Deficiência Auditiva Histórias dos Leitores Implante Coclear

Otosclerose e implante coclear: a história da Nádila

Meu nome é Nádila e me tornei deficiente auditiva aos 27 anos. Não tinha a menor consciência disso. Minha mãe foi a primeira a observar e me induzir a procurar um otorrino, eu não conseguia admitir que estivesse com problema de surdez. Querida Paula, não podia deixar de enviá-la meus agradecimentos pelo quanto seu livro me ajudou a tomar a decisão de fazer o  implante coclear. Minha filha Rafaela conversou com você pelo blog e me presenteou com seu livro ‘’Crônicas da Surdez’’. Hoje estou com 55 anos, e já fiz uso de vários aparelhos auditivos.  Nos últimos dois anos, já não conseguia mais muita ajuda dos AASI, minha surdez piorou tanto que voltei a pensar sobre o IC.

Nem mesmo percebia o volume da TV que sempre alguém reclamava que estava muito alto. Minha mãe, que morava em Volta Redonda – RJ, insistia em dizer que ligava várias vezes para mim e eu não atendia o telefone, sendo que raramente eu saía de casa nesse horário que ela tinha hábito de ligar. Minhas amigas do condomínio viviam dizendo que haviam interfonado ou tocado a campainha e eu não atendia, eu surpresa, pois sempre estava em casa. Com todas essas evidências que era eu que não estava ouvindo, eu nunca conseguia perceber que era isso mesmo. Eu estava ficando surda. Após tanta insistência de minha mãe, marquei uma consulta com um otorrino e fiz uma audiometria pela primeira vez.

Para minha surpresa e espanto, ele diagnosticou que no mínimo há cinco anos eu já estava perdendo audição e que era Otosclerose. Que era uma perda progressiva e que eu já estaria precisando fazer uso do aparelho auditivo. Embora, minha perda fosse nos dois ouvidos, coloquei primeiro no ouvido esquerdo, que era o pior. Fiquei assustadíssima! Aí que  vi o quanto eu estava surda, e quantos sons eu já havia apagado da minha memória auditiva. Foi uma adaptação horrível, tinha vontade de tirar o tempo todo. Mas aos poucos fui me adaptando. Houve muitas otites no início para piorar ainda mais a vontade de não usar. Mas consegui me adaptar bem, a ponto de muitas vezes, já estar embaixo do chuveiro, quando me dava conta que não havia retirado o AASI. Dormi também várias vezes com ele, e assim foi.

Uma coisa digo com toda sinceridade, nunca tive complexo por fazer uso desses ‘’elefantinhos beges’’ (assim eu chamava meus aparelhos auditivos). Tanto que várias vezes cortei meus cabelos super curtos que qualquer cego enxergaria meus dois elefantinhos. Me recordo uma vez minha mãe que não se conformava da minha deficiência, me perguntou: ‘’Você não tem vergonha? Por que você não deixa seus cabelos ficarem longos? Assim não aparece o aparelho’’.  Eu respondi a ela na hora: ‘’Vergonha pra mim é eu não ouvir, não tenho nenhum problema que vejam meus aparelhos’’ 🙂

Era até engraçado, me aceitei bem, minha mãe e outros familiares é que se importavam muito com isso. O que realmente me deixava incomodada, eu adorava ir à praia, ou à piscina do clube, e não conseguia resistir em dar um mergulho, e para isso tinha que tirar os aparelhos. E depois pronto! Passava o resto do tempo me sentindo um fantasma. Pois aí já não mais ouvia nada e nem conversava. Foi indo percebi que estava começando o grande problema. Me excluindo dos programas e das coisas que eu tanto gostava.

Assim os anos passando, novamente percebendo que aqueles dois elefantinhos deveriam estar cansados pois não queriam trabalhar. Novos exames. Os aparelhos já não estavam adequados a perda. Pronto! Haja grana pois sempre foram caros. Troquei de aparelho, anos passando e novamente a mesma história.

Comecei a ficar cada dia mais dependente das pessoas, a ponto de me recusar sair sozinha. Me vi como a personagem do seu livro. Porém, com a leitura do seu livro algo mudou em mim. Passei a recusar a companhia dos meus filhos que sempre me acompanhavam, resolvi assumir publicamente minha deficiência e a me fazer ser respeitada por isso. As pessoas sim, é que teriam que me entender, não foi escolha minha ficar surda e nem culpa. Assim, comecei a ir as consultas médicas e me apresentava logo: ‘’Bom dia! Meu nome é Nádila sou deficiente auditiva, conto por gentileza com sua paciência e compreensão para me atender’’.

Desta forma fui me sentindo mais segura, superei o trauma, o constrangimento e a ansiedade que me abatiam ao me ver sozinha em certas circunstâncias. Tenho uma perda bilateral profunda causada pela otosclerose. Há cinco anos atrás, ouvi falar sobre o implante coclear. Porém ainda conseguia me virar bem com meus aparelhos e ao saber que teria que fazer uso deles mesmo após a cirurgia, me desinteressei. Mas de dois anos para cá, piorou tanto que voltei a pensar no IC novamente. Não havia outra alternativa, era minha única chance.

Bem, com essa frustrante esperança, pensei que se só me resta uma única alternativa, eu teria que tomar coragem. Em 2016, tornei-me vovó, já estava com 53 anos. Comecei pensar: ‘’Quando minha netinha me chamar de vovó, será que vou ouvir’’? Assim, minha filha que adora computador, entrou num blog de pessoas deficientes auditivas e soube tudo a respeito do IC. Inclusive de um livro, cuja autora narrava toda a história dela própria sobre a surdez. Me presenteou com o ‘’Crônicas da Surdez’’, amei o livro, me identificava com tantas coisas.

Fiquei tão encorajada a mudar meu comportamento que já era muito diferente por causa da dificuldade de ouvir. Eu já estava parando de viver essa é a verdade. Já não ia mais a festa nenhuma, viajar que eu amava, não mais me entusiasmava. Até para receber visitas na minha casa eu tentava inventar desculpas para eles não virem, pois já estava torturante tentar acompnanhar os longos papos sem entender quase nada, e muitas vezes dando respostas de causar risadas, pois não tinha nada a ver com que tinham me perguntado.

Tornei-me uma pessoa muito estressada, ansiosa a ponto de começar a fazer uso de anti depressivos às vezes. Com o nascimento da minha neta e a leitura do livro, minha decisão foi tomada, voltei ao otorrino e disse que agora era pra valer. Tomei a tão duvidosa decisão. Pois confesso: tenho pânico de hospital. Até hoje só havia feito duas cesarianas, nunca outra cirurgia. Eu tremia só de pensar quando chegasse o dia. O medo era grande, mas a angústia do silêncio era maior. E a Sophia, minha neta, que já pronunciava ‘’Bobó’’ e isso me emocionava. Então, no dia 17 de Fevereiro de 2018, fiz o implante. Graças a Deus correu tudo bem, porém o pós operatório sofri com muita tontura seguido de vômitos uns três dias sem parar. Foi horrível, perdi dois quilos. Até aí foi bom, estava precisando perder cinco, rsrsrs. Agora aguardo o grande dia da ativação.

Queria muito que soubesse o quanto devo a você pela coragem que passei a ter com a leitura do ‘’Crônicas da Surdez’’, parecia que eu era a personagem dessa história. Só nós sabemos como é totalmente viver no silêncio. Eu amo música foi a coisa que mais me doía, eu não mais poder apreciar,  nem mesmo deixar de falar no telefone me causava tanta falta como ouvir minhas músicas românticas, claro! BeeGees, Carpenters, Bread, BarryWhite, minha preferida ‘’Just The Way You Are’’… Ah! Só na minha mente e cantando no meu inglês errado, rsrsrs. Sophia minha netinha, completou um aninho em 26/02/2017 e fiz uma festa linda para ela pleno carnaval! Contratei um ‘’DJ’’, aquela iluminação colorida, tanta alegria, mas a minha frustração doía: cadê a música?

Por mais que eu quisesse, não consegui entender uma única. Dia 26/02/2018 ela completou dois aninhos; eu estava com uma semana de operada então não fiz nada além de um bolinho. Agora vou pensar como será a festa de três aninhos dela pois estarei ouvindo. Emoção plena. Será a festa dela mais importante para mim! Um grande abraço, obrigada pela coragem e incentivo. Desejo que muitos tenham essa oportunidade que graças a Deus e aos meus queridos familiares eu tive. Beijos, Nádila.’

46 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

4 Comentários

  • Nadila, fiquei feliz com a sua decisão de fazer o IC. Sei o que é conviver com um deficiente auditivo, meu pai era um. Via o quanto ele sofria por não conseguir acompanhar conversas, programas de TV. Acompanhei também a sua dificuldade. Agora com o IC, tenho certeza que que você vai poder desfrutar das delícias de ser avó, de ouvir suas músicas favoritas, de conversar com a família e com os amigos. Amiga, só posso dizer uma coisa: que Deus a abençoe e proteja sempre!!

  • Parabéns por sua coragem, querida Nádila. É muito bom saber que uma leitura tenha te encorajado a uma decisão tão importante e, com certeza, mt difícil . Continuo na torcida por vc. Filho é realmente uma benção e netinha então , presente em dobro, pois veja que por ela vc tomou hj a DECISÃO de sua vida, pelo simples fato de querer ouvir pela primeira vez “VOVÓ “, isso nao tem preço. Percebo em suas palavras que hj é uma mulher livre. Livre de todos os tipos de preconceitos, medos provocados por um deficiência literalmente surda. Muito feliz?? Seja benvinda a uma nova vida repleta de novos “sons”.
    Bj?

  • Nadila.
    Historia de coragem.
    Tenho fé e certeza que em breve conseguirá ouvir nossa neta te chamando.
    Sua felicidade será completa. Deus há de te abençoar.

  • Olá. Tenho te acompanhado na esperanca de novas alternativas para surdez súbita. Acometeu meu filho de 18 anos e ele não aceita usar aparelhos. Tem muita vergonha. Perdeu a audi;áo de um lado.
    Caso tenha postagens sobre este assunto, principalmente de incentivo, muito agradecerei.

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