Aparelhos Auditivos Deficiência Auditiva Destaques Histórias dos Leitores

Mais um relato de otosclerose: a chilena Karina

Meu nome é Karina, tenho 33 anos e me descobri com otosclerose. Vou contar um pouco da minha história, sou chilena, trabalho na indústria de aviação e moro há alguns anos no Brasil. Sou apaixonada por viagens, filmes, passeios e chocolate. 🙂

Trabalho no setor de aviação. Certa vez voltando de viagem senti o ouvido estranho – sabe quando viajamos de avião e fica aquele zumbido? Parecia que a turbina estava no meu ouvido. Até aí normal, mas depois de uma semana o zumbido não tinha passado e comecei a achar estranho e procurei o otorrino do trabalho. Nesse período já comecei a sentir dificuldade para ouvir, era como se estivesse com ouvidos entupidos, mais o zumbido que nunca passava.

O médico me pediu os exames e depois de feitos todos os exames, veio o diagnóstico: “você tem otosclerose e vai precisar usar aparelho auditivo”. Confesso que fiquei chocada de inicio. Fui atrás de uma segunda opinião, um médico indicado pela minha mãe, que nos recebeu com um super sorriso e pediu para refazer os exames. Ele explicou sobre otosclerose e qual seriam minhas alternativas, fui atrás de uma fonoaudióloga, que me ajudou e fez meus aparelhos auditivos.

Falo que são meus ouvidos biônicos! Nesse período, até ter os aparelhinhos prontos, foi um processo de adaptação, pois a perda foi aumentando. É uma perda auditiva severa, comecei a sentir dificuldades nas reuniões de trabalho, sentia dores nos ouvidos, o zumbido continuava lá. Nunca mais tive silêncio e o zumbido é meu fiel companheiro,  mas esse processo de adaptação não foi fácil, ainda mais para quem sempre escutou e agora não conseguia entender o que as pessoas falavam.

Precisava chegar muito perto, vi que isso atrapalhava meu serviço. Usar aparelho auditivo nos primeiros dias foi um choque, a cabeça parecia que ia explodir! Mas foi maravilhoso ouvir barulhos que não escutava mais, como passarinhos vindo florescer meus ouvidos. O aparelho inibe a percepção do zumbido mas não acaba com ele, ele sempre está lá.

Acabei mudando de empresa, para outra na qual fui contratada como PCD e tenho total apoio dos colegas e gestores. Comecei a levar a perda auditiva pro lado engraçado, e rir de mim mesma e das coisas atrapalhadas que a perda provoca.

Nesse período tive Síndrome do Pânico, afinal tudo mexeu muito com meu psicológico. Resolvi procurar ajuda psicológica e psiquiátrica, foi a melhor coisa que já fiz. As coisas estão interligadas, corpo, mente e espírito devem andar juntos; essa ajuda me ajudou a entender muita coisa e aceitar e me divertir com meus aparelhos. Aprendi que posso me desligar quando estão enchendo o saco, a falar mais alto, a falar ‘pode repetir não entendi sou deficiente auditiva‘, a respeitar, a entender e acima de tudo, a viver e pensar que meus problemas não são maiores do que os de ninguém.

Hoje pesquiso muito sobre perda auditiva , e minha vontade no futuro é conseguir ajudar mais pessoas.

Estava em lua de Mel em Miami coisa boa e voltei na semana passada. Nesta foto estou com meu marido e aparece meu aparelhinho amado. 🙂

Já passei por poucas e boas e continuo passando, mas aprendi a rir dessa situação. Não tenho vergonha nenhuma sobre isso. Na empresa em que trabalho todos sabem que tenho perda auditiva e deixo isso bem claro até para a comunicação com meus colegas ser melhor, e todo mundo entende. Às vezes quando vou am alguma reunião eu informo o cliente, pois mesmo com aparelho tem vezes em que o cliente fala um pouco baixinho – aí explico a situação e acabamos sempre nos entendendo. O diálogo e a conversa franca são sempre o melhor caminho!

O que mais me atrapalha é o zumbido, que me deixa muito inquieta. Às vezes esqueço, mas de repente ele vem com força total e tento focar em outras coisas. Em alguns dias é muito chato, o que mais me deixa tranquila é estar perto do mar pois o barulho do mar parece que cancela meu zumbido.

Sou amante de viagens e tenho um canal de viagens no YouTube com meu marido: CheckIn O Seu Próximo Destino. Viajamos bastante e vou sempre vou preparada, levo meu fone para abafar o som, balinhas pra não sentir tanta pressão no ouvido e vamos que vamos.

Com meu marido desde o início do namoro já o alertei sobre minha perda auditiva. Ele é muito compreensivo e é ele quem me acorda de manhã pois tiro o aparelho e não escuto nada. Às vezes esquece que estou sem aparelho auditivo e desanda a falar e eu digo: “Amor, estou sem AASI!” 🙂

As pessoas que estão ao nosso lado têm que nos entender e nós a elas. É uma troca, uma troca de amor. Aprendi muito com a surdez, sou grata a cada dia pelo aprendizado e pela paciência dos que me cercam, faço terapia semanalmente em função da Síndrome do Pânico e tenho ansiedade – sequela de medos e também da perda auditiva.

Um beijo Paula, adoro seu blog e estou no grupo do Crônicas da Surdez no Facebook!

60 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

5 Comentários

  • Olá. Quanto a otosclerose é a cirurgia para implante de prótese, nem tudo são flores, já fiz nos dois ouvidos e uma terceira como revisão, mas cai no universo de 5% que a cirurgia não dá resultado. Pior foi ter o resultado satisfatório durante um ano inteiro e depois, do nada ela deixou de funcionar.

  • A melhor coisa a fazer é operar logo, a cirurgia é super tranquila, anestesia geral, internação um dia só, nas primeiras semanas o som é horrível por causa do tampão de curativos internos, depois de quinze dias vai tudo é o paciente volta a ouvir normalmente, melhor que quem tem audição normal, eu operei de otosclerose e não me arrependo ano que vem vou operar o outro. Há os custos de tudo no particular? é entorno de dez mil reais.

  • Olá Karina no seu caso não tem como fazer cirurgia, pois uma amiga com diagnostico de osteosclerose operou para colocar uma prótese e ficou curada saiu do hospital ouvindo novamente, fez cirurgia com DR. Rogério Hamerschmidt do hospital IPO em Curitiba ele também é médico do meu filho que também teve perda neurosensorial ouvido esquerdo, procure ele minha amiga estava sofrendo por 8 anos porque não se adaptou as aparelhos. Abraços se precisar de informações me mande e-mail.
    Marly Soares. Londrina-PR

  • Olá Karina, vi que us aum aparelho intracanal. Eu uso um externo e achei muito melhor. Cada caso é um caso, mas já experimentou?

Deixe seu comentário