Quando a surdez é uma dádiva

* continuação do depoimento do leitor R., surdo, formado em Medicina pela USP

Foram valiosos os comentários sobre meu relato inicial neste blog, e me senti estimulado a escrever mais um relato sobre alguns ‘insights’ e breves fatos. Tomo como ponto de partida minha última pergunta no relato anterior, sobre como lidamos com a língua estrangeira e países estrangeiros. Ironicamente, me sinto um estrangeiro independentemente do pais, língua ou situação. À primeira vista, pareço mesmo: sou descendente de italiano e alemão; aliado à minha voz nasalada e sotaque, todos perguntam de onde venho – e dizem que falo muito bem português. Quando digo que sou brasileiro, muitos estranham e, ainda assim, explico que sou surdo. Muitos demoram a cair a ficha e ficam sem reação.

Digo que ser estrangeiro está em parte no processo de nossa alfabetização e oralização. Pela forma como eu fui, se assemelha muito ao modo como aprendemos uma segunda língua. Adquirimos o corpo de conhecimento pelo estudo ativo, memorização e entendimento. A partir de então vem o domínio da pronúncia e fase oral. Desta forma, somos alfabetizados na mesma medida que falamos. No meu íntimo, percebi que possuo enorme facilidade para assimilar a gramática e como uma linguagem se constrói – e uma enorme dificuldade para falar e pensar na língua. Percebi também que meus pensamentos são pictóricos, formados por imagens. O ato de falar é mera tradução na língua de melhor domínio, que é o português. Nesta direção, passa a ser igual ao inglês, espanhol e alemão.

Concluo que o português, assim como quaisquer outras línguas, é secundário. Aprendi o inglês em colégio convencional e escola de línguas, e segui suas etapas como bom aluno. Escolhi uma que desse ênfase na escrita e leitura. E, no último ano, investi mais em conversação. Nas provas de aptidão auditiva, ao invés de ouvir um gravador, filme ou reprodutores, o professor reproduzia a prova para que eu pudesse treinar e ganhar aptidão na leitura labial.

Só melhorei mesmo quando fiquei um tempo nos EUA. Acredito que o divisor de águas acontece quando adquirimos domínio da leitura labial em outra língua. Então, qual e minha primeira língua, a materna? Para os ouvintes, pela audição, é a língua ou línguas que ouvem quando pequenos (antes dos 3 anos de idade). Para os surdos sinalizados, pela visão, é a língua das mãos (dos sinais) também nesta faixa de idade. Para os surdos oralizados, depende. Se tiverem sorte de terem seus diagnósticos antes dos 3 anos, e imediato uso de aparelhos, entram no grupo dos ouvintes e seguem o desenvolvimento da  linguagem. Se tiverem a decisão de não usar aparelhos, certamente serão incluídos no grupo dos sinalizados, e seguem o respectivo desenvolvimento. O problema recai naqueles, como eu, que tiveram seus diagnósticos tardiamente e uso de aparelhos no fim da primeira infância. A aquisição da língua passou a ser um processo ativo, consciente, de intenso estudo e raciocínio – tal qual a língua estrangeira. Não incluo aqueles portadores de surdez adquirida e progressivas ou deficiência auditiva leve a moderada, que são os que incluo no grupo dos ouvintes, mesmo com limitações.

Mas e o que acontece em nossos cérebros? A primeira infância representa um período de crucial importância no desenvolvimento neuropsicomotor e aquisição de novas habilidades, como o andar, o ver e a construção do pensamento pela audição através da linguagem. A linguagem é a base da formação e da transmissão do pensamento humano, assim como, a capacidade de abstração e das idéias. Digo por linguagem não só a convencional e clássica: a língua oral, como todos conhecemos. Incluo neste conceito qualquer estratégia que permita formação e transmissão recíproca de unidades de informação, como as mãos pela visão e pelo tato (língua dos sinais). A aquisição desta habilidade nos seres humanos sem haver prejuízos ao indivíduo acontece antes dos 3 anos. Após, apresenta-se, em diferentes graus, déficit no domínio da linguagem, da transmissão e construção de informações, pensamentos, da abstração e idéias. Esta etapa é um fator decisório no sucesso futuro e integração na sociedade em âmbito social, profissional e econômico assim como ao nosso estado interior.

Alem da Europa e EUA, viajei por toda a América do Sul e quase todo o território brasileiro. Em uma das minhas incursões no Brasil, por duas vezes, presenciei fatos que me marcaram muito. Um deles aconteceu numa rodoviária nos cafundós do sertão brasileiro. Fazia muito calor e esperava um pau de arara para ir ate a capital do Maranhão. Um homem me avistou e imediatamente veio em minha direção. Achei que fosse um pedinte, algo comum naquela terra miserável onde as necessidades são a regra e não a exceção. Quando este se aproximou mais, seu rosto irradiou e começou a gesticular com as mãos, tentando algo. Logo percebi que era um surdo-mudo querendo se comunicar comigo, todo entusiasmado. Vi que ele notou que eu usava um par de aparelhos atrás das orelhas e associou ao fato de também ser surdo. Porém, sinalizei que não sabia a língua dos sinais e tentei perguntar se sabia  escrever. Não sabia. Era um analfabeto ….. e também um pedinte. Mas naquele breve tempo, tudo o que ele queria era conversar e dividir experiências comigo, ou talvez me inundar com perguntas sem respostas em sua humilde vida. Fiquei arrasado com a constatação que nada podia fazer. No fim, dei R$ 10,00 (isso em 1998). O outro momento foi sentimento de revolta. Aconteceu no interior de São Paulo. Conheci uma família dona de um hotel em cidade turística, que tinha um membro da família surdo: um rapaz adolescente. A família estava encantada por eu ser surdo, saber me comunicar bem, ter profissão e emprego. Me apresentaram o rapaz, e este me pareceu um animalzinho ao relento. Mal sabia se comunicar, não falava, tinha olhos aflitos e dominava uma língua de sinais rudimentar. Mas fazia de tudo para se comunicar. Ter alguma chance para algo melhor. Perguntei a família sobre sua situação e por que não o colocaram numa escola com acompanhamento médico e fonoaudiológico. A ignorância não conhece fronteiras. Ataca a todos e tudo que permitem sua presença. E o estrago não é pequeno!

Em minha ultima ida à Europa, mochilei na Áustria e Alemanha, dois países de uma língua de pouco domínio pela maioria dos estrangeiros – o alemão. Nos hostels onde fiquei tive contatos com muitos estrangeiros que não falavam alemão. Pude testemunhar alguns fatos em seus comportamentos: mais tímidos, vulneráveis e sensação de desconforto continuo, evitavam aproximações e um ar de eterna frustração. Tal qual sempre me senti por muito anos. Ou seja, a oportunidade de um ouvinte se tornar como um de nós. Porém, nesta situação, com uma desvantagem. A falta de adaptação. A adaptação é uma dádiva da natureza aos seres vivos e a chave mestra da sobrevivência. A surdez me forçou a este universo. Seja ela biológica, com o uso mais intenso da visão, maior perceptividade dos detalhes e nuances; seja intelectual e comportamental, com o maior desenvolvimento da memória visual, aptidão da leitura labial e escrita, concentração, decisões e estratégias ao lidar com as dificuldades e situações novas. Isto talvez seja o nosso maior presente: o poder da adaptação. Por isso, acredito na sua contribuição pela minha inclinação a viajar muito, aceitar de bom grado os desafios e atração pelas novidades e pelo desconhecido. Aprendemos a não nos acomodar e incomodar, e habituamos-nos a viver sempre esta situação, mesmo depois muitos anos após o amadurecimento e aceitação plena na sociedade. Acabamos sempre buscando a mesma adversidade que enfrentamos desde pequenos. Quando a surdez se torna uma dádiva.

Uma anedota interessante e um convite a reflexão sobre o mundo moderno é sobre o escritor americano George Prochnik: a falta do silêncio! Diz-se que vivemos um caso de amor com os ruídos e que a incapacidade que temos de alcançar o silêncio condena nossas funções cerebrais. Isto gera um enorme distúrbio de atenção relacionado com todo o ruído esquizofrênico pois somos fisiologicamente preparados para responder aos ruídos de uma maneira primitiva e biológica, isto é, o que sentimos esta diretamente ligado ao que ouvimos. Torna-se um instrumento de injeção de estresse em nossos corpos. Ironicamente, temos a possibilidade de tornar vários processos mais silenciosos, mas estamos resistentes a essas escolhas por nossa cultura. Por exemplo, a expansão do carro elétrico seria capaz de diminuir a intensidade da fonte mais ruidosa global – o tráfego. Mas o estranho é que a população reclama que esses carros estão muito quietos, causando preocupação aos pedestres que não ouvem as máquinas se moverem ou aos motoristas, que querem ouvir o poder das máquinas. Consequentemente, o barulho continuo, principalmente música alta nos iPods, está levando um em cada cinco jovens nos EUA a perder a audição. Além disso, há uma sobrecarga cognitiva, já que o barulho afeta nosso modo de pensar em termos de decisões sociais, emocionais e profissionais. O ruído é sedutor, entra em nossos corpos criando prazeres fisiológicos verdadeiros. Freud diz que os três medos primários da humanidade são a escuridão, a solidão e o silencio. (fonte: In Pursuit of Silence)

Como disse certa vez uma pediatra professora minha, a surdez é a chance para um salto na evolução.

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8 comentários em “Quando a surdez é uma dádiva”

  1. Mariana

    Uau… o R. escreve tão bem! Triste a história com o surdo-mudo (era mudo mesmo ou apenas não sabia falar?), àvido por informações, aliás, acho que o certo seria por esperanças… Fiquei imaginando a alegria dele de ter visto o R. de aparelhos. :) Quanto ao adolescente… que lamentável isso. Tem pais que desistem fácil seja por falta de tempo, de informações animadoras, etc… uma pena.
    Eu tenho um orgulho imenso de meus pais, por terem me colocado em uma escola regular para ser oralizada, apesar de que eu tenha aprendido a falar bem tardiamente (os médicos – tantos! – diziam que eu tinha uma “audição perfeita” até que um médico, de um estado vizinho, disse que eu tinha surdez nos dois ouvidos) e de forma desconexa, cá estou… ainda falo parecendo uma estrangeira (também me estranham quando digo que sou daqui), mas acho isso até divertido, rs. E não sei por que, mas consigo me expressar melhor escrevendo que falando, hehe.

    Adorei essa parte: “O ruído é sedutor, entra em nossos corpos criando prazeres fisiológicos verdadeiros.” Certamente, precisamos dos sons, e mesmo ruídos, para nos sentir vivos!

    Obrigada pelo ótimo texto!

  2. Thais Lima

    Discurso mt inspirador! Ñ sou surda, tenho apenas um deficit de audição por conta de um ferimento q causei no ouvido. Coisa q nem se assemelha aos desafios de qm é surdo.
    Mas algo me chamou atenção nesse depoimento. As afirmações do leitor sobre o Maranhão, Fiquei mt triste ao ver tal depoimento. Sou maranhense e amo minha terra apesar de todas as adversidades. Espero, sinceramente, q este homem tenha visto além das misérias dessa terra e tenha enxergado as belezas q fazem parte do Maranhão.

    Paula, a você apenas parabéns, o Crônicas tem ficado cada vez melhor!

  3. R.

    R.,
    Perfeito!
    Orgulho sinto sempre!
    R.

  4. Tat Santos

    Paula, você escreveu errado na introdução do texto.
    O R. não é apenas formado em medicina, é também escritor!
    R.: Faça um favor para a humanidade: Escreva um livro! Ou vários!!! Ou um blog.

    Achei incrivelmente verdadeira a citação: ‘Diz-se que vivemos um caso de amor com os ruídos e que a incapacidade que temos de alcançar o silêncio condena nossas funções cerebrais.’ Eu noto claramente que raciocino muito melhor lendo ou estudando algo tendo um ruído (TV ou rádio) do que no silêncio. Fora que, se estiver silêncio e alguém chega em casa, ou chama, tomo um susto enorme, mas se ouver algum som, me concentro mais, e com isso não me assusto. Deve o ‘vício’ do som.

    Post maravilhoso! (sim, eu também tenho vício de vírgulas e exclamações! e de risadinhas também rsrsrsrs)

  5. João Victor Joaquim

    História bonita!!!
    Parabens Paula
    A cronicas estão ficando cada vez melhor!

  6. Leida

    Olá Paula e R. !

    Sou mãe de 2 lindos meninos, sendo o mais velho (10 anos) ouvinte e o mais novo (7 anos) usuário de AASI desde 1 ano e 10 meses, após o diagnóstico de surdez bilateral severa.
    Fugimos de todas as causas conhecidas de surdez infantil no Brasil, pois fiz pré-natal, não tive rubéola, meu filho não teve meningite, nem tomou qualquer medicamento que pudesse ter causado a surdez. Além disso, nasceu de parto normal em uma conceituada maternidade em São Paulo e estranhamente, não apresentou qualquer problema no “Teste da Orelinha” , feito lá mesmo no hospital, logo após seu nascimento. Mas, percebia que ele era “calmo demais”, não se assustava com barulhos e mesmo depois de muita insistência com sua Pediatra, de que havia algo de estranho em seu desenvolvimento, era sempre desestimulada a achar que havia algo mais para ser investigado. Foi somente depois de buscar a opinião de um Otorrino, que o submetemos ao exame BERA e finalmente, tivemos o diagnóstico da surdez.
    Apesar da desconfiança, quando tive a confirmação do diagnóstico, minha vista escureceu, fiquei “sem chão” e desabei a chorar. Por nunca ter conhecido um surdo de perto, percebi que não sabia absolutamente NADA sobre o assunto e o pânico tomou conta de mim por muito tempo. O medo do “desconhecido” é assustador e para os pais ainda há a angústia de não saber se o seu filho vai poder falar, estudar, brincar e se desenvolver normalmente.
    Bom, já se passaram alguns anos e “graças a Deus”, meu filho tem se desenvolvido muito. Ouve bem com seus AASI’s, fala de tudo, estuda em escola regular e é muito querido pelos amigos. Esses resultados foram alcançados depois de muito esforço por parte dele, de nossa família, de seus professores, fonoaudióloga e musicoterapeuta. Mas, nem tudo são flores e muitas dificuldades existem e há vários desafios ainda pela frente…
    Por isso, AMO DE PAIXÃO, participar do FIC (Fórum de Implante Coclear), onde troco muitas experiências com outros pais e também de ler esse BLOG e o da Lak. Depoimentos como os seus Paula, e também do R., acalmam o meu coração e fazem com que sinta, que estou no caminho certo em relação ao meu filho.

    Abraços,

    Leida

  7. Greize

    Mto interesante seu relato R.
    Acabei de chegar de uma sessão de Cinema 4o Festival de Filmes sobre Deficiência.Documentários estrangeiros, e hj o tema foi surdez.Passou 2 “Sou surdo e não sabia” França 2009/”Vozes de El-Sayed” Israel 2008.Este último mostra um lugar no mundo onde maioria da população é surda e é a população que tem que se adptar as eles, tb mostra o 1o IC da Vila.
    Mas queria entender uma parte do seu relato “Fiquei arrasado com a constatação que nada podia fazer”??Por ele não poder estar usando um aparelho auditivo ou por vc não saber LS???
    Eu não nasci surda então fico muito confusa com a questão, sinalizados, oralizados, implantados é briga que me confunde..eu sou oralizada , claro pq perdi a pouco tempo e uso aparelhos e tb estou aprendendo LS, pq para mim tdo é mais uma forma de comunicação.
    A parte dos iPods, sim eu também fico impressionada com quantidade de “surdos” por ai.Pq vc vai fazer uma pergunta e mtos falam não ouvi??
    Fico assutada.Se ele não ouviu..eu então..rs.
    Abraços

  8. Maíra

    Oie, R.!

    Parabéns!
    Eu também sou surda e formada em Finanças.
    Com todo respeito, você (R.) pode me passar o seu e-mail para trocar experiências a respeito de apitdão na leitura labial de uma outra língua estrangeira. Ou então, me adiciona: mai.franco@yahoo.com.br
    Se não quiser me passar ou me add, tudo bem, vou entender. Mas vou adorar se me add! :)

    Aguardo a resposta.

    Obrigada,
    Maíra

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