. E mostrar a ele que fico orgulhosa vai – eu espero – lhe dar a confiança necessária para ir para o mundo e conquistar o que quiser da vida. Por enquanto, ele é nosso garotinho com ouvidos de super herói! 🙂

51 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

3 Comentários

  • Post MA-RA-VI-LHO-SO!

    Falo por mim aqui, sou mãe de uma princesa que irá realizar o IC, (estamos em fase de adaptação com os aparelhos auditivos) e mais difícil do que o primeiro impacto da notícia, é o receio de cada decisão que tomamos, se será ou não o melhor para nossos filhos.
    A princípio a única coisa a qual pensamos, por falta de conhecimento é que minha filha iria usar a linguagem de libras, a preocupação de que iríamos também que aprender para podermos nos comunicar. Ok! Já passamos por tantas coisas, que isso seria um detalhe!
    Mas até que começamos a pesquisar, e vimos que as coisas não são bem assim, falta muito mesmo essa questão de disseminação e aceitação das novas tecnologias e recursos! Nada contra a quem utiliza dessa linguagem, e aqui somos bem abertos quanto a isso, e apoiaremos a Alícia quanto as suas decisões futuras! Maaaaaas, Descobrimos o quão maravilhoso é esse mundo dos surdos oralizados! Sério isso é incrível! E estamos felizes e cheios de expectativas com a escolha do IC!

    É muito importante, nós pais, compartilharmos nossas experiências, pois pelo menos por aqui foram essas experiências compartilhadas que nos ajudaram a tirar dúvidas, a tomar nossa decisão e entender um pouco como funciona e nos encorajar nessa jornada!

  • Nossa não aguentei as lágrimas ???.
    Me sinto assim!
    Vivo isso todos os dias… Cada nova conquista do meu filho é uma benção!
    Tenho muito orgulho dele! Sou privelegiada por Teló,a cada dia cresço e amaduresso com ele!?????

Deixe seu comentário