Destaques Relato de uma fonoaudióloga

Relato de uma fonoaudióloga: Mariana Santos

Aqui começa uma nova seção do Crônicas da Surdez: a tagRelato de uma fonoaudióloga“. Se você é fono (e vale fonoaudiólogos também, tá guris?) e tem alguma história que te emocione sobre um paciente, não deixe de me enviar para publicarmos aqui (o email é pvpfeifer@yahoo.com.br). Tenho certeza que cada um de vocês que trabalha diariamente com audiologia e reabilitação auditiva tem pelo menos uma história que toca o coração quando lembram dela. Por que não compartilhar? Para nossa estréia, um relato da querida Mariana Santos.

‘Oi Paulinha! Tenho uma história legal e recente de uma mulher que atendi no ambulatório de aparelhos auditivos. Inclusive, no dia em que atendi ela postei um textinho sobre esse atendimento, tamanha inspiração que me deu. Essa paciente chegou ao ambulatório de AASI no qual faço residência para realizar um teste com aparelhos. Ela nunca havia usado ou testado e conhecia pouco sobre os aparelhos auditivos. Como sempre, explico um pouco sobre como o aparelho funciona, o que ele faz e seus benefícios para o usuário. Dou aquela valorizada mas ressalto que as expectativas precisam ser sempre adequadas ao que o AASI pode oferecer. Aquela expectativa super alta e, às vezes, não correspondida, prejudica bastante a aceitação do usuário.

Já durante a explicação ela ficou bastante interessada e me contou que chegou ali no meu atendimento depois de passar por situações incovenientes e que a incomodaram muito no trabalho, pois era Educadora e via muitos dos desafios que seus alunos surdos enfrentavam. Tamanha foi sua surpresa quando percebeu que ela havia “se tornado” deficiente auditiva. Ela sentiu dificuldades na comunicação com seus alunos, colegas de trabalho e em casa mas não havia associado isso a perda auditiva (PA). Por ser Educadora Física, achava que o ambiente de quadra esportiva comprometia a comunicação mas, mal sabia ela que as distorções no som causadas pela perda auditiva vinham dificultando ainda mais seu desempenho comunicativo. Então ela me contou que depois do diagnóstico da perda, houve um momento de negação e dúvidas. Mas, em seguida, tomou aquilo como uma situação natural e própria e enfrentou caminhando para a reabilitação e para um curso de Língua Brasileira de Sinais por conta de alguns dos seus alunos que eram usuários de Libras. 

Comecei o teste. Adaptei o primeiro aparelho auditivo e liguei nos seus ouvidos. Linda foi a reação dela quando não encontrou as palavras que precisava para responder àquelas clássicas perguntinhas de Audiologista: “Oi? Ta me ouvindo?, Como é que tá a minha voz?,  Você está confortável com o som?”.

Ela ficou ali, curtinho os sons do ambiente que não ouvia antes. O barulho do ar condicionando funcionando, as unhas dela tapeando a mesa, o ranger da minha cadeira girando…se deliciou com TODOS os sons. Ela demonstrou tamanho orgulho da sua condição e da sua coragem de enfrentar os “preconceitos que ainda existem para com pessoas que usam um aparelhinho atrás do ouvido” (palavras dela). As primeiras palavras depois da ativação fo AASI foram: “Vocês (Fonos) fazem uma coisa linda. Vocês fazem com o que os outros voltem a ouvir.” Eu entendi que, com isso, ela não queria agradecer. Ela só quis me dizer que viu amor nos meus olhos enquanto eu cuidava DELA.”

52 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

8 Comentários

  • Bem assim mesmo. Nunca vou esquecer do barulho do ar condicionado quando coloquei meus aparelhos. Perguntei ao fonoaudiólogo se ele ficava chiando assim mesmo. rsss. Pude perceber quantos tipos de sons já não era mais capaz de captar. Perdi cerca de 50% da minha audição, sofria muito com isso. Mas graças a Deus estou me adaptando aos aparelhos e minha vida está mudando bastante.

  • Lindo ?
    Ainda não uso os meus, mas só de prova-los fiquei boba, imagina quando iniciar o uso. Sei que não será como imagino, mas vai me fazer um bem danado, não vejo a hora!

  • Legal isso! Não me orientaram quanto a isso quando tinha 15 anos e descobri a perda. Muito pelo contrário,apresentaram o aparelho como o salvador da pátria e que viria a solucionar todos os meus problemas. Na época quando recebi foi uma desilusão só e pra completar ,os problemas não sumiram (além de um besta ter me enfiado a mão na orelha pra ver se doía /doeu e inflamou) xD

    Muito bonito o relato! Relaxar , querer facilitam muito na adaptação ! Ela é uma boa paciente. Queria ter sido assim no começo,fui uma reclamona de marca maior e demorei meses pra me adaptar. Ter a tranquilidade e maturidade dela é uma bênção /o/

    Boa sorte na tua carreira e ad melhores vibrações <3

  • Mari que felicidade ao ver que a Fonoaudiologia te encanta acaba dia! Que você mantenha o profissionalismo e cuidado com esses pacientes. E nunca perca essa doçura no olhar. Que o seu futuro seja promissor e brilhante.

  • Lindo depoimento!! Também tive um anjo de fono na minha vida!! Ela me fez voltar a viver com as outras pessoas e dá um pra lá no preconceito de pessoa surda!!

  • Linda, Mari!!!! Descreveu muito bem e eu estava lá fazendo outro atendimento, mas acompanhando tudo isso de pertinho e sendo testemunha do bem que a fonoaudiologia(audiologia) faz ao paciente e ao profissional! #fonoporamor

Deixe seu comentário