Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva Destaques

Será que sou surdo?

Foto: Shutterstock

Você já se pegou pensando ‘será que sou surdo?’ após repetidas reclamações das pessoas próximas de que você ouve mal ou não ouve as coisas? É absurdamente comum que as pessoas entrem em contato comigo na dúvida se são ou não surdas mesmo quando várias audiometrias dizem que sim. Não sei se esperam que eu mude o diagnóstico dado pelo otorrinolaringologista, mas a verdade é que fica cada vez mais claro o quanto a experiência com a surdez é parecida para a grande maioria das pessoas.

Tudo começa com aquela sensação esquisita de ‘por que não ouvi isso?’, ‘por que preciso pedir que as pessoas repitam as coisas?’, ‘por que coloco a TV num volume tão alto?’, ‘por que esse zumbido não me deixa em paz?’. Depois, ao procurar ajuda médica e receber o diagnóstico de perda auditiva, muitos entram em parafuso e partem para a primeira parte dessa jornada: a negação.

Chega a ser engraçado receber uma mensagem na qual a pessoa relata cinco ou dez situações repetitivas nas quais fica mais do que óbvio que ela tem, sim, uma perda auditiva mas, por algum motivo que nem Freud explica, o fato não entra na cabeça do cidadão. Vamos fazer uma comparação para deixar mais claro o motivo da minha perplexidade. Imaginem receber uma mensagem assim:

Oi Paula. Meu nome é fulana. O médico disse que estou acima do peso, mas acho que ele está equivocado. A balança acusou 75kg – meço 1,60 -, minhas calças jeans não entram mais, como muita porcaria, adoro refrigerante mas acho que houve um engano. Não é possível que justo eu, que não faço exercícios há anos e detesto frutas e vegetais, tenha engordado. O que você acha?

Pois é assim que leio as mensagens no tocante à surdez. Em geral, elas dizem mais ou menos o seguinte:

Oi Paula. Estou um pouco assustado pois hoje meu médico disse que tenho perda auditiva. Sinto muita dificuldade de entender as conversas quando várias pessoas estão falando, tenho zumbido, nem sempre entendo o que me dizem no telefone – isso quando escuto o telefone tocar -, escuto TV no último volume e minha esposa vive reclamando que eu não ouço quando ela me chama. Mas não sou surdo! Você acredita que o maluco do otorrino sugeriu que eu use aparelhos auditivos?

Alguém percebeu a semelhança no quesito negação em ambos os casos, ou fui só eu? 🙂

Já fui a pessoa que recebeu o diagnóstico e negou até onde pôde o fato de que escutava muito mal, que resistiu brava – e ridiculamente – a usar aparelhos auditivos. As consequências dessa atitude infantil?

Gastei energia à toa:

passei anos achando que fingia super bem que não tinha deficiência auditiva e, pior, passei anos achando que as pessoas não percebiam e que a minha voz era igual à de uma pessoa sem problema de audição.

Sofri à toa:

Não usei aparelhos em fases cruciais da minha vida, como o ensino médio e a faculdade. Por causa disso, sofri desnecessariamente. Foram centenas de vezes em que chorei porque alguém me perguntou se ouvi algo que não ouvi, foram milhares de “hãn?” que evidenciavam o que eu queria esconder. Foi muito stress e muita tristeza causados pela minha teimosia em negar que escutava mal.

Prejudiquei o meu cérebro à toa:

Está provado que aparelhos auditivos podem salvar o nosso cérebro! Quem precisa usar e não usa só faz comprometer mais e mais a sua capacidade de entendimento de fala.

Me tornei uma pessoa fechada:

Em vez de usar a tecnologia a meu favor tive a péssima idéia de ir me fechando cada vez mais, fugindo de interações sociais, escapando dos amigos e selecionando a dedo as pessoas com quem convivia. O que ganhei com isso? Nada!

Se você desconfia que está – ficando – surdo e se muitas pessoas próximas reclamam que você não ouve as coisas e os chamados, tenho um pedido: procure um otorrinolaringologista e faça uma audiometria. Se for constatado que você tem algum grau de perda auditiva, tenho outro pedido: trate-a. A vida é muito curta para ficar sofrendo por causa de algo tão banal e corriqueiro quanto usar aparelhos auditivos. 10% da população mundial tem algum grau de surdez, e as pessoas só não se tratam por dois motivos: negação/teimosia ou falta de condições financeiras.

29 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

1 Comentário

  • Paula, acompanho suas postagens e em geral compartilho das suas ideias. Nesse último “será que sou surdo” , acho que vc extrapolou um pouco. Vc quer provar que toda pessoa que tem deficiência auditiva (me incluo nesses) é surdo. Seria a mesma coisa que dizer que uma pessoa que tem um grau de miopia (meu caso) é cego e eu nem uso óculos. Acho que dá para conviver com perda auditiva, desde que ela não comprometa sua vida. É óbvio que se a pessoa é surda, não escuta nada, tem que procurar ajuda. Agora, deixar de escutar um comentário, perder alguma frase no telefone ou não entender uma dublagem na TV, não compromete a vida de ninguém. Acho que não é questão de negação mas com a idade as pessoas passam a conviver com uma série de impedimentos, que prejudicam a sua rotina normal, sem que isso se torne um obstáculo a uma vida plena. Parabéns pelo blog.

Deixe seu comentário