Histórias dos Leitores

Os anjos circunstanciais

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“Gosto de pensar que tive alguns anjos em minha jornada, e eles foram uma peça importante na aceitação de minha deficiência e na reconstrução de minha autoestima, esta destruída na infância. Muitos deles foram ocasionais, mas deixaram marcas cruciais e me fizeram mais resiliente. Curiosamente, estes anjos não são aqueles que, naturalmente, espera-se que assim os sejam: familia, amigos, professores…

Considerando-se o meu contexto de vida e o aspecto da deficiência… os meus pais, por mais que eu os admire… é difícil para eu mesma admitir, mas eles não foram os meus anjos. Algumas grandes amigas, por mais próximas que tivessem sido, pelos ótimos momentos que compartilhamos… também não foram meus anjos. Tenho numerosos primos, primas, tios, tias… e eles também não foram meus anjos.

Se digo que uma pessoa não foi um anjo, não significa que foi indiferente, cruel ou insensível comigo; não significa que não a ame. Apenas faltou saber lidar comigo, compreender o meu ponto de vista, respeitar os meus limites – principalmente durante a fase da negação.  E não a culpo, pois minha negação também contribuiu negativamente para que a pessoa não soubesse como me ajudar.

Meu primeiro anjo foi a minha única fonoaudióloga que esteve comigo por muitos anos – embora eu tenha levado muito tempo para reconhecer o quanto ela me ajudou (já falei bastante dela em meu depoimento).

Um outro anjo surgiu nos meus 12 anos, na forma de uma professora de português da 5a. série. Na ocasião, eu passava por uma depressão e por momentos difíceis. Na turma escolar, mal tinha amigos e vivia isolada, quieta. Não era convidada para festinhas, geralmente lanchava sozinha no recreio e nunca era cogitada como participante em trabalhos escolares. Eram sempre os professores que determinavam para qual grupo eu ia, e sempre rolavam aqueles olhares de desdém dos meus colegas, aquelas risadas dissimuladas.

Enfim, ela passou trechos de um livro para a turma ler: “Menino de Asas”, de Homero Homem. Depois iríamos discutir em turma a importância da história. De forma muito resumida, o livro fala sobre um menino diferente: ele nasceu com asas no lugar dos braços. Amado pelos pais, ele combate o preconceito e a discriminação durante toda a sua vida. Na escola, foi rejeitado e não pôde continuar na sala de aula – a comunidade faz o diretor da escola decidir entre ensinar ele ou todas as outras crianças. O pai, triste, o tira da escola, mas pede ao professor para que ensine seu filho em casa, e ele é então alfabetizado, mas fora do convívio social com outras crianças. No final da discussão, do nada, a professora disse (mais ou menos nessas palavras):

“Queria que vocês refletissem sobre essa história. Gente, precisamos ter tolerância com aqueles que são diferentes! Veja, temos ‘Meninos de Asas’ em todos os lugares. Eles estão na nossa família, no trabalho e até mesmo na nossa escola, entre os nossos amigos.”

Nesse exato trecho, senti, apavorada, que ela ia falar de mim.

 A Rita, por exemplo. Ela é uma menina que não ouve muito bem, então ela é um pouco diferente de nós, que temos a audição perfeita. Ela é uma ‘Menina de Asas’. Ela é muito dedicada e inteligente. E vou dizer, mais inteligente que muitos de vocês aqui. Pra dizer a verdade, ela é a menina mais inteligente que eu conheço. Sem contar que é culta. Já perceberam que ela lê todos os livros da Biblioteca Circulante? Todas as semanas, só ela está disposta a trocar o livro que ela já leu. Eu tive que adquirir outros livros só para ela, já que ninguém aqui se dá ao trabalho de ler um mísero livro.  Vocês se lembram da apresentação que eu pedi a vocês para fazerem? Ninguém a quis no grupo, mas ela foi impecável. Foi a única que tirou a nota máxima. Vocês sabiam que ela sempre tira 9 ou 10 nos ditados, mesmo não ouvindo como vocês ouvem? Como pode? Porque ela é não só inteligente, mas extraordinária. E eu não sei porque vocês fazem de tudo para discriminá-la.

Quando ela falava, sentia todos os olhares fixos em mim. Eu me senti quente por dentro, o meu rosto vermelho, a boca seca. Segurei as lágrimas. Senti meu estômago se revirar; minha cabeça a explodir; meu coração batendo a mil. Suei frio, minhas mãos molhavam e eu as esfregava nas calças. Mas não adiantava, elas continuavam suando.  Fiquei incomodada com tanta angústia. Cheguei em casa passando mal, tamanha a dor de cabeça. Fiquei com muita raiva. Quem tinha dado liberdade a essa professora para falar desse jeito de mim? Para me expor assim, de forma tão explícita? Mas depois reconheci nela o anjo que eu estava precisando, desses meio torto e desengonçado, que não consegue mostrar sua beleza, sua sensibilidade e sua humanidade logo de cara.

Fatos: foi a primeira vez, naquele ano sombrio, que acordei para a minha existência; e o impossível aconteceu. Logo depois dessa aula, todos… mas todos os colegas passaram a me tratar melhor e de forma mais humana! As risadas dissimuladas não cessaram de vez, mas diminuíram. E, assim, foi mais suportável enfrentar o fim daquele ano sombrio. Qual a lição disso? Percebi o meu valor e que é necessário se fazer respeitar, senão a galera monta mesmo.

Um outro anjo se manifestou durante o mestrado… escrevi um artigo que foi aceito em uma conferência nacional. Fiquei muito feliz.  Para minha surpresa, meu orientador me disse: “Eu apresentar? Você fala bem, se expressa bem. Não, eu quero que você apresente”. Parece muito natural para os outros, mas eu sou muito insegura e tenho fobia de falar em público. Apavorada, encarei o desafio. Deu muito certo! Quando voltei ao hotel, chorei de felicidade por ter conseguido enfrentar um demônio muito íntimo… aquele que sempre susurrava em meu espírito: “você não é capaz… você nunca vai conseguir… desista”.

Concluindo: meus anjos, mesmo com pequenos gestos, são aqueles que me conscientizaram sobre o meu poder… Como a vida é bela e vale a pena, tenho um marido que é meu anjo duradouro há muitos anos… juntos geramos dois anjinhos, e estes muito me ajudam a ser uma pessoa melhor!

Gostaria de acrescentar algo mais… também te considero um anjo! Um anjo que deu voz aos nossos sentimentos, que nos uniu através desse blog, que nos dá muitos conselhos (mesmo na forma de “pedala, Robinho!”), ajudando muita gente mundo afora!”

34 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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