Causos natalinos

Causos natalinos

Vou confessar: a época entre 24/12 e 02/01 é a que menos gosto no ano. Natal, Ano Novo e aquela obrigação de estar feliz e contente, somada às intensas visitas de mil parentes, me desagrada. Enfim, cada um, cada um!


Todo ano acontece algum causo engraçado envolvendo, é claro, surdez. Em 2011 não foi diferente. Uma prima estava no meu quarto, e a irmã dela, que eu não vejo há uns 10 anos, ligou para o seu celular. Nisso, ela me olha e diz: “A fulana quer falar contigo, pega aqui o telefone!“. E eu com aquela cara de pastel murcho “não vai rolar…“. Parentes que você vê uma vez a cada década não têm obrigação nenhuma de ser experts em surdez, né? Mas a situação chega a ser inusitada, pois não lembro quando foi a última vez que isso me aconteceu!

Depois, saímos pra jantar fora. Fui dirigindo, minha mãe do lado, e ela no banco de trás. Aí a prima engatou uma conversa, falando pelos cotovelos. E eu não sabia se dirigia, tentava ler os lábios dela pelo espelhinho, parava o carro ou metia o pé no acelerador pra chegar logo no restaurante e entender o papo. A sorte é que minha mãe, além de dublê de voz (hahaha, a Sô Ramires que inventou essa e adotei pra vida, surdos precisam de dublê de voz pra burlar todo e qualquer 0800 né?) me salva também como intérprete na hora do sufoco. O jeito foi dizer pra prima “fala devagar, não to acompanhando“, e olhar pra mãe com aquela cara de “repete aí please” sempre que o trânsito permitia.

Na noite de Natal, perguntei pro meu tio se ele queria champanhe. A resposta foi “later” (mais tarde, em inglês), e a Didi Mocó aqui entendeu “glitter” (ele me chama de glitter há anos, abafa o caso). E ainda saí falando “bah ele é a única pessoa no mundo que me chama por esse apelido“, e a parentada me olhando com cara de ponto de interrogação. Só me dei por conta quando meu irmão me perguntou “o que significa later em português?“. Aí caiu a ficha: momentinhos Velha da Praça da Alegria acontecem em qualquer língua, e são sempre engraçados, por mais trágicos que pareçam!! :)

Minha tática para essa época de festas é rir e concordar com tudo quando o recinto conta com mais de cinco pessoas falando ao mesmo tempo. Não tem outro jeito!! Ah, e beber muito champanhe pra desestressar, claro.

E vocês? Algum causo natalino engraçado??

Mais notícias sobre a falta de acessibilidade para Surdos Oralizados no Banrisul

Mais notícias sobre a falta de acessibilidade para Surdos Oralizados no Banrisul

A eficiência da equipe que cuida do Twitter do Banrisul é inegável. Todas as vezes em que fiz alguma reclamação, fui prontamente atendida (atendida no sentido de ter alguma resposta, não de ter meu problema resolvido). Porém, a respeito da acessibilidade para surdos oralizados, a coisa anda em slow motion desde setembro de 2011. Minha gerente de conta é ótima: o problema é que o que pode dar errado ou qualquer emergência que aconteça acontece sempre FORA do horário comercial. Aí, você precisa de acessibilidade, e não tem.

Cheguei em casa e minha mãe me disse que alguém do Banrisul Cartões ligou para lá (isso foi um pouco antes do Natal) para falar com ela. Achei invasivo. Quantas mil vezes vou ter que explicar que preciso que me contatem por email? Reclamei no Twitter e recebi, dia 26/12/2011, o seguinte email:

“Prezada Paula,

Informamos que o contato realizado com sua mãe, na semana passada, teve por objetivo esclarecer a situação e explicar o funcionamento do nosso sistema de prevenção, além de informar que em breve lançaremos o cartão de crédito com chip. Futuramente, sempre que possível, passaremos a nos comunicar com você por email, conforme sua solicitação.

NOTA MINHA: Esclarecer a situação para a minha mãe’? Com todo o respeito pela boa vontade de quem ligou, mas era só o que me faltava. É comigo que vocês têm que falar. Coloquem nas minhas informações de uma vez por todas que eu NÃO quero que contatem ninguém da minha família pelo telefone, que sou deficiente auditiva,  adicionem meu email institucional (afinal sou servidora da Secretaria da Fazenda do RS há 10 anos!!!) e chega de lenga lenga. Enviar um email é coisa de 5 minutos. Se quiserem achar que isso é normal, pensem o seguinte: é o mesmo que o banco não ter elevador na entrada, chegar um cadeirante que não vai conseguir entrar, e o funcionário dizer para ele “Nós vamos ligar para a sua mãe e resolver o problema!”. No fim das contas é fácil bater papo com uma terceira pessoa que não tem nada a ver com a história e dar o problema por ‘resolvido’. Porém, minha mãe só me quebra o galho de ser minha dublê de voz quando preciso de algo porque o Banrisul me obriga a isso por falta de alternativa. Vocês realmente acham que é prazeroso ter que pedir esse tipo de favor?? Não, não é. Me sinto uma idiota todas as vezes.

Como já lhe informamos anteriormente, o Banco disponibiliza canal para atendimento a deficientes auditivos e de fala, e já está em projeto de implementação o Chat na Central de Atendimento para atendimento dos clientes portadores de cartões de crédito Banrisul Visa e MasterCard.

NOTA MINHA: Como já informei a vocês anteriormente, esse canal é uma inutilidade, não só no Banrisul, mas em qualquer banco. Para ser atendido ‘especialmente’ no canal, a pessoa precisa ter em casa um telefone especial TDD, que além de caro, é uma geringonça inútil. Façam uma pesquisa e descubram se um único cliente do banco que não escuta tem isso em casa! Vão descobrir que nenhum tem. E condicionar pessoas que não escutam a um 0800 não dá né gente??

Existe um grupo de estudo no Banco que continua pensando em melhores maneiras de atender a todos os clientes. Já há um projeto que aumenta a acessibilidade nos equipamentos de autoatendimento, o qual se encontra em fase de implementação. Em breve o Banrisul disponibilizará nos equipamentos de autoatendimento, além do bloqueio dos cartões, o bloqueio de conta corrente e talão de cheques.

NOTA MINHA: Vocês já pensaram em conversar com quem realmente precisa dessas mudanças antes de implementá-las? Se não fizerem isso, vão deixar muitas coisas importantes de lado e esquecerão outras tantas. As pessoas viajam (e não tem caixa eletrônico do Banrisul fora da região Sul do país) e viajam para o exterior, ou seja, de nada adianta aumentar a acessibilidade nos caixas eletrônicos e deixarem o internet banking do jeito que está, completamente subaproveitado. Eu quero poder desbloquear meus cartões pelo internet banking, informar viagens ao exterior através do internet banking. Somente bloqueios em caixas eletrônicos não vão resolver nem um décimo do problema.  Por mais boa vontade que um grupo de estudos de acessibilidade tenha, nada ele vai resolver se as pessoas que possuem alguma deficiência não forem ouvidas. Implementar medidas à revelia de quem efetivamente entende do assunto não me parece nem um pouco útil.

Disponibilizamos abaixo, especialmente para você, os contatos da coordenadora do grupo de acessibilidade do Banrisul, para que você possa contatá-la diretamente para futuras sugestões.”

NOTA MINHA: Eu entrei em contato, mas estou até hoje esperando um retorno. No dia 21/12 recebi um email da pessoa responsável dizendo que gostaria muito de falar comigo e que poderíamos desenvolver uma bela parceria. Espero que isso aconteça essa semana ainda, pois eu e todos os clientes do Banrisul que não escutam não temos mais 10 anos para esperar pela boa vontade desta instituição bancária.

Isso evidencia os micos que as pessoas que não escutam no telefone (ou até escutam mas não entendem o que é dito por não poderem fazer leitura labial) precisam passar desde sempre quando se trata da sua vida financeira.

Eu mesma já passei pela situação horrorosa de estar no exterior, precisar acionar o meu seguro-viagem do Banrisul Mastercard e…ter que ligar pra um 0800. Só não passei o maior perrengue da minha vida porque, graças a Deus, uma amiga estava viajando comigo e telefonou pra mim. Só que ela precisou sei lá de quantas ligações até convencer uma boa alma de que não era golpe, ela só estava tentando ajudar uma amiga que não escutava no telefone. Tenho calafrios só de pensar no que teria acontecido se eu estivesse sozinha. Foi horrível.

Imagine estar sozinho no exterior e, do nada, a operadora cancela o seu cartão (o Banrisul fez isso comigo dias atrás, cancelando meu Visa vários dias depois de eu ter feito uma compra num site americano, sem mais nem menos – alegaram que estavam me protegendo do cartão ser clonado, oi?). E aí, o que você faz?? Já pensou que lindo ter que pedir pra um estrangeiro fingir que é você e ligar pro 0800? As chances dele conseguir a atenção da atendente são…nulas!!! Mas imagine se fosse o único cartão que você tem na viagem. Aí, ou você corre desesperado pra Embaixada mais próxima, ou passa fome e ferra a sua viagem inteira. Só porque os bancos e operadoras de cartão de crédito não se prestam para colocar um atendimento 24 horas no site através de chat. Legal né?? Em tempo: esse cartão que eles cancelaram, vai chegar o cartão novo. Pela centésima vez, vou ter que pedir pra minha mãe ligar pro 0800 pra desbloquear, porque o Banrisul sequer tem a opção de desbloqueio de cartão de crédito através do internet banking. Na próxima semana, viajo para o exterior. Pela enésima vez, vou ter que pedir para a minha mãe avisar da viagem para não correr o risco de ter o cartão bloqueado ao fazer um saque em outro país. Sendo que o banco poderia ter a opção de avisar através do internet banking, PELO AMOR DE DEUS. É um fiasco.

Os bancos não precisam comprar tecnologia de ninguém para dar acessibilidade a quem não escuta: basta treinar uma equipe que vai fazer o atendimento através de um chat disponível no site do banco (acessibilidade é isso, tem que ser acessível em qualquer lugar do mundo em que o cliente estiver e em qualquer horário) e disponibilizar uma infinidade de serviços através do internet banking. Facilitariam muito a nossa vida se nos deixassem cadastrar uma ou duas pessoas de confiança para resolver algo por telefone em casos de urgência, sem que a pessoa precise ficar fingindo ser uma pessoa que ela não é.

E fica a pergunta: porque todo gerente de banco é viciado em telefone? Quantas mil vezes não fomos até uma agência de banco e tivemos que esperar um tempão pois enquanto nos atendia, o gerente também atendia mil telefonemas ao mesmo tempo?? Seria tão mais ágil e mais útil se utilizassem email com o mesmo fervor com que utilizam o telefone. Né?

Abaixo vou transcrever alguns emails que já recebi desde 09/2011.

Email recebido do Banrisul em 16/12/2011:

“Paula, primeiramente pedimos desculpas pelo atendimento insatisfatório. A unidade responsável já pediu as gravações da ligação para tomar medidas cabíveis.

O Banco disponibiliza canal para atendimento a deficientes auditivos e de fala, e já está em projeto de implementação de Chat na Central de Atendimento para atendimento dos clientes portadores de cartões de crédito Banrisul Visa e MasterCard.

O contato efetuado pela Central de Atendimento ocorreu para proteção e segurança da cliente, lamentamos que isto tenha causado tanto transtorno. Quanto à outras solicitações em relação à acessibilidade, como já tínhamos informado, existe um grupo de estudo no Banco que continua pensando em melhores maneiras de atender a todos os clientes.

Já existe um projeto que aumenta a acessibilidade nos equipamentos de autoatendimento o qual se encontra em fase de implementação. Em breve o Banrisul estará disponibilizando a possibilidade de, não só bloqueio dos cartões nos equipamentos de autoatendimento, mas também o bloqueio de conta corrente e talão de cheques.

Anunciamos, também, que a implementação de chip nos cartões de crédito do Banco já está em fase de finalização.

Esperamos ter outras boas notícias em breve!”

Email recebido em 13/09/2011, quando fiz a primeira reclamação sobre a falta de acessibilidade para surdos oralizados no Banrisul:

“Prezada Paula,

Ao cumprimentá-la cordialmente, informamos que estamos constituindo um grupo para avaliação de serviços alternativos que possam ser desenvolvidos e o link foi repassado para as áreas envolvidas. Na sequencia do trabalho, nosso objetivo é avaliar a proposta com vocês.

Email recebido em 16/09/2011:

“Prezada Paula,

A abertura e atualização de cadastro são feitas na agência e outras medidas estão em avaliação. A medida anunciada também abrange os titulares que atualmente não possuem indicação no cadastro.

Atenciosamente,

Assessoria de Imprensa do Banrisul – Twitter”

Por último e muito importante…

Acessibilidade NÃO É FAVOR!

Entrevista com uma expert em Closed Caption

Entrevista com uma expert em Closed Caption

Esses dias, nos meus desabafos no Twitter (sigam @CronicaSurdez) sobre a vergonhosa falta de legendas/closed caption na programação da RBS (logo vem post sobre isso), recebi um mention de uma leitora do blog que era ninguém menos que uma EXPERT em Closed Caption. Meu coração deu pulinhos de alegria! Sempre quis fazer várias perguntas a quem realmente entendesse do assunto e, por intervenção divina, finalmente consegui. :)

Conheçam a Kathleen Miozzo. Só pra vocês ficarem ainda mais fãs dela (e mais ávidos por closed caption), o assunto do TCC da moça na faculdade de Letras é sobre as influência do Closed Caption nas habilidades linguísticas das crianças portadoras de deficiência auditiva.

1. Fale um pouco sobre você!

Faço faculdade de Letras, estou no quinto período, Habilitação Inglês – Português, tenho 22 anos, trabalho como Assistente de Controle de Qualidade na Drei Marc, nasci e moro no Rio de Janeiro.

2. Como você começou a trabalhar com closed caption?

Tudo começou quando consegui um estágio de captioner (pessoa que transcreve, ajusta e padroniza o Closed Caption) em uma produtora de vídeos. Passei 7 meses lá, todo dia fazia Closed Caption de cerca de 3 desenhos, ou seja, por semana, mais de 10. Com isso fui pegando a prática e conhecendo mais desse mercado que me era estranho até então. Depois que sai do estágio, comecei a trabalhar na Drei Marc, onde atuo como Assistente de CQ, onde faço o controle de qualidade de legendas e closed captions para programas de, filmes e desenhos. Porém, ultimamente tenho me dedicado mais ao CC, atuando também como copidesque (revisora). E além de tudo ainda decidi fazer meu TCC sobre as influência do CC nas habilidades linguísticas das crianças portadoras de deficiência auditiva. Então, estou mais que imersa em Closed Caption.

3. Explica pra gente como funciona, em linhas gerais, o trabalho de colocar legendas em programas de TV, filmes, etc?

Há métodos como o ao vivo (feito por um estenotipista através de um estenótipo eletrônico), ele é treinado para digitar rapidamente com o uso de um teclado especial, com a representação de letras e grupos de fonemas. Ele registra o que é dito, ao vivo, no momento em que o programa é transmitido. E muitas vezes, mesmo quando o programa já foi gravado, a inserção se dá ao vivo. Também existe um software, método mais caro e novo. Ele interpreta vozes e produz o texto das legendas. A voz não vem direto do programa, ela é transmitida a uma pessoa que repete o que é dito para o computador. O software não é 100% garantido e pode causar algumas confusões. A pessoa que fica responsável por vocalizar para o computador também acrescenta via teclado informações sobre outros sons do ambiente. Depois disso que a legenda é liberada para aparecer na tela. Este software pode ser muito complicado (imagina quando houver um vozerio ou diálogo muito rápido). E por fim, há o método usado onde trabalho, mas que só é possível em programas já gravados. Mas também é o mais preciso. Tudo começa pela transcrição, o captioner pega o vídeo em questão, e com ou sem o auxílio de um script, começa a transcrição, padronização (uso de códigos de posicionamento, italização, música), depois o processo de marcar tempos de entrada e saída de cada legenda. E então, depois disso, e de serem revisados padrões gramaticais, estilo e redação, o arquivo é liberado para inserção, o que pode ser feito na produtora, ou pelo próprio cliente.

4. Custa caro para as emissoras colocar CC nos programas?

Sim. As emissoras têm um elevado custo para disponibilizar o recurso. São custos referentes ao processo de produção e também exibição do Closesd Captions. Profissionais, mídias, controles, tráfego de material, tráfego de sinal, enfim, uma série de providências que os exibidores precisam tomar para tornar o recurso disponível. O Closed Captions se tornou obrigatório no Brasil para as empresas de Radiodifusão em 2006, a partir da Publicação da Portaria 310 no DOU pelo então Ministro das Telecomunicações Hélio Costa. Cabe salientar que a Lei se restringe às empresas de Radiodifusão, excetuando assim o Mercado de TV por Assinatura da obrigatoriedade de disponibilizar o recurso para o assinante do serviço de TV Paga (informação cedida pelo Diretor de Marketing da empresa em que trabalho, Marcelo Camargo).

5. Por quais motivos você acha que muitas emissoras só vão colocar legendas em 100% da programação quando isso for obrigatório?

Eu acho que isso vai ocorrer pelo simples fato de muitas emissoras não acharem que o custo “vale a pena”. O mercado de CC no Brasil é fraco ainda, e sempre com aquela imagem de que é algo mal feito, cheios de erros de português. A obrigatoriedade vai ser a única forma de criar uma noção de que o CC é vital, nem que seja isso feito por meio de uma lei que puna quem não cumprir. Mas posso falar, pelo menos baseada no meu trabalho, cada dia mais temos recebido serviços de CC para emissoras abertas, o que mostra um crescimento nessa noção.

6. As emissoras têm noção da importância das legendas? Costumo dizer que programa da TV sem legenda está no mesmo nível que calçada sem rampa, acho uma vergonha, um descaso.

Eu acho que existe uma noção, mas como eu disse, é um mercado meio recente, no Brasil. Não há, por exemplo, cursos especializados em CC, o que torna fraca a capacitação dos profissionais, tornando a produção mais passível de erros e baixa qualidade. O deficiente auditivo ainda é visto como grupo de minoria na gama de telespectadores, porém acho que o que deve ser feito é cada vez mais os deficientes auditivos cobrarem das emissoras o CC em programas, pois só assim as emissoras terão a dimensão exata deste mercado e vão ver que ele carece de investimento.

7. Porque alguns canais têm ótimos ‘sistemas’ de legendas (como TV Senado) e outros são péssimos? As vezes temos a sensação de que a pessoa que está colocando legendas ao vivo em determinados programas não tem nem o primeiro grau completo, tantos são os erros horríveis de português.

Alguns canais fazem o CC internamente, muitas vezes ao vivo, o que cria algo parecido com a tradução simultânea, sabe? Onde tenta-se advinhar o que será dito, já outros fazem o CC em empresas como a que trabalho, e o arquivo passa por várias revisões e isso resulta numa qualidade superior. Já no caso da TV Senado, acho que por seu caráter oficial há um controle maior, né?

8. Porque, numa novela por exemplo, quando um personagem fala um palavrão, os ouvintes escutam esse palavrão, mas o mesmo é censurado nas legendas? 

Esse é o caso que eu mais me irrito no CC. Muitos captioners acham que podem omitir informações, por questão de tempo de leitura, ou até mesmo para adaptar o CC ao padrão estabelecido pelo cliente (há canais que não querem palavrões em legendas e CCs). Para você ter uma ideia, ouvi uma vez, “Não precisa escrever tudo, eles não ouvem mesmo.” Isso é absurdo e prejudica a qualidade do serviço prestado, pois, dessa forma o serviço é feito pela metade.

9. Quais são as principais diferenças (em termos de emissoras, acessibilidade, rapidez, etc) entre o CC do Brasil e de países como os EUA?

No Brasil, o CC é transmitido por apenas um canal CC 1, em português, e, em raros casos, em inglês. Nos Estados Unidos é transmitido em inglês no CC 1, e espanhol no CC 2 ou 3, o inverso ocorre nos canais em espanhol. Nos EUA o FCC controla isso e há muito mais direcionamento e informação. O Brasil ainda engatinha, mas aos poucos vamos melhorando.

10. Já que você trabalha com closed caption, comenta como você vê a importância dessa ferramenta – não só para surdos, mas para toda a população brasileira.

O Closed Caption não pode ser visto como ferramenta única e exclusivamente para deficientes auditivos. Por exemplo, já fui a restaurantes que deixam a televisão sem volume, mas com o Closed Caption ligado, ou seja, a não ser que seja um dos restaurantes mais segregadores do mundo e que só aceite clientes com deficiência auditiva, pessoas não portadoras de deficiência estarão fazendo uso da ferramenta. Claro, os deficientes auditivos não só são público-alvo, como também o gatilho para o desenvolvimento da ferramenta, que a meu ver, se desenvolvida da forma correta, visa não apenas auxiliar no entendimento, mas também incluir, informar, atualizar e até mesmo educar o portador de deficiência auditiva, pois, como alguns trabalhos provam (e meu futuro TCC falará sobre isso também) muitas crianças portadoras de deficiência auditiva parcial aprendem a ler com o auxílio do CC, dali vem o vocabulário delas. E por isso mesmo não podemos ser levianos com o que é escrito, deve sim haver uma qualidade a ser exigida e um controle a ser feito.

11. De que maneiras você acha que os surdos oralizados podem pressionar emissoras que não têm CC na programação para que elas providenciem essa ferramenta?

Acho que a única forma de pressionar, com sucesso, é continuar exigindo, cobrando, falar sobre o assunto. Closed Caption muitas vezes é visto como um bicho-de-sete-cabeças, mas na verdade é simples, falta conhecimento, divulgação, entendimento. Por exemplo, não há cursos sobre Closed Caption, enquanto há vários sobre Legendagem, falta interesse no mercado, mas por falta de divulgação. Se o “consumidor” exigir mais, tenho certeza de que as emissoras começarão a se esforçar para mudar o quadro atual.

Relato da falta de acessibilidade para surdos oralizados no Banrisul

Ontem lá pelas 19:30 ligaram para a minha casa. Passei o telefone tocando para o meu irmão e pedi para ele atender. Ele atendeu, e era alguém do Visa Banrisul querendo falar comigo. Meu irmão explicou que eu não escutava no telefone e eles não deram a mínima, ou seja, não quiseram papo. Deixaram um recado que eu deveria ir com urgência numa agência do Banrisul e falaram que não poderiam informar nada ao meu irmão. O detalhe é que eu estava ao lado falando “Sou a Paula, não escuto direito no telefone, podem passar o recado pra ele!”.

Aí me apavorei. Comprei uma cadeira pela internet usando o meu Banrisul Visa dois dias atrás. Só conseguia (e consigo, pois ainda não sei do que se trata) pensar que clonaram meu cartão.

O negócio é que o Banrisul se comprometeu publicamente, no Twitter, e em emails enviados a mim, a resolver o problema de FALTA DE ACESSIBILIDADE PARA SURDOS ORALIZADOS. Disseram que haviam criado um grupo para analisar o caso e que medidas estariam sendo tomadas muito rapidamente.

Nessas horas a gente vê como essa falta de acessibilidade é grave. Eu estava sozinha em casa com o meu irmão – como é que eu faria um homem se passar por mim ao telefone? Impossível. O Banrisul não tem nenhum canal de atendimento a não ser o telefone. Mesmo que eles tenham “0800 especial para deficientes auditivos e da fala”, eu não tenho em casa aquela geringonça pré-histórica do telefone TDD (e acessibilidade que te obriga a comprar uma coisa cara não é acessibilidade).

No desespero, conectei meus AASI ao MiniTek e resolvi tentar ligar pro 0800. As gravações são fáceis de entender pois a voz da pessoa que fala é claríssima e bem alta. Porém, quando chegou o momento de falar com a atendente, de cara já expliquei “não escuto direito e posso te pedir pra repetir o que tu falar algumas vezes“. Disse que haviam me ligado, ela me colocou na espera, depois me passou pra outra atendente que, no meu terceiro pedido para que repetisse o que falava (falava rápido demais e eu não conseguia entender de jeito nenhum) simplesmente bateu o telefone na minha cara.

O internet banking do Banrisul só me dizia que não era possível ter informações sobre o meu cartão, e não há nenhuma opção lá que te ajude a resolver qualquer tipo de problema. Aliás, pensando agora, o internet banking desse banco é MUITO RUIM comparado a outros bancos.

O patético dessa situação é que, se o banco (e todo e qualquer banco e operadora de cartão de crédito) tivessem um chat 24hs por dia para surdos oralizados, o problema seria resolvido em 5 minutos. É muita sacanagem e falta de respeito fazer um cliente como eu (que recebo salário através desse banco e sou cliente há uma década) passar por isso. Como eu já disse num post anterior, parem de achar que situações complicadas só acontecem com surdos oralizados em horário comercial.

A minha vontade é pegar um advogado e entrar com um processo, afinal, o banco já foi notificado dessa palhaçada meses atrás e não só por mim, mas por vários outros clientes que também são surdos oralizados. Porém, essa semana recebi uma notificação do Ministério Público Federal a respeito de um ofício que enviei a eles soliticando ACESSIBILIDADE PARA SURDOS ORALIZADOS EM BANCOS E OPERADORAS DE CARTÃO DE CRÉDITO. O Procurador me deu 20 dias para informar todas as medidas que considero necessárias para que surdos oralizados tenham acessibilidade nesse sentido. E aí vou poder relatar esse caso, que ilustra tão bem o quanto somos tratados como lixo e feito de palhaços só porque os bancos não estão a fim de disponibilizar um canal de atendimento diferenciado: um chat 24hs no site.

Obrigar uma pessoa que não escuta ou escuta mal a ficar de refém de um 0800 é um crime. Digo e repito: está no mesmo nível de calçada sem rampa, de gente que estaciona em vagas reservadas para cadeirantes. É um fiasco, uma falta total de consideração e respeito, e eu não vou ficar parada de braços cruzados perante uma injustiça dessas.

Que mundo é esse que você não tem independência e autonomia pra resolver algum imprevisto financeiro que acontece fora do horário comercial só porque os bancos não estão a fim de gastar dinheiro?? Parem de gastar $$$ em propagandas enganosas e dêem um jeito nisso.

Em tempo: são 09:00hs agora, e preciso esperar até as 10:00hs pra ir até uma agência do Banrisul e descobrir qual é o problema. É brabo hein?? Tô desde as 19:30hs de ontem tentando adivinhar se clonaram meu cartão. Ainda bem que não sou cardíaca.

BANRISUL: todo o meu desprezo pela falta de acessibilidade de vocês.

E se alguém leu isso e pensou “Ah, que frescura“, se coloque no meu lugar por cinco minutinhos e analise criticamente.

Empresa especializada em vagas para pessoas com deficiência

Empresa especializada em vagas para pessoas com deficiência

“De acordo com a pesquisa “Pessoas com Deficiência: expectativas e percepções sobre o mercado de trabalho”, 84% dos funcionários com deficiência costumam ser contratados para trabalharem em cargos administrativos nas empresas brasileiras. Contudo, nem todos costumam ser favorecidos com boas oportunidades.

Esse é o principal gargalo do setor: a baixa qualidade das vagas oferecidas para as pessoas com deficiência. São vagas de base, operacionais. É quase impossível encontrar uma oportunidade de gerente ou coordenador, por exemplo”, diz o sócio-diretor da i.Social, Jaques Haber.

Para se ter uma ideia, segundo a avaliação, apenas 9% dos cargos disponibilizados pelas companhias costumam ser gerenciais. “Tal fato demonstra que as companhias estão apenas preocupadas com as cotas impostas pelo governo, se empenhando muito pouco para oferecer verdadeiros planos de carreira aos seus contratados”, conclui.”

Fonte: Infomoney

Buenas, nós estamos mais do que carecas de saber disso. Enquanto as empresas continuarem somente cumprindo cotas e usando a desculpa esfarrapada de que portadores de deficiência não possuem qualificação e formação (mentira das grandes), é assim que vai ser. Penso que, talvez, as empresas de RH devam começar a mudar essa cultura, pois eles têm poder para isso.

Para quem está atrás de emprego, fica a dica: o site da Plura, que é focada em colocar PCD’s no mercado de trabalho.

Atitudes que magoam uma pessoa com deficiência auditiva

Atitudes que magoam uma pessoa com deficiência auditiva

Pensando em atitudes alheias que magoam uma pessoa que tem deficiência auditiva, várias me ocorreram. Porém, como tudo na vida, dói mais quando vem das pessoas que gostamos. Não é verdade? Quando um estranho tem uma atitude dessas, a gente nem dá bola, afinal, não vale o gasto de energia. Mas quando alguém próximo nos magoa (mesmo sem intenção), chega a parecer traição. E das graves!

Duas coisas me tiram do sério – por 5 minutos, mas tiram. Primeiro, quero estrangular a pessoa, depois, esqueço. Mas meu sangue ferve, porque sou humana, né?

PRIMEIRA: Quando alguém que você adora (pode ser mãe, irmão, amigo, namorado, filho, marido, etc) age como um idiota completo que nada sabe sobre surdez apesar dos longos anos de convivência com você e solta a maldita frase:

- Mas você não está de aparelho???

Aaaargh!! Pra completar, só se a pessoa em questão dá aquela olhadinha para as suas orelhas pra confirmar a suspeita. Meu Deus!! Me considero uma pessoa sensata e calma na medida do possível mas, quando isso acontece, minha reação primitiva é a de querer tirar meus AASI e fazer a pessoa engolir. E a triste verdade é que isso acontece MUITO. Acho que a gente se acostuma a a abafar o caso e não surtar quando se trata de familiares e pessoas próximas. Com eles, temos 1.000x mais paciência do que com estranhos. O trágico é que eles deveriam ter 1.000x mais paciência e respeito conosco do que efetivamente têm.

SEGUNDA: Quando estou numa conversa com alguém próximo ou, outra opção, quando estou distraída e a pessoa fala algo que não entendo. A questão é não entender o que foi dito. Aí, a(o) bendita(o) solta a pérola:

- Deixa. Esquece. Não é nada. Não importa.

Jesus!! A reação primitiva é sentir vontade de pegar o interlocutor pelos cabelos como faziam na Idade da Pedra e arrastá-lo pelo chão dizendo “importa siiiiiiiiiimmmm!”.

Do fundo do coração, não acho que eles façam isso de propósito, com a intenção de nos deixar mal, de magoar, de ferir. Mas é tremendamente irritante a desatenção de quem mais convive conosco para coisas básicas. De quantos anos a família, os amigos, os colegas, etc precisam pra entender de uma vez por todas que estar de aparelho auditivo não é garantia de que vamos entender tudo o que é dito e que é horrível quando não entendemos e eles não querem repetir??

E vocês? Que tipo de atitude das pessoas próximas os magoa pra valer??

Hearing loop nos supermercados de Londres

Durante a minha Eurotrip esse ano, vi vários lugares diferentes da Europa com hearing loop. Quando fui comprar meu ingresso pro topo da Torre Eiffel, o caixa tinha o adesivo que indica que ele está a disposição, e comecei a tirar fotos – aí ele me mandou parar e ameaçou chamar o segurança, rsrsrs. Essa semana um grande amigo meu que mora em Londres – o Francisco Rocha, que escreve o Pensati e o @MktControl – me mandou umas fotos do hearing loop nos supermercados londrinos.

Ontem eu estava investigando o que é preciso para tirar um visto americano, e encontrei um site que dizia que a entrevista é feita através de um vidro à prova de balas, e que o entrevistador fala num microfone e você ouve do outro lado. Será que eles têm hearing loop?? De qualquer forma, o AASI que eu uso (Motion 700 da Siemens) não tem a chave “T”. Mas a função ouvir sem ruído, trancando todo e qualquer barulho e ouvindo apenas o que me interessa (um filme, uma música, um programa de TV) consigo através do Tek/MiniTek. Sonho com o dia em que essa função vai existir para voz, para aqueles momentos em que estamos num restaurante/show/balada tontos com tanto barulho e querendo entender o que uma pessoa fala e não conseguindo. Já pensou? Estar numa mesa de restaurante com um grupo de amigos e ouvir somente o que eles estão dizenho?? Que sonho!!!!

Para quem não sabe o que é o hearing loop, a Lak Lobato ensina bem direitinho. Clique aqui para ler lá no Desculpe, não ouvi! :)

PS: vou fazer em breve um test drive do AASI Pure Carat, e ele tem a chave “T” disponível – mesmo que o hearing loop seja pouco comum no Brasil, é ótimo poder fazer uso dessa tecnologia em viagens para o exterior!

Nova ferramenta para reabilitação auditiva: eArena

Nova ferramenta para reabilitação auditiva: eArena

“A comunicação vai muito além da audição! E sabendo que reabilitação auditiva é muito mais que somente o uso da amplificação, a Siemens traz para o Brasil o programa de treinamento eARena.

Trata-se de um Programa de Treinamento Auditivo computadorizado, que engloba sessões de aconselhamento e exercícios dirigidos, podendo ser realizado em casa de maneira fácil e rápida, por meio de um computador. O programa gera relatórios de uso e evolução nas tarefas realizadas, que podem ser analisadas e discutidas juntamente com seu fonoaudiólogo.

Pesquisas mostram que para o sucesso na comunicação, são necessárias outras habilidades além da capacidade de detectar os estímulos sonoros. Não podemos considerar a audição como um sentido no qual os sons do meio ambiente são captados passivamente pela orelha, mas sim como um comportamento que exige um processamento refinado e complexo.

Assim, fica clara a necessidade de complementar o processo de adaptação das próteses auditivas com orientações e recursos que auxiliem o indivíduo na retomada da escuta consciente, facilitando as funções de discriminação, reconhecimento e compreensão da fala.

O processamento auditivo central envolve também mecanismos cognitivos na tarefa de processar os sinais acústicos. Sendo assim, a intervenção é baseada não só em exercícios de treinamento auditivo, mas também em exercícios de atenção e memória, fundamentais para a efetividade da comunicação.

Sua efetividade e eficácia foi verificada em estudo clínico randomizado de realizado na Alemanha, mostrando benefícios especialmente na adaptação de novos usuários de AASI.”

Fonte: Fga. Mariana Cardoso Guedes
Mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP
Especialização em Audiologia pela Santa Casa de São Paulo
Docente do Curso de Medicina do Centro Universitário São Camilo
Diretora do Centro de Estudos e Reabilitação em Fonoaudiologia – CER

** O eArena é disponibilizado gratuitamente na compra de algumas linhas de aparelhos auditivos Siemens.

*** Quem não for usuário de aparelhos auditivos Siemens e tiver interesse no eArena, basta entrar em contato com a revenda da sua região – para descobrir onde fica a revenda mais próxima, clique aqui.

O CD do eArena tem um filme sobre perda auditiva e um treinamento auditivo com duração de até 20 dias. Os exercícios duram 30 minutos e são bem agradáveis – não fiquei estressada em nenhum deles. Qual o objetivo? Melhor a habilidade auditiva de quem é usuário de AASI. Eu estou fazendo os meus exercícios e gostando – mas sofro no exercício que me pede pra identificar de que lado vem o som de uma orquestra, rsrsrsrs.

O mais legal é que não importa a idade da pessoa (do mais jovem ao mais idoso), qualquer um é 100% capaz de mexer no programa e fazer os exercícios sozinho. Eu já deveria ter terminado os meus, mas coloquei o CD no notebook e às vezes esqueço e, quando vi, já passou uma semana. Que feio!! Hoje vou retomar com o maior gás. :)

DJ’s devem cuidar da sua audição

DJ’s devem cuidar da sua audição

Vocês já ouviram falar do filme “It’s All Gone Pete Tong” (no Brasil, Ritmo Acelerado)? Ele conta a história da vida de um DJ muito famoso, Frankie Wilde, que ficou surdo. O filme tem depoimentos de nomes como Carl Cox, Tiesto, Paul Van Dyk, entre outros DJ’s conhecidíssimos no mundo inteiro.

 

E porque isso aconteceu?? Porque o bonitinho não foi nem um pouco cuidadoso com a sua saúde auditiva!! Quem trabalha com música e fica exposto a volumes ensurdecedores tem obrigação de tomar cuidado, afinal, está usando a audição para ganhar a vida. Dizem que ele também se entupia de drogas, mas isso são outros quinhentos.

Quando vejo um DJ trabalhando sem usar qualquer tipo de proteção tenho calafrios. Que coragem!!!  Dá vontade de cutucar e perguntar: “Você tem noção do que está fazendo? Depois, não reclama!”. Sabe como é, quando a gente não escuta direito fica alerta e tenta mostrar a quem está colocando um sentido no lixo, tipo, não faça isso pelo amor de Deus!!

Quem é que não conhece um DJ? Se você por acaso conhece, dê um toque. Pergunte se ele tem zumbido (sintoma de perda auditiva ou de início de perda auditiva), se protege a audição enquanto trabalha, enfim, mostre o risco que ele/ela está correndo e que é extremamente simples evitar a perda auditiva. Não custa, né?

 

Dei uma pesquisada e descobri que existem protetores com filtro: o DJ pode escolher o nível de atenuação entre 9, 15 e 25 dB. Ele se protege e ainda assim consegue ouvir os sons que precisa para poder trabalhar.

Maiores informações no site da Audicare, que é a representante no Brasil dos produtos da Westone. Neste link há informações mais detalhadas.

Aparelhos auditivos e… academias de ginástica!

Aparelhos auditivos e… academias de ginástica!

Esse post foi sugestão da Greize – leitora antiga e super fiel do Crônicas! :)

Já paguei alguns micos em academias de ginástica, com certeza. Uma vez, fiz a louca e fui de iPod, sem aparelhos auditivos. Tasquei o volume no máximo e fiquei ouvindo a seleção de música mais brega de todos os tempos – músicas-tema dos filmes Titanic e The Bodyguard incluídas, sintam o drama!! As mulheres que estavam nas esteiras ao lado da minha me olhavam com cara de noooojo, e nem por um minuto passou pela minha cabeça de vento que eu estava atrapalhando a vida alheia, já que elas estavam ouvindo junto as músicas de tão alto que estava o som. A verdade é que nunca pensei que um iPod no máximo pudesse irritar alguém, e só fui descobrir isso no dia em que coloquei os fones dentro do carro, com a minha mãe junto. No mesmo minuto ela me deu um cutucão e falou “Que horror, abaixa isso, até o pessoal lá da esquina tá ouvindo!“. Me arrepio só de pensar na quantidade de vezes que fui de ônibus a Porto Alegre (4 horas de viagem) fazendo a mesmíssima coisa. Até hoje me pergunto como é que os passageiros nunca me encheram de desaforo – prova de que o povo gaúcho é muito educado, ehehehehe.

Quando vou de iPod e Tek/MiniTek, pago mico de um jeito mais light. Ponho eles no bolso e fico ouvindo música direto nos AASI, ou seja, sem fio. Devo ser a única ou uma das únicas pessoas da minha cidade que tem essa dupla, ou seja, não é algo comum de se ver por estas bandas. E aí, o que é que acontece? Simples!! Uma sala inteira de gente espantada querendo saber porque é que a doida (eu) fica cantarolando, meio dançando e mexendo a cabeça e fazendo mil caretas se não há nenhum fio visível que indique que estou ouvindo música. As caras que o povo faz são no melhor estilo “quem soltou essa lunática do manicômio??“. Quando é que um ouvinte em sã consciência parou pra pensar que possa existir a possibilidade de se ouvir música SEM FIO? Nunca! Às vezes é difícil até pra mim entender essa tecnologia ‘marciana’.

Uma vez decidi me aventurar numa aula de spinning, usando os aparelhos. Gente, que bando de loucos! A aula era numa salinha fechada, com umas 25 pessoas ali dentro. E a música era tão, mas tão, mas tão alta, que desconfiei que todos ali fossem completamente surdos. Caí fora 30 segundos antes que meu cérebro e meus tímpanos explodissem. Caramba, saí completamente tonta dali – e nem preciso dizer que nunca mais voltei.

Quando vou fazer minha ficha de inscrição numa academia nova e o professor me pergunta se tenho algum problema de saúde, já digo: “Tenho deficiência auditiva“, e aponto pros AASI. Assim já evito que o cara pense que sou uma mal educada quando ele me chama e eu nem tchuns.

Agora, o que acho tenso mesmo é a TV. Sempre tem alguma pirada que liga a TV e, das duas, uma: ou não coloca som (e nem closed caption) ou põe no último volume. Confesso que acho mais confortável ir malhar sem AASI, principalmente por causa do suor. Fico com aquele medinho de estragar os aparelhos com o suador da malhação. Tirando isso, meu cérebro não curte a sonzeira intermitente que rola dentro de uma academia: rádio no máximo, TV no máximo, música das aulas de ginástica no máximo, dezenas de pessoas rindo e conversando.

E vocês? Algum causo envolvendo academias de ginástica pra me contar? :)

Minha primeira tele-entrega

Minha primeira tele-entrega

Era sábado à noite, eu estava morta de fome. Já tinha assistido a vários filmes usando o MiniTek (como é delicioso ouvir em inglês!!) e pensei que era hora de correr o risco de pedir a minha primeira tele-entrega. Sei que vocês paulistas e cariocas chamam de delivery, mas aqui nos pampas é tele-entrega mesmo! Mas aí fiquei uns 10 minutos hesitando. Peço, não peço. Não peço, peço. Na piorrrr das hipóteses era só desligar o telefone! :)

Primeiro tive que decidir o que pedir. Fui de Fábrica dos Chefs. Aí, liguei:

-Boa noite, Fábrica dos Chefs.

- Oi, eu quero pedir uma tele-entrega.

- Por gentileza me confirme o número do telefone.

- (55) xxxxxx

- Ah, é da Tizi? (minha mãe)

- É sim.

- Com quem eu estou falando?

- Paula.

- Pode fazer o pedido, Paula.

- Um penne ao funghi, um spaghetti ao pesto e uma lasanha aos quatro queijos! (gorda!)

- Ok, vamos reconfirmar o endereço e o pedido, blablabla.

- Em quanto tempo chega?

- No máximo em 50 minutos.

- Obrigada!

Quando desliguei o telefone, fiquei com os olhos arregalados. Tipo comoassimBraseeeell?? Tava feito o carreto. Tele-entrega pedida, pela primeira vez em 30 anos. Fiquei me sentindo a última Coca Light do deserto, claro. Só meu irmão estava em casa e fui lá no quarto dele emocionada: “Pedi uma tele-entregaaaaaa!“. E ele:  “Tá, e o Keko?”. Rsrsrsrsrs!!

Próxima missão: passar meus pontos do cartão de crédito pro programa de milhagem de companhia aérea. Essa vai ser fogo!!! :)

Teste da Orelhinha: você é contra ou a favor?

Acho que a pergunta nem precisava ser feita, né? Saúde é saúde. Qual pai ou mãe não vai querer fazer o Teste do Pezinho ou o Teste da Orelhinha no seu bebê recém nascido? Nunca me passou pela cabeça a possibilidade de alguém ser contra o Teste de Orelhinha. Até que encontrei este vídeo, feito por um surdo sinalizado. O teste é obrigatório por lei desde 02/08/2010.

Segundo o Guia do Bebê :

“Um dos sentidos mais importantes para o desenvolvimento completo da criança é a audição. O bebê já escuta desde bem pequeno, antes mesmo de ser erguido pelo doutor em sua apresentação ao mundo. Isso acontece a partir do quinto mês de gestação, onde o bebê ouve os sons do corpo da mamãe e sua voz. É através da audição e da experiência que as crianças têm com os sons ainda na barriga da mãe que se inicia o desenvolvimento da linguagem. Qualquer perda na capacidade auditiva, mesmo que pequena, impede a criança de receber adequadamente as informações sonoras que são essenciais para a aquisição da linguagem. Bom, depois dessas informações fica mais fácil saber a importância do Teste da Orelhinha, ou Triagem Auditiva Neonatal, que é realizado já no segundo ou terceiro dia de vida do bebê. Ao contrário do nome parecido com o teste do pezinho, no Teste da Orelhinha não é preciso fazer um furinho na orelha do bebê (ainda bem). Esse exame consiste na colocação de um fone acoplado a um computador na orelha do bebê que emite sons de fraca intensidade e recolhe as respostas que a orelha interna do bebê produz. O exame logo ao nascer é imprescindível para todos os bebês, principalmente àqueles que nascem com algum tipo de problema auditivo. Estudos indicam que um bebê que tenha um diagnóstico e intervenção fonoaudiológica até os seis meses de idade pode desenvolver linguagem muito próxima a de uma criança ouvinte. O grande problema é que a maioria dos diagnósticos de perda auditiva em crianças acontece muito tardiamente, com três ou quatro anos, quando o prejuízo no desenvolvimento emocional, cognitivo, social e de linguagem da criança está seriamente comprometido.”

 

No vídeo abaixo, que é uma parte do documentário americano Som e Fúria (foi exibido no GNT) vemos um contraponto muito interessante. Hoje em dia, a surdez não é mais um ‘jogo de azar’, ou seja, a tecnologia permite que bebês surdos façam o implante coclear e passem a ouvir, ou usem aparelhos auditivos (cada caso é um caso). E ter um implante coclear ou usar aparelhos NÃO FAZ DE NINGUÉM MENOS SURDO. No momento em que você desliga, que a pilha acaba ou ele dá problema, você está de volta ao silêncio. A criança pode transitar nos dois mundos: o do som (ouvinte) e do silêncio (surdos). Porque privar uma criança da audição se ela pode tê-la? Esse argumento usado pela ‘comunidade surda’ de que é preciso dar continuidade à Língua de Sinais não é válido, ao meu ver. A vida de bebês não deve se prestar a esse propósito que é do interesse apenas de adultos surdos sinalizados.

O que vocês pensam a respeito disso? Particularmente, fiquei assustada com esse lobby contra o Teste da Orelhinha que a ‘comunidade surda’ tem feito com força. Me parece um enorme retrocesso. Audição é saúde, sim! Mesmo que não seja perfeita como a de um ouvinte sem nenhum problema auditivo. Mesmo que seja possível somente através da tecnologia. Se não fosse, não seria considerada um sentido.

Concordo que os pais de bebês surdos devem receber TODAS as informações a respeito de suas opções – implante coclear, aparelhos auditivos, Língua de Sinais. A escolha é deles. E quando um bebê faz implante coclear ou usa AASI, ele não deixa de ser surdo e, quando crescer, se assim desejar, pode parar de usá-los e viver apenas no ‘mundo surdo’. Penso que os pais devem dar SIM a opção de ouvir ao seu filho.

Essa problemática ‘cultural’ se dá apenas na deficiência surdez. Nunca vi um cego ser contra outro cego utilizar a tecnologia para recuperar a visão, se puder e desejar. Nunca vi um deficiente físico ser contra outro deficiente físico se empenhar em ter seus movimentos de volta.

Uma criança surda tem direito de ter a opção de transitar nos dois mundos: o dos ouvintes e o dos surdos. A escolha de permanecer em apenas um deles deve ser única e exclusivamente dela, quando tiver idade para tomar essa decisão.

Sobre surdos, LIBRAS, acessibilidade e notícias equivocadas sobre surdez

Sobre surdos, LIBRAS, acessibilidade e notícias equivocadas sobre surdez

Me corta o coração quando um jornalista, escritor ou qualquer outra pessoa cujo trabalho atinge milhares de outras pessoas publica informações equivocadas a respeito do assunto surdos e surdez. É tanta generalização que não sei nem por onde começar. Em primeiro lugar, a parte mais desgastante (e isso é por preguiça de pesquisar o assunto) é ter que ler as seguintes bobagens:

  • todo surdo é mudo
  • todo surdo se comunica através de LIBRAS
  • a lingua de sinais é a língua do surdo
  • crianças surdas devem estudar em escolas especiais para surdos
  • todo surdo precisa de intérprete
  • acessibilidade para surdos é a janelinha com o intérprete na TV
  • quem nasce surdo vai continuar surdo até o fim da vida
  • todo surdo faz parte da ‘comunidade surda’

Pelo amor de Deus, gente!! Afirmar esse tipo de coisa é um absurdo, em pleno ano de 2011. Vamos esclarecer, então?

Eu sou surda. Eu NÃO me comunico através de Libras. Eu falo. Eu escuto muito bem com aparelhos auditivos. Nunca estudei em escola especial. Não preciso de intérprete. Acessibilidade pra mim tem a ver com legendas nos programas de TV, avisos luminosos em certos locais, atendimento via chat, SMS e coisas assim – aquela janelinha de Libras na TV e chinês pra mim são a mesma coisa. Não faço e nem quero fazer parte de nenhuma ‘comunidade surda‘.

Dá até vontade de perguntar: “entendeu ou quer que eu desenhe??”

Existem surdos sinalizados (estes sim podem se enquadrar nas informações descritas lá em cima no início do post) e surdos oralizados. Surdos oralizados usam aparelhos auditivos ou implantes cocleares (ou não usam nenhum dos dois, inclusive) e são experts em leitura labial. Surdos oralizados falam como qualquer pessoa ‘normal’ (ou melhor, ouvinte). Alguns surdos oralizados também conhecem a Libras e se comunicam com seus amigos/colegas/parentes que são sinalizados através dela – e são considerados bilíngues. Surdos oralizados são pessoas independentes, dominam o português falado e escrito e não necessitam de uma terceira pessoa envolvida na sua comunicação (um intérprete). Surdos oralizados NÃO vivem em função da surdez e NÃO vivem presos a um grupo pequeno de pessoas (a chamada “comunidade surda”).

A sensação que eu tenho quando leio qualquer notícia sobre surdos/surdez que envolva também a Libras é de que a pessoa que escreveu sentiu pena. “Ai, coitadinhos“. Raríssimos são os jornalistas/escritores IMPARCIAIS quando se trata desse assunto. Se existem dois tipos de surdos e os mais variados graus de surdez, vamos esclarecer isso, pôxa! Hoje em dia, ser surdo não significa viver no silêncio – os aparelhos auditivos de última geração  e os implantes cocleares estão aí para provar!!

Agora, me digam:

  • Onde está o futuro e as perspectivas profissionais de alguém que não domina a língua do país no qual vive – e não estou falando do português falado, mas sim do português escrito??
  • Porque o governo não investe dinheiro em uma educação intensiva e de qualidade direcionada a surdos sinalizados para que eles dominem TAMBÉM o português escrito e não sejam eternamente dependentes de alguém??
  • Como alguém pode achar que um pai ou uma mãe que querem dar ao seu filho surdo a opção de ouvir estão aniquilando a criança?
  • Como alguém pode julgar os pais que querem que seu filho surdo conviva com todos os tipos de crianças e não viva em função de uma deficiência?

A propósito: essa ladainha e essa lavagem cerebral toda só acontecem em função da militância incessante da ‘comunidade surda’ e seus simpatizantes para que as pessoas acreditem que todas as informações erradas são certas. Para que o mundo não saiba da existência dos surdos ORALIZADOS. Para que o mundo continue acreditando que não há alternativa ao silêncio. Existe diversidade dentro da surdez, por mais que esse grupo queira fingir que não.

Ou alguém já viu um deficiente visual dizer que um deficiente visual que usa óculos ou faz uma cirurgia para recuperar a visão está se submentendo ao mundo dos que enxergam? Ah, me poupe, vai!

Eu admiro muito os surdos bilíngues. E não consigo ver vantagem alguma em se comunicar somente através de Libras e sequer dominar o português escrito. Na verdade, penso que isso é o mesmo que viver trancado dentro de uma bolha. E eu quero o mundo!!!

PS: antes de publicar seja lá o que for sobre surdos e surdez, PESQUISE!!! Se informe, e não publique bobagens.

PS.2: para saber tudo sobre Implante Coclear, leia o Desculpe, Não Ouvi!

E por último, às pessoas que têm vindo aqui me atacar e mandar emails com desaforos, leiam o post. E aceitem o fato de que

EXISTE DIVERSIDADE DENTRO DA SURDEZ! Surdos oralizados não são MENOS SURDOS do que surdos sinalizados.

Profissão: Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores

Profissão: Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores

 *depoimento do leitor Gilberto Ferreira

“Para falar de superação, tenho que falar dos meus pais. Tenho que falar dos meus avôs. Estes, sim, são exemplo de superação. Eu sou apenas um dos frutos da superação deles. Meus avôs paternos, deixaram Portugal porque a crise lá estava brava e não tinham como garantir a subsistência. Assim, partiram para o Brasil, um país desconhecido, com um filho pequeno (irmão mais velho de meu pai) para nunca mais tornar a ver a terra natal. Já minha mãe é filha e neta de pescadores no nordeste. Gente humilde, sem muita instrução. Que também migrou para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor.

O que essas famílias tinham em comum, além da pobreza e da paixão mútua que meus pais tem por si até hoje? Acreditavam na educação! Apesar de todas as dificuldades, meus pais estudaram no Colégio Pedro II, melhor escola disponível no Rio de Janeiro naquela época… E foram os primeiros de ambas as famílias a obter o diploma de nível superior! E meus avôs transmitiram esse valor a todos os seus descendentes. Tenho uma tia, por exemplo, que só conseguiu se formar com mais de 50 anos, mas não desistiu até conseguir! Na minha geração, todos têm curso superior.

Infelizmente (felizmente para nós, os filhos!), minha mãe, como acontecia naquela época, abandonou a carreira para cuidar dos filhos. Eu e meus irmãos jamais saberemos o quanto ela sacrificou por nós. Meu pai, o humilde filho de imigrantes, fez concurso para a Petrobrás, passando nos primeiros lugares. Mas, quando lhe foi oferecida uma oportunidade para desenvolver um projeto da OEA na Colômbia, não hesitou em partir (como seus pais) para um país desconhecido com filhos pequenos. Depois, novamente, fomos morar em mais um país: meu pai foi fazer Mestrado e Doutorado em Educação (claro!) nos EUA.

E é por tudo isso que, quando a Paula me pediu para escrever sobre a minha suposta história de superação, eu hesitei. Quem entende de superação são meus pais. Quem entende de superação eram meus avós. Eu já encontrei a estrada pavimentada. Deles herdei a curiosidade pelo conhecimento… O gosto pelo aprender…

E tive sorte! Muita sorte! Minha deficiência foi diagnosticada quando morávamos nos EUA. Lá tive à minha disposição toda a assistência e aparelhagem necessária (que, embora, no século XXI pareçam até bem toscos, não existiam no Brasil na época). Morávamos em Pittsburgh e lá havia uma política de integração na educação para deficientes (fossem auditivos, visuais, cadeirantes, etc.), adapatação de uma já bem sucedida política de miscigenação racial (lembre-se que estamos falando dos EUA dos anos 70). Assim, escolas comuns eram adaptadas para receber portadores de uma determinada deficiência.

E lá fui eu, para uma High School bem longe da minha casa (a prefeitura pagava um táxi me pegar em casa e me deixar ao final das aulas) preparada com equipamentos, fonoaudiólogos e professores especializados. Mas o mais importante é que a escola era equipada com alunos! Isto mesmo, alunos comuns. E havia a preocupação de não colocarem mais de um aluno surdo na mesma sala. Assim, estes tinham que aprender a conviver com não-surdos e os não-surdos tinham uma grande lição de convivência.

A idéia era integrar os deficientes auditivos no mundo. E isso implicava falar inglês, ler lábios, usar aparelhos. A língua de sinais era desestimulada, porque reduzia o convívio a pequenos de guetos de pessoas que dominavam esse idioma… Havia professores que traduziam as aulas para alunos transferidos que já dominavam a linguagem manual e ainda não tinham capacidade de acompanhar as aulas de outra forma. Mas isso era gradualmente suprimido. Falando assim, parece que era fácil, né? Mas não era fácil, não! Tínhamos fonoaudiologia na escola todos os dias. Aulas de acompanhamento, digitação (num tempo pré-sms e internet, serviam para rudimentares telefones que transmitiam sinais digitais)…. and so on

Me integrei rápido. Fiz muitos amigos… Dei meus primeiros beijos… Joguei pelo time de futebol da High School… Mas o inevitável chegou: o momento de voltar para o Brasil. No Brasil, segui minha vida. Terminei o segundo grau. Continuei praticando esportes (jogava handebol e, depois, fui remador). Me formei em Educação Física…

No Brasil, nunca tive a preocupação em contar sobre a minha deficiência para os meus amigos. Apenas os mais próximos sabiam. Não era vergonha. Pelo menos, não no sentido típico que se atribui ao termo. Também não era segredo, se me perguntassem, falaria numa boa. O que eu não queria era ser tratado de forma diferente. Faz alguns anos, porém, incentivado por uma ex-namorada, comecei a agir de modo diferente. Ela me disse: “Eu sei que você está perfeitamente integrado e não precisa disso. Você já tem complexo de Super-Homem (é como ela chamava o fato de eu achar que podia fazer tudo!), mas pense em quantos surdos não tiveram a mesma sorte que você…”. Fiquei algum tempo ruminando isso. Pensando na sorte que tive. Nos pais e avós que me ensinaram o prazer de ler (sou um leitor compulsivo), no quanto a política educacional de Pittsburgh me permitira ir além… Não teria conseguido me formar, fazer concursos ou ter a vida social que tenho se não dominasse a língua oral. Nem todos têm essa sorte (alguns têm a oportunidade, mas não aproveitam), e resolvi assumir a minha deficiência.

Na época, eu já era servidor público e me preparava para fazer outro concurso. Pela primeira vez, concorri como PNE. Passei e fui trabalhar na Promotoria de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Passei quase dez anos lá e fiz grandes amigos (já repararam que eu adoro fazer amigos, né?). Mas, há cerca de 3 anos, algumas circunstâncias me acenderam o desejo de sair da Promotoria… Comecei a me preparar para fazer concurso para Fiscal de ICMS do RJ.

Ainda no começo da preparação, saiu edital para o concurso de Oficial de Chancelaria do Itamaraty. Nunca havia ouvido falar nesse cargo, mas resolvi procurar na Internet algo a respeito. E… Gostei do que vi! Era justamente o que eu queria! A oportunidade de viajar… conhecer outras culturas… outros idiomas… Redirecionei os meus estudos e passei! Estou no Itamaraty há dois anos. As funções de um Oficial de Chancelaria são administrativas ou consulares. Ou seja, o OC cuida da administração das embaixadas e consulados do Brasil no mundo, além de lidar com os brasileiros que necessitem de alguma coisa, no exterior, ou estrangeiros que queriam ir para o Brasil. Os diplomatas têm trabalho mais político. A grosso modo, diplomatas lidam com países e Oficiais de Chancelaria lidam com pessoas.

Nunca tive problemas por conta de minha deficiência no Itamaraty e conheço uns 6 PNE’s (3 deles, além de mim, auditivos). E nunca soube de nenhum problema. Esta é uma das coisas mais bacanas, no meu entender, do Itamaraty: tudo muda o tempo todo!! Se não é você que muda de país (e de função), é o seu chefe ou o seu colega. Não tem essa de “chegueimeacomodeietôaquifazendoamesmacoisaquefaziahádezanos!”… Eu, por exemplo, estou na Eslovênia desde setembro. Fico aqui até pelo menos dezembro. Vim cobrir a licença de uma colega. No ano que vem, pretendo sair em definitivo (leia-se 2 a 5 anos) para algum país diferente.

Os deficientes auditivos que conheço no trabalho não precisam de nenhuma adaptação de acessibilidade, mas os visuais contam com monitores de computador que são verdadeiras televisões, além de outras adaptações. Tenho certeza de que, se eu precisasse, não teria problemas em obter alguma coisa. Eu não uso aparelhos. Quando criança, ainda em Pittsburgh, fiz experiências com vários tipos de aparelhos auditivos. Tanto os que vão atrás da orelha, quanto uns enormes que se carregava no peito (acho que nem existem mais), mas nunca me adaptei. Por coincidência, conheci um esloveno que também é deficiente auditivo e estivemos conversando a respeito. Ele usa um aparelho top de linha e me aconselhou a testá-lo, uma vez que a tecnologia avançou muito! Mês que vem, vou a uma consulta e, provavelmente, farei um test-drive… Prometo contar a vocês a minha impressão depois!

Inté breve!”

Falta de legenda/closed caption no GNT e na RBSTV

Falta de legenda/closed caption no GNT e na RBSTV

Ontem (segunda-feira), a RBSTV – afiliada da Rede Globo na região Sul do Brasil – avisou que, no jornal das 19hs, haveria uma matéria sobre deficientes auditivos. Achei cômico, porque nenhum jornal deles tem legenda/closed caption. Perguntei umas 20x no Twitter @RBSTV o motivo disso e nunca me responderam, até que um dia disseram que uns 3 ou 4 programas deles tinham legenda. Entre eles, o Patrola. Aí fui conferir. Durante 3 finais de semana seguidos, quando começava o Patrola, eu ligava todas as TV’s de casa e em nenhuma delas a legenda funcionava. Perguntava pros amigos online se na TV deles funcionava, e também não. Mas a RBSTV afirma categoricamente que o Patrola tem legenda. Nem mesmo o Jornal do Almoço ou o TeleDomingo têm legenda e, cá entre nós, eu acho isso uma vergonha, especialmente porque se trata de uma afiliada da Rede Globo, que disponibiliza legenda em todos os seus programas!!!

Antes que me esqueça, a matéria era sobre uma resolução do DETRAN-RS a respeito da carteira de habilitação para deficientes auditivos. Um funcionário (não lembro se do DETRAN ou de um CFC) afirmou no ar que “os deficientes auditivos vão muito mal na prova teórica porque eles não têm vocabulário para fazer a prova“. Enquanto isso, mostravam uma moça surda bilíngue que se comunicava através de LIBRAS e articulava os lábios muito bem – e dava para entender absolutamente tudo o que ela dizia, e ela usava AASI. Vão começar a disponibilizar intérprete para surdos sinalizados nas provas, iniciativa louvável e necessária. Mas aí enfiar todos os surdos no mesmo saco como se todos tivessem as mesmas necessidades são outros quinhentos.

A pergunta é: até quando vão dizer essas barbaridades sobre surdos por aí? Ok, nós sabemos que muitos surdos sinalizados não dominam o português. Mas e os oralizados e bilíngues que dominam? Poxa vida!!! Acho uma irresponsabilidade da mídia e dos órgãos públicos sair falando esse tipo de coisa. Vão se informar e fazer o seu trabalho direito, pelo amor de Deus. É o caso clássico de falta de pesquisa na hora de fazer uma matéria que vai atingir milhares de pessoas.

Alguém avisa que…

  • Surdos oralizados se comunicam como os ouvintes, não usam LIBRAS e não precisam de intérprete;

  • Acessibilidade para surdos sinalizados é diferente de acessibilidade para surdos oralizados;

  • Surdos oralizados dominam até outras línguas como inglês, espanhol, francês, etc;

  • A LIBRAS não tem utilidade na vida de um surdo oralizado (só se ele tiver amigos surdos sinalizados e quiser se comunicar com eles).

Fico triste demais com o canal GNT. Toda a programação estrangeira deles é legendada, mas nenhum programa nacional é!! Já perguntei 100x no Twitter @CanalGNT e NUNCA obtive resposta. O canal tem programas maravilhosos, como o da Julia Petit, GNT Fashion, Vamos Combinar, Detox do Amor. Porque diabos não podem legendar a programação nacional? É algum tipo de maldade, sadismo?

A pergunta é: a falta de legenda/closed caption (que é uma falta de ACESSIBILIDADE) se dá por qual motivo? Puro pão-durismo? Preguiça? Ou o que?? A legenda não atrapalha ninguém, fica oculta, só vai aparecer na tela da TV se uma pessoa que precisa da legenda ativar o comando CC1 no controle remoto. Realmente não consigo entender. Agora pensem: além de nós, que gostaríamos de ter esse ‘luxo’ (eta país horroroso em que a gente precisa fazer barraco e implorar por direitos básicos em pleno ano de 2011), imaginem a quantidade de idosos e de crianças que também não escutam bem e ficam boiando na hora dos jornais aqui na região Sul. E o pior é que me disseram que em São Paulo também não há legenda nos jornais das afiliadas das grandes emissoras de TV. :(

Então, me ajudem: com quem a gente fala pra resolver isso?????

PS: a Lak Lobato escreveu um post sobre a importância de divulgar a existência dos surdos oralizados.

Vergonha da própria deficiência?

Vergonha da própria deficiência?

Falar abertamente sobre deficiência auditiva é tão natural para mim que chego a estranhar quando alguém me cumprimenta por ter essa ‘coragem’. Depois de algum tempo escrevendo aqui no Crônicas, posso dizer que há uma coisa que me deixa MUITO triste: a quantidade de gente que morre de vergonha da própria deficiência auditiva. Eu sei sei muito bem que cada um de nós tem o seu próprio tempo para superar essa fase. Já passei por isso. Sei o quanto os sentimentos são confusos e o quanto é difícil de aceitar de verdade esse fato.

Somos privados do sentido que controla uma boa parte da comunicação, e por isso mesmo penso que falar sobre a nossa deficiência é algo crucial na formação do nosso caráter – não apenas como ‘deficientes’, mas especialmente como seres humanos. Temos a obrigação moral (por nós e pelas gerações futuras) de ser disseminadores de informação. E como fazer isso sentindo vergonha de si mesmo? Impossível.

Crianças: elas só vão sentir vergonha se aprenderem em casa que devem se sentir mal por isso. Acho crucial que os pais falem sobre o assunto com os seus filhos  sem pudores, preparando-os para enfrentar as perguntas e os olhares alheios. É uma pena que nem todos os pais de crianças ‘normais’ ensinem a elas que as diferenças existem e devem ser respeitadas, e isso só contribui para o bullying que acontece nas escolas. Super-proteger uma criança surda só a torna despreparada para lidar com o mundo real – fora da segurança do lar as coisas não só podem ser como são diferentes. Assim como existem adultos cruéis, existem crianças ainda mais cruéis que eles. Nunca esqueço de uma amiga que me contou que, num vôo dentro dos Estados Unidos, havia uma garotinha surda usando aparelhos auditivos sentada ao seu lado. As duas engataram um papo e minha amiga ficou maravilhada ao perceber o orgulho que a garotinha sentia dos seus aparelhos! Ela contou até que podia ‘vesti-los’ com a cor que quisesse, e escolhia a roupa que ia vestir no dia só depois de decidir que cor colocaria nos AASI. Olha só que fofa!! Com certeza que foram os seus pais que a ensinaram a ter orgulho de si. Não consigo aceitar a idéia de pais que tentam esconder a todo custo a deficiência auditiva do filho. Penso que isso é um ato cruel. Uma violência.

Adolescentes: essa fase da vida é complicada por si só. Na adolescência, as interações sociais se intensificam, e quem não escuta tem duas opções: ou se retrai (e assim corre o risco de entrar em depressão ou ser do tipo anti-social) ou se expande (não deixando que a frustração de não ouvir o afaste das pessoas).

Adultos: que tipo de mensagem um adulto surdo passa para seus filhos ao sentir vergonha de não ouvir? Ao se trancar em casa por medo de ser ridicularizado? Pensem comigo: ser adulto é saber se defender quando necessário. É sentir orgulho das suas lutas e conquistas diárias. A surdez está fora do nosso controle e não é um defeito de caráter.

A quantidade de mensagens que recebo pedindo ‘dicas de como esconder a surdez do namorado‘, ‘dicas de como esconder os aparelhos auditivos‘, ‘dicas de o que fazer para que as pessoas não notem que eu não escuto‘ e afins não tá no gibi. Eu jamais escreveria posts sobre isso, até porque meu lema é: ESCANCARE! Não há como disfarçar o indisfarçável. Perder tempo e energia com isso é absolutamente patético.

Sentir vergonha é sentir medo. Medo de ser ridicularizado, medo de não conseguir se comunicar. Medo do outro. Mas é preciso ter em mente que esse outro não sabe nada de nós, e, se nos causa algum desconforto, isso pode acontecer até sem intenção. A falta de informação faz com que as pessoas tenham atitudes que nos magoam. Mas como um ouvinte pode saber a maneira perfeita de lidar com um deficiente auditivo se nunca precisou lidar com um ou se informar sobre o assunto? É aí que entramos como disseminadores de informação. Numa interação social entre um ouvinte e um surdo que morre vergonha da surdez, o que o ouvinte aprende? Nada!!! Mas no momento em que se relaciona com um surdo que sente orgulho de si e ainda desvenda esse ‘mistério’ para ele, o ouvinte enxerga tudo sob outro prisma e ainda passa a atuar como outro disseminador de informação. Acho isso maravilhoso!!!E penso que todos nós deveríamos praticar diariamente isso.

Desde que superei essa fase e comecei a falar sobre o assunto surdez com todo mundo que conheço, muitos amigos, colegas, conhecidos e até familiares passaram a me tratar de outra forma. De igual para igual. Com respeito. E educação. Sem aquele constrangimento que deriva do fato de que não se pode tocar no assunto – ou porque o surdo não gosta, ou porque sente vergonha. Alguns podem pensar: “Porque falar sobre isso?“. Ora bolas, PORQUE NÃO FALAR? Você não enxerga beleza nas diferenças? Você não entende que ninguém está livre de vir a perder (uma parte da) audição em alguma altura da vida?

Você não quer usar aparelhos auditivos porque eles são grandes? Acho que você devia agradecer aos céus por existir uma tecnologia que lhe ajude a escutar em vez de se importar com os olhares dos outros.

Você tem vergonha do seu marido/mulher por ser surdo? Acho que você devia fazer com que seu marido/mulher sinta orgulho de você ao perceber que você se orgulha de ser quem é, afinal, impossível que ele/ela seja uma pessoa perfeita.

Você se esforça ao máximo para que os outros não percebam que você não escuta? Tenho certeza que sua máscara cai a cada “Hã?” que você precisa dizer quando se distrai por dois minutos.

Você penteia os cabelos da sua filha surda de modo que eles tapem os aparelhos auditivos para que os coleguinhas não vejam? Acho que você deveria procurar um psicólogo o mais rápido possível.

Você ensina ao seu filho surdo que quando um colega o chama de surdo ou toca no assunto surdez com ele, isso é uma grande ofensa? Acho que você vai chorar muito quando constatar que contribuiu tremendamente na criação de um ser humano com auto-estima nula.

Você se sente mal quando seu namorado/namorada fica sem graça porque outras pessoas descobriram que você é surdo(a)? Faça um favor a si mesmo e troque de namorado(a) o quanto antes. Quem quer se relacionar com alguém que faz com que a gente se sinta mal? Credo!

Você só vai usar aparelhos auditivos se eles forem tão pequenos que nem têm potência para ajudar o grau da sua perda? Não perca seu tempo, continue no silêncio.

Pareci agressiva ali em cima? Esse foi o objetivo. Quem lê este blog são adultos – e de adultos, o mínimo que se espera é maturidade. Você precisa se sentir bem na sua própria pele, identificar os seus fantasmas pessoais e fazer todo o esforço do mundo para acabar com eles.

SENTIR VERGONHA DA SURDEZ É UMA VERGONHA.

Me desculpem aqueles que vivem interpretando o papel de surdo que escuta, de surdo que não é deficiente. A gente é diferente. E daí? Temos que jogar com as cartas que temos em vez de passar longos anos lamentando a falta das cartas que gostaríamos de ter. A vida é curta. A hora de parar de ter vergonha de ser surdo é agora.Vamos inverter a lógica cultural brasileira, que pensa que todo deficiente é um coitado incapaz que deveria se esconder num buraco??

Pense nisso – mas pense mesmo e analise o seu comportamento com um olhar BEM crítico. Tudo isso que escrevi é o que eu gostaria que alguém tivesse me dito há us 15 anos atrás. ;)

O bronze nos 100m peito do Pan de Guadalajara é… surdo!

O bronze nos 100m peito do Pan de Guadalajara é… surdo!

*Quem deu a dica para este post foi a Paola Scott

Fonte: Uol

A final dos 100 m peito do Pan de Guadalajara teve dobradinha brasileira de Felipe França e Felipe Lima. E um bronze diferente. O terceiro colocado tem deficiência auditiva e subiu ao pódio em sua estreia em competições de grande porte. Marcus Titus foi o grande destaque do Mundial surdo de natação, realizado em agosto. O norte-americano faturou oito medalhas e, agora, faz a transição para disputar os Jogos Olímpicos de Londres-2012.

Eu sonho com isso e sei o que preciso fazer para estar lá. Acho que no ano que vem já estarei pronto. Estou muito confiante”, disse Titus, que tem perda auditiva profunda no lado esquerdo e perda auditiva severa na direita. Para se comunicar, o especialista em peito usa um aparelho e conta com ajuda de um intérprete de linguagem de sinais na delegação norte-americana.

Titus também precisa de auxílio na largada das provas. Um árbitro é o responsável por sinalizar o que representaria os anúncios sonoros. Em fevereiro deste ano, o norte-americano passou por situação constrangedora no Grand Prix de Missouri, nos Estados Unidos. O nadador não recebeu o sinal visual de saída dos 100 m peito e permaneceu parado no bloco.

Embora tenha necessidade de auxílio especial Marcus Titus não considera a deficiência auditiva como um empecilho em sua carreira. “Não me atrapalha. Me ajuda. Eu consigo focar melhor e não me distraio com pessoas e barulhos que estão em volta de mim”, explicou. Dentro da água, a surdez não tem atrapalhado o desempenho do norte-americano.

Para ler toda a matéria no Uol, clique aqui.

Emoções auditivas: falando no telefone

Emoções auditivas: falando no telefone

Importei um telefone residencial da Europa (o que seria de nós sem os amigos que aceitam encomendas quando viajam pro exterior) que possui a função Bluetooth, ou seja, posso conectar com meus aparelhos auditivos através do Tek e do miniTek da Siemens e assim tentar falar no telefone.

PAUSA DRAMÁTICA!

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Você, querido ouvinte que lê este blog, entenda um fato básico a respeito de quem não escuta ou escuta mal: ESCUTAR é uma coisa, ENTENDER O QUE SE ESCUTA é outra completamente diferente.  É o famoso “escuto, mas não entendo“. Cometi a besteira de comentar sobre a minha felicidade no Twitter (sigam @CronicaSurdez) e aí alguns amigos começaram a me aloprar: “Me liga!”, “Vou te ligar!”, “Atende o telefone”! Aí já comecei a ter tremedeira de nervoso.

 

Primeiro, levei uma surra pra conseguir fazer o pareamento entre o MiniTek e o telefone, modelo Gigaset SL785. Não sei se existem telefones residenciais com Bluetooth de outras marcas, mas os sites internacionais nos quais pesquisei só puxavam modelos da Siemens - aqui no Brasil, só encontrei um deles e achei caríssimo. Aliás, em terra brasilis temos um telefone, também da Siemens (modelo Gigaset DA100), com um super amplificador acoplado. Custa R$210 (em 12x, preço normal é R$280) e é vendido pela Amplitel. Esse é outro que morro de vontade de comprar, ainda mais porque não precisa estar de aparelho auditivo pra atender. Esse é um ponto interessante, porque nem sempre vou estar de AASI em casa, ou nem sempre meu MiniTek vai estar com bateria suficiente, ou nem sempre vou lembrar de ligar o MiniTek ao chegar em casa. Enfim, voltando ao assunto.

O pessoal lá de casa ficava me encarando com um olhar ‘estuprador’ tipo “E aí, testa esse negócio pra ver se funciona!”. E eu suando, ansiada, agoniada. Até que fiquei sozinha com a minha mãe e foi o momento do hey ho, let’s go! ”Mãe, me liga!”. Uma frase tão banal mas que, pra nós, só faltou uma música brega de fundo e movimentos em câmera lenta pra enquadrar o momento e o que as duas estavam sentindo. Ouvi o telefone tocar direto nos AASI, tão bonitinho. Atendi, me virei de costas pra ela. Fechei todos os sons pra ouvir somente o telefone. E o que ela ia me dizendo eu ia entendendo. Quando desligamos, demorou pra cair a ficha. Aí, inesperadamente, o telefone tocou de novo e era a minha cunhada. Quando eu disse alô, ela achou tão estranho que desligou, porque pensou que tinha ligado pro número errado! Hahahaha!! Aí ela ligou de novo e eu “gata, vai falando comigo que tô aqui testando uma nova ferramenta do Exército“. Entendi quase tudo o que ela disse, mas que fique claro que tanto minha mãe quanto minha cunhada não falam, elas BERRAM. Aí decidi tentar mais uma vez com mamis, não entendi nem 20% da conversa, me emputeci e fiquei emburrada. :)

Mais tarde naquela noite, sozinha em casa e querendo testar mais o brinquedinho, peguei os cartões de banco na carteira e me diverti ligando pra todos os números de 0800 possíveis e imagináveis. Nunca pensei que as vozes das gravações falavam tão pausadamente e articulavam de modo tão claro as palavras. Quando não entendia uma palavra, desligava e começava de novo – e assim se foram umas 60 ligações! Não satisfeita, decidi ligar pra uma pizzaria pra ver se entendia o que a atendente falava. Liguei 3 vezes, ouvi o que ela dizia, e no final falava “desculpe, foi engano“. Configura loucura? Azar!!!

Eu não sei como é falar ao telefone, quais as convenções sociais, quais os horários adequados, quantas vezes se deve insistir, quanto tempo se demora pra retornar uma ligação perdida e coisas assim. Não tenho as manhas. Mas a partir de agora vou fazer um esforço pra ter.

O próximo passo é conseguir pedir uma tele-entrega sozinha. Torçam por mim! Fico completamente atordoada e nervosa, como se fosse atender uma ligação em chinês, mas, como dizem aqui no Rio Grande do Sul, não tá morto quem peleia!

Uma confissão: como é frustrante e desesperador não entender o que se escuta. Tenho uma sensação estranha, como se faltasse algo no meu cérebro. Não, não pirei de vez, mas às vezes escuto algo, não entendo nada, aí com um pouquinho de leitura labial é como se os neurônios se conectassem e ploft, as coisas fazem sentido. Evito muito o telefone acho que 90% em função da irritação e da frustração que sinto por não entender o que escuto.

MiniTek da Siemens

MiniTek da Siemens

Toda tecnologia nova me interessa – e muito!! Já tinha o Tek desde o ano passado (tem post sobre ele aqui), mas assim que lançaram o miniTek no exterior, fiquei desejando. Quando ele chegou ao Brasil, corri pra garantir o meu. Olha só que bonitinho:

Para quem não sabe, é um controle remoto usado para aproveitar a conectividade Bluetooth dos aparelhos auditivos da Siemens. Ouvir música através de ASSI ao mesmo tempo em que se ouve tudo o que acontece ao redor é pior que castigo. Atender telefone usando AASI = eco eterno. Assistir à TV com mil barulhos extras é super chato. O que é que esse controle faz? Ele ‘puxa’ o som direto pros AASI, quase como se fosse um fone de ouvido (só que sem fio, uhuu). E ainda por cima te dá a opção de excluir todos os sons ‘extras’ para se concentrar apenas naquele som que você quer mesmo ouvir: a novela, a música, o papo ao telefone ou ao celular, um filme no computador. Desconheço invenção mais legal do que essa – é a experiência auditiva mais deliciosa que tenho desde que voltei a usar AASI quase 24 horas por dia.

A caixa pesa apenas 55g e a bateria é recarregável. O grande atrativo dele é que faz pareamento com dois celulares, duas televisões, dois telefones residenciais com Bluetooth – enquanto o Tek permite pareamento com apenas um de cada. É, sem dúvida, mais prático.

Através do miniTek e do Tek, a gente pode aumentar ou diminuir o volume do som no AASI (tem dias que sinto tudo alto ou baixo demais e essa função me salva). Pedi pro pessoal da Siemens me mandar algumas imagens para vocês entenderem melhor como funciona o ‘bichinho’.  

O miniTek auxilia pacientes que têm dificuldade para assistir televisão e falar ao telefone. Os sons do ambiente podem ser minimizados ou totalmente excluídos - para isso, basta clicar no botão específico. Essa função nos permite sentir prazer ao ouvir música, ver TV, etc – em vez de só ficar pensando ‘que saudade da minha audição de antigamente’. A minha sensação ao usar os AASI Motion 701 + Tek ou miniTek é de que chego muito perto de uma audição perfeita (só faltava, mesmo, entender tudo o que escuto rsrsrsrsrs).

Para falar ao telefone o miniTek também facilita muito a vida! Quem usa AASI nos dois ouvidos recebe a informação via Bluetooth simultaneamente aos dois. Ele possui um clip para prender na camisa, o que facilita o manuseio. Possui também outros acessórios como capa de proteção e carregador de bateria para carro. Em breve vou fazer um post sobre um telefone residencial com Bluetooth que importei da Europa (sim, porque lá custa 110 euros e aqui no Brasil mais de mil reais) e conectei com o miniTek – e, pasmem, tenho entendido muito do que escuto com ele e até atendi alguns telefonemas de pessoas bem próximas, coisa que não fazia há longos e longos anos. :)

Se o celular ou o telefone de casa (só os que têm Bluetooth tá?) tocarem, você ouve a campainha direto no ASSI e atende através do miniTek (ou do Tek). Basta clicar no botãozinho do telefone e segurar o miniTek perto da boca pra outra pessoa receber a sua voz. Simples!!

Para quem gosta de ouvir música, o miniTek é compatível com iPod, mp3 e outros equipamentos de áudio, via cabo ou Bluetooth – embora eu nunca tenha conseguido conectar o meu iPod Touch com ele via Bluetooth. Nesse caso, conecto um pequeno cabinho que une um ao outro. Dá para assistir filmes ou ouvir música no computador/notebook do mesmo jeito.

O pessoal da Siemens está me devendo só uma informação, que ainda não consegui descobrir sozinha: como faço para utilizar o miniTek (e o Tek também) para o FaceTime (videoconferência sem delay da Apple para iPod Touch, iPad e iPhone, perfeita para quem quer conversar utilizando leitura labial E som dos AASI). Em todas as minhas tentativas, eu ouvia a pessoa nos AASI mas a pessoa não recebia o meu áudio. #SOS #HELP #QUEROESSAINFO #PLEASE

A bateria, fazendo streaming (conectando com algo via Bluetooth/cabo), dura 4 horas. A do Tek dura mais.

O que me desagradou foi a falta de uma trava – que o Tek tem – pois quando coloco na bolsa, ao encostar em alguma coisa com um pouquinho de força, ele muda sozinho de programa. E até mesmo quando eu encosto sem querer em algum botão e mudo de programa/volume, isso irrita quem estava acostumado com a trava do Tek. Para pacientes idosos, ainda acho que o Tek é a melhor opção pois ele mostra em qual programa o ASSI está, tem luzinha com o nome do programa escrito, enfim, é mais didático.

Uma coisa que me deixa bem feliz é baixar apps no iTunes (pro meu iPod Touch, não tenho iPhone) de cursos de idiomas e ficar ouvindo a pronúncia de mil palavras diferentes em inglês e espanhol direto nos AASI sem som externo. É outro nível, no sentido de entender 75% melhor a pronúncia – e gravar na cabeça pro futuro, rsrsrsrs!!

Alguém sabe se existe algo deste tipo para quem usa Implante Coclear?

Aparelhos auditivos e… salões de beleza!!

Aparelhos auditivos e… salões de beleza!!

Quem acompanha o Crônicas sabe que também escrevo o Sweetest Person, que trata de assuntos do universo feminino – peruices e beleza incluídos aí. Na minha última ida ao salão de beleza, fiz tantas observações que tive certeza de que renderia um post. :)

Quem usa aparelhos auditivos sofre um pouquinho no salão de beleza. Se do alto da minha super perda auditiva o barulhão do secador me irrita, com AASI ativo e operante…meldels! E, num lugar assim, é uma sinfonia de secadores a mil, pessoas gritanto, coisas caindo no chão, rádio ligado, TV ligada, um profissional berrando pro outro, e por aí vai. Impossível não tontear e perder a concentração.

Antigamente, quando era teimosa e não queria saber de usar aparelhos, me tiravam pra louca. Primeiro, porque eu não avisava ninguém de que não escutava direito. Segundo, porque cabeleireiro adora puxar um papo enquanto lava o seu cabelo – e um surdo sem AASI lavando o cabelo com uma pessoa falando atrás dele vai conversar que é um espetáculo né? Rsrsrsrsrs!!

Hoje em dia, não saio de casa sem AASI. Já fui em salões (aos quais nunca mais voltei, obviamente) onde o(a) cabeleireiro(a), ao ver meus aparelhos auditivos, fez uma cara de criança assistindo filme de terror e me deixou constrangida com o seu próprio constrangimento. Porém, na semana passada, voltei a um que gosto muito. Conheci o proprietário na época em que ele trabalhava em outro salão, cujo dono tinha um filho surdo – e por isso, lá todos agiam com delicadeza e sensibilidade ao lidar com um deficiente auditivo.

Sempre que vou ao salão dele, relaxo. Ele fala comigo com calma e articula super bem os lábios. Até tenho que dar um toque nele que não precisa falar tão devagar – me pergunto se ele acha que não escuto o que ele fala, de AASI escuto tudinho e mais um pouco. :)

Nessa última tarde de beleza, fui arrumar a cor do cabelo e fazer manicure/pedicure. Quando chegou a hora de lavar as madeixas, a manicure estava pronta para começar a pintar as minhas unhas. Aí veio o click no cérebro: “Nãaao! Deixa pra pintar depois, porque eu preciso tirar os aparelhos auditivos pra lavar o cabelo!”. Nesse momento senti vontade de ter o lançamento da Siemens, o Aquaris, que é à prova d’águaSe ela pintasse, na hora de tirar os AASI, eu ia estragar todo o trabalho da moça. Não dava.

Aí, tirei os aparelhos – e avisei o cabeleireiro que ia lavar meu picumã, porque ainda não nos conhecíamos “Ó, se quiser falar comigo, me cutuca, senão vai ficar falando sozinho!” – e comecei a raciocinar: depois que ele lavar, vai fazer escova, e não tô a fim de escutar aquela barulheira que parece que vai perfurar minha cabeça. Aí chamei a manicure e falei “Pode pintar!”. E ela: “Mas tu não vai estragar as unhas quando for colocar os aparelhos?”. Eu: “Fica tranquila, porque só vou colocar no final da escova e até lá as unhas já secaram!”.

E assim foi. Fiquei uns 40 minutos curtindo um silêncio maravilhoso e lendo uma revista. Quando fiquei prontinha, recoloquei os AASI e voltei para aquela orquestra demoníaca de sons altíssimos vindos de todas as direções ao mesmo tempo.

Minha mãe estava comigo e começou a reclamar que eu estava ‘falando para dentro’, ou seja, falando muito baixinho. Mas a sensação, ao ouvir tanto barulho no mesmo lugar, é de que qualquer palavra que sai da minha boca é um GRITO. Mesmo não sendo, rsrsrsrs. Aí preciso me readptar ao real nível de barulho que emito.

Essa matéria (clique aqui para ler) fala que o barulho do secador pode causar perda auditiva. Gente, como os cabeleireiros conseguem trabalhar num local tão ruidoso sem nenhum tipo de proteção à sua saúde auditiva. Como dizem, tem que ver isso aí. Nesse tipo de situação é que invejo demais o cérebro dos ouvintes e sua capacidade de ‘anular’ os sons irritantes do ambiente.

Quem usa aparelho auditivo tem que ficar esperto num lugar desses, porque, como você relaxa, pode acabar esquecendo de tirar os aparelhos na hora de lavar o cabelo e aí é morte sem chance de ressuscitação. Um perigo!! A única vez que me aconteceu algo assim foi em casa. Entrei no banho e, quando estava prestes a colocar a cabeça debaixo do jato d’água, notei que estava ouvindo um barulho que parecia uma cachoeira e….NÃAAAAAO! Inclinei o corpo 1 centésimo de segundo antes de dar perda total num par de AASI caríssimo. Uh, la la! Foi por pouco!!

E vocês, como se viram quando vão a salões de beleza?