Deficiência Auditiva Histórias dos Leitores

Odrus: o talentoso grafiteiro surdo que você precisa conhecer

‘Meu nome é Rafael Caldeira dos Santos, meu nome artístico é Odrus, sou um grafiteiro surdo, tenho surdez bilateral profunda e estou com 34 anos. Moro em Planaltina, DF, não terminei o ensino médio.  Não tenho aparelho auditivo, por não ter condições financeiras de comprar, infelizmente –  mas é meu sonho conseguir! Sou um pouco oralizado com dificuldades e usuário de Libras.’
Ele conta que teve dificuldades escolares e, com 16 anos, envolveu-se com crimes, tendo sido internado duas vezes em unidades socioeducativas. Aos 18, se apaixonou pelo grafite e, autodidata, tornou-se um artista. Hoje, ele participa da exposição Mundez, do Museu Nacional da República, com duas paredes grafitadas. 

Convites internacionais

Odrus foi convidado e participou do Meeting of Styles em setembro de 2016, na Califórnia. Também foi convidado para participar de uma exposição na Galeria de Nuremberg, na Alemanha. Já o Festival Internacional Clin d’Oeil, de artistas surdos, não apenas o convidou para participar como representante do Brasil na categoria de artes visuais como também o contratou para ensinar grafite a adultos e crianças surdas em Reims, na França.

“Meu sonho é poder viver do que amo!”

Você nasceu com qual grau de perda auditiva?

Surdez bilateral profunda

Você chegou a ouvir em alguma época da vida?

Com o aparelho, quando era menor, ouvia alguns ruídos, buzinas, telefone tocando, barulhos assim.

Alguma vez usou aparelhos auditivos?

Já, com sete anos de idade tinha ganhado um aparelho do CEAL, uma instituição filantrópica, mas que quebrou quando eu tinha treze anos.

Você trabalha atualmente onde, fazendo o que?

Hoje trabalho com o Cetefe, documentando e arquivando processos, alem de ser grafiteiro e artista por fora.

Com o que você gostaria de trabalhar e qual o emprego dos seus sonhos?

Meu sonho é trabalhar só com arte e grafite, poder conseguir fazer uma marca própria de roupas estilizadas com os meus desenhos e divulgar minha arte para o mundo, além de continuar ensinando grafite para crianças.

Quando jovem, você foi internado em unidades socioeducativas. Acha que teve algo a ver com a surdez e com as dificuldades de comunicação e expressão que ela traz?

Foi um dos fatores sim. A dificuldade de comunicação me isolou muito do mundo, era uma fase da minha vida que eu me sentia revoltado com tudo.

Você diz que o encontro com a arte mudou a sua vida. Como foi esse encontro?

Aos dezoito anos um colega me mostrou uma revista de grafite e fiquei encantado com aquela forma de expressão. Eu já desenhava, mas conhecer o grafite me fez querer pensar só naquilo, nos muros que eu podia colorir. Comecei a treinar e me esforçar com foco no grafite, por isso minha vida mudou.

Você usa Libras e fala/escreve? Você tem o desejo de ouvir?

Uso Libras bem, falo pouco, escrevo pouco. Meu sonho é poder ouvir, conseguir conversar com as pessoas em geral e me integrar melhor na sociedade.

Que tipo de apoio você gostaria de ter para que mais pessoas conhecessem a sua arte e você possa viver dela?

Gostaria que arte fosse mais valorizada e apoiada para que eu pudesse viver dela. O emprego que muitos surdos têm é exploratório, com um subsalário (de mil reais). Se eu tivesse apoio para conseguir montar a minha empresa iria ser perfeito.

Qual o maior aprendizado que a surdez trouxe para a sua vida?

A surdez me permite observar o mundo de forma visual, algo que acredito contribuir na minha formação artística, mas traz muitas barreiras e dificuldades também.

30 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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