Crônicas da Surdez

Sobre a crônica Hein??, uma opinião

14/07/2010

Fiquei realmente impressionada com a quantidade de emails que recebi discordando da crônica da Martha Medeiros publicada no caderno Donna da Zero Hora do último domingo (transcrita no post anterior).

Quem convive diariamente com a surdez não gostou dos comentários um pouco simplistas. Um exemplo: “O surdo tem recursos. Aparelhos auditivos, leitura labial, linguagem de sinais. Ele só não socializa se não quiser. E se não quiser, tem o álibi perfeito. “Desculpe, não estou escutando nada”.

A pior parte da surdez é a solidão. Solidão causada pela dificuldade de socialização. Você pode ser um surdo sinalizado imerso num mundo de ouvintes e sem outros surdos sinalizados para conviver. Você pode ser um surdo oralizado cujas pessoas próximas não têm paciência para dialogar com você. Você pode ser um deficiente auditivo que não domina a leitura labial e nem usa aparelhos. Existem mil possibilidades. Num mundo perfeito, surdos sinalizados estariam imersos num mundo também sinalizado (com amigos e família fluentes em LIBRAS); surdos oralizados seriam integrados à sociedade ouvinte com facilidade – e as pessoas teriam paciência suficiente para repetir o que disseram quando necessário e articulariam os lábios com precisão. Infelizmente, não é assim que funciona. A vida real é bem diferente.

Selecionei alguns comentários pertinentes de leitores que quero dividir aqui com vocês:

“Dizer que “o surdo tem recursos (…) só não  socializa quem não quiser” é igualar todos os tipos de surdez como um só tipo. E não é bem assim, nem tão fácil assim. Muitas vezes, mesmo com todo o esforço que o deficiente auditivo faz para se comunicar, as pessoas não compreendem a perda auditiva, não têm paciencia com as limitações do surdo!”  Ana,  otorrinolaringologista  http://perdaauditiva.blogspot.com/

“O ator Michael J. Fox, que sofre de Parkinson, disse uma vez: “Um sábio reuniu várias pessoas com problemas e as chamou para jogarem tudo em um poço. Todas foram e jogaram, então o sábio diz: ‘agora vocês podem pegar qualquer outro problema  aí dentro do círculo, é só trocar’. Lá dentro haviam vários e diferentes problemas! Muitos se entreolharam e pensaram. Por fim, acabaram pegando seu próprio problema de volta“. Moral da história: cada um dá conta do seu, pensar em trocar  de lugar com outro pensamos, mas no final, todos estão na sua luta, e cada um que vê que dá conta da sua!”.  Greize

“Não enxergar me separa das coisas. Não ouvir, me separa das pessoas!” Marina, fonoaudióloga http://www.marinalikethis.blogspot.com/

Concordo 100% com a Marina. A surdez nos separa das pessoas. É uma luta constante e diária para compreender o que os outros dizem e para que eles compreendam nossas dificuldades e o que dizemos – ou quando não escutamos. É uma luta por compreensão, aceitação, integração.

E eu garanto que todos nós preferiríamos escutar os papos bobos dos quais os ouvintes tanto reclamam, do que ter somente a opção do silêncio. Banalizar qualquer deficiência é um perigo.

17 amaram.

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15 Comentários

  • Responder PAULA 13/08/2016 at 1:16 am

    AMEI SEU TEXTO E OS DIZERES DE MICHAEL J. FOX!
    MUITOS BANALIZAM O FATO DA SURDEZ UNILATERAL NÃO SER UMA DEFICIÊNCIA, COMO OCORRE NA LEI, ATÉ EXISTE ALGUNS MÉDICOS QUE BANALIZAM DIZENDO QUE UM OUVIDO SUPRE O OUTRO. UM ABSURDO! QUERIA QUE QUEM PENSA ASSIM ME DEMONSTRASSE COMO É ESCUTAR UM SOM COMO SE ESTIVESSE EM UM LUGAR E ESTÁ EM OUTRO SER SUPRIR.
    IMAGINA SE FOSSE UM ESTOURO? COMO AS PESSOAS SE PROTEGEM SE NÃO SOUBEREM PARA ONDE IR?
    UMA COISA É O QUE ESTÁ NA CONCEPÇÃO DE QUEM NÃO SOFRE DE SURDEZ UNILATERAL OU BILATERAL, OUTRA COISA É A REALIDADE DE QUEM NÃO PÔDE:
    –> PARTICIPAR DE UMA CONVERSA E RIR DE UMA PIADA COMO OS OUTROS,
    –>RECEBER UM ABRAÇO DE ANIVERSÁRIO E ESCUTAR CADA PALAVRA DITA COM CARINHO,
    –>ANDAR NA RUA COM AMIGOS E PODER PARTICIPAR DA CONVERSA,
    –>DORMIR SEM MEDO DE ALGUÉM CHAMÁ-LO POR AJUDA OU O DESPERTADOR TOCAR E A PESSOA ESCUTAR.
    –> ASSISTIA À AULA SEM DIFICULDADES DE ESCUTAR
    GENERALIZAR UMA DEFICIÊNCIA OU AGIR DE FORMA A COMPETIR QUAL DEFICIÊNCIA É PIOR OU MELHOR, SÃO ATITUDES INSENSÍVEIS E DESUMANAS. TODA DEFICIÊNCIA É RUIM NÃO EXISTE DEFICIÊNCIA PIOR OU MELHOR.

  • Responder PAULA SILVEIRA GARCIA NOVAES 13/08/2016 at 1:11 am

    AMEI SEU TEXTO!
    MUITOS BANALIZAM O FATO DA SURDEZ UNILATERAL NÃO SER UMA DEFICIÊNCIA, COMO OCORRE NA LEI, ATÉ EXISTE ALGUNS MÉDICOS QUE BANALIZAM DIZENDO QUE UM OUVIDO SUPRE O OUTRO. UM ABSURDO! QUERIA QUE QUEM PENSA ASSIM ME DEMONSTRASSE COMO É ESCUTAR UM SOM COMO SE ESTIVESSE EM UM LUGAR E ESTÁ EM OUTRO SER SUPRIR.
    IMAGINA SE FOSSE UM ESTOURO? COMO AS PESSOAS SE PROTEGEM SE NÃO SOUBEREM PARA ONDE IR?

    UMA COISA É O QUE ESTÁ NA CONCEPÇÃO DE QUEM NÃO SOFRE DE SURDEZ UNILATERAL OU BILATERAL, OUTRA COISA É A REALIDADE DE QUEM NÃO PÔDE:
    –> PARTICIPAR DE UMA CONVERSA E RIR DE UMA PIADA COMO OS OUTROS,
    –>RECEBER UM ABRAÇO DE ANIVERSÁRIO E ESCUTAR CADA PALAVRA DITA COM CARINHO,
    –>ANDAR NA RUA COM AMIGOS E PODER PARTICIPAR DA CONVERSA,
    –>DORMIR SEM MEDO DE ALGUÉM CHAMÁ-LO POR AJUDA OU O DESPERTADOR TOCAR E A PESSOA ESCUTAR.
    –> ASSISTIA À AULA SEM DIFICULDADES DE ESCUTAR
    GENERALIZAR UMA DEFICIÊNCIA OU AGIR DE FORMA A COMPETIR QUAL DEFICIÊNCIA É PIOR OU MELHOR, SÃO ATITUDES INSENSÍVEIS E DESUMANAS. TODA DEFICIÊNCIA É RUIM NÃO EXISTE DEFICIÊNCIA PIOR OU MELHOR.

    TAMBÉM AMEI AS PALAVRAS DE MICHAEL J.FOX.

  • Responder M 27/07/2010 at 12:43 pm

    Me identifiquei tanto com essa postagem. Realmente, é muito difícil de acompanhar uma conversa em um grupo. Eu não gosto de perguntar: É o quê? Hein? Do que vocês estão falando? pra não atrapalhar mesmo. Penso que me julgam chata, antipática e afins… A gente quer se entrosar, mas é preciso muita paciência e boa vontade com a gente mesmo. Meu próprio namorado, no começo, por mais que eu explicava, ele não conseguia entender isso, simplesmente achava que eu não queria entrar na conversa. E mais, brigávamos só por causa disso. Explicar como isso é difícil não é o suficiente para as pessoas nos entenderem, basta viverem pelo menos um dia da nossa vida para verem o quão difícil é.

  • Responder CLAUDIA AZEVEDO 24/07/2010 at 7:51 pm

    Lembro-me de uma reportagem feita pelo programa Fantástico da Rede Globo sobre um analfabeto que passou em um vestibular de uma certa faculdade da cidade do RJ. A reportagem falava de como um analfabeto passou em uma vestibular não sabendo ler e escrever perfeitamente.
    Sabe qual foi a resposta da faculdade?
    Iniciou no horário noturno um curso para pessoas analfabetas aprenderem a ler.
    Resposta, é isto, aprender com a deficiência e não justificar os erros.
    Que tenhamos com o texto da Martha um aprendizado te como tratar as pessoas com deficiência auditiva.

  • Responder Alê Marques 19/07/2010 at 9:22 pm

    Tudo bem que às vezes todos cometemos erros, mas a Martha Medeiros escreve em um veículo de informação e, conforme o nome, deveria se informar antes de discorrer sobre um assunto que não domina.

    Pior é que ela faz um comentário que acaba por magoar as pessoas. Bem, ela não deve ter nenhuma dificuldade, porque deficiências todos temos.
    Mas acho muito válido você nos chamar para a reflexão acerca desse texto, pois assim também olhamos nossas próprias atitudes e preconceitos. Tenho aprendido bastante sobre as particularidades das pessoas que possuem surdez, pouco sei sobre o assunto já que nunca conheci pessoa sem audição e, verdade seja dita, mas quando não nos deparamos com certas questões pouco nos esforçamos para ter algum conhecimento.

    Se tivéssemos uma educação inclusiva tudo seria mais fácil. Seu blog contribui para provocar essas mudanças. Acredito que as revoluções se dão do particular para o geral. Costumo repetir uma inquietação, discordo do ditado “uma andorinha só, não faz verão”, acho que nos ensinaram essa expressão para mantermos a passividade. Acredito que uma andorinha só, provoca uma fresta de sol, prenúncio de verão.

    Bem, quando eu tiver algum amigo surdo estarei bem informada para ser solidária.

    Um grande beijo,
    Alessandra

  • Responder Marcela Cordeiro 16/07/2010 at 3:38 am

    “A surdez nos separa das pessoas. É uma luta constante e diária para compreender o que os outros dizem e para que eles compreendam nossas dificuldades e o que dizemos – ou quando não escutamos. É uma luta por compreensão, aceitação, integração.”

    Existem pessoas que realmente não entendem que não é fácil ouvir, mesmo com essa tecnologia à nossa disposição. Não ligava para alguns casos de colegas de facul de não ter paciência em repetir o que não entendia, problema deles! Eu perguntava pra outra pessoa e essa repetia numa boa.
    Só que…com meu namorado foi diferente, no início ele não tinha mta paciência comigo, foi horrível guria! Várias vezes pensava em terminar namoro com ele, sofria muito por dentro, me magoava fácil, isso porque sou sensível demais, mas quanto mais a gente conversava e eu mostrava pra ele o quão complicado é pra mim, ele passou a ser mais compreenssível. Hj faz 4 anos que estamos juntos e a paciência que ele adquiriu comigo foi ótimo!rss

  • Responder Samara Correia 16/07/2010 at 1:32 am

    Olha é bem verdade, banalizar qualquer deficiência é uma caminho perigoso, é um caminho que pode levar ao pouco conhecimento sobre, e ainda a poucas políticas (tanto do governo quanto de cada pessoas) para ajudar a melhorar a vida de quem sofre.

    Eu claro, para tentar ver as coisas de uma forma mais divertida, as vezes falo para os meus amigos.. ” Ah eu tenho opção de não ouvir hahaha” e coisas do tipo… mas no fundo, a gente queria poder ouvir tudinho, igual quem tem boa audição.

    Eu fico pensado, se eu, que até escuto bem.. pq tenho um ouvido com boa audição, sofro para entender algumas pessoas, imagina quem tem deficiência em maior grau… não deve ser fácil. Poucas pessoas têm paciência para repetir.

    Bjus

  • Responder Camila B. 15/07/2010 at 6:06 pm

    Detesto quando não escuto algo na TV, no rádio ou de alguém ao vivo e, quando pergunto pra outra pessoa o que foi dito, a tal pessoa responde: “Ih, foi besteira, esquece”. Detesto: preferiria um zilhão de vezes ter ouvido a besteira. Detalhe: a pessoa que me dá essa resposta geralmente é um amigo/namorado/familiar, que SABE que tenho deficiência auditiva. Eles acham que fazem um favor!! Como se eu não tivesse direito de ter minha própria opinião sobre a besteira que foi dita. Fica difícil, realmente, não se sentir só em boa parte do tempo.

  • Responder Glauber 14/07/2010 at 11:33 pm

    Olá Paula !! Verdade a solidão é o maior empecilho a enfrentar para o surdo, mesmo que a gente esteja no meio das pessoas é complicado e dificil acompanhar a conversa, não é todos que tem a paciencia de falar olhando para gente de forma que possamos entender, ou esquecem e também tem preguiça, por isso no meio social não se socializamos porque não queremos, só não enxergam a gente quem não quer, aí acabamos ficando solitarios, e procurando uma coisa no meio da multidão para se concentrar, porque senão pira a cabeça, eheheheh, gostei da sua opinião, e me identifico com as experiencias que vc escreve no seu Blog, parabéns pelo que escreveu, e continue assim, escrevendo de forma bem compreensiva e excepecional.

  • Responder Greize 14/07/2010 at 7:40 pm

    huhuuu fiquei sua fã..rsrsr.FALOU TUDO.Escreve ao blog da Marta por favor issoooo.Sobre a solidão então nossa, é isso, nós queremos comunicar sim mas tem gente que não quer e nem tem paciência.Dai temos 2 lutas surdez , e solidão!!bjos Milll

  • Responder carol_carolina (Carolina de Souza) 14/07/2010 at 6:27 pm

    RT @cronicasurdez: No ar no @cronicasurdez: Uma opinião sobre a crônica da Martha Medeiros sobre a surdez http://tinyurl.com/2fftj3f

  • Responder fewieser (Fernanda Wieser) 14/07/2010 at 5:37 pm

    RT @cronicasurdez: No ar no @cronicasurdez: Uma opinião sobre a crônica da Martha Medeiros sobre a surdez http://tinyurl.com/2fftj3f

  • Responder Carolina Werner 14/07/2010 at 4:09 pm

    Oi Paula!
    Quero antes de tudo te parabenizar pelo blog. Ja acompanhava no outro e confesso, que foi com um pouco de curiosidade que comecei a te acompanhar por aqui.
    Acho muito pertinente teus comentarios e relatos sobre a surdez. É muito esclarecedor e ajuda os “não-surdos” como eu a ter um outro olhar para os deficientes auditivos.
    Sobre a Martha Medeiros, nunca fui muito fã dos textos dela, pq no meu ponto de vista, pessoas ditas intelectuais e com influencia direta na midia e na populacao como ela, devem ter um compromisso social muito claro e de forma a beneficiar e esclarecer as pessoas como um todo. Acho simplesmente um absurdo e uma falta de sensibilidade sem tamanho o que ela escreveu. Mas felizmente temos pessoas como tu e as outras leitoras que mandam relatos lindos e muitas vezes engracados sobre as dificuldades reais do dia-a-dia do deficiente.
    Continua com esse teu trabalho lindo que o sucesso ja é garantido!

  • Responder Tweets that mention Sobre a crônica Hein??, uma opinião -- Topsy.com 14/07/2010 at 4:01 pm

    […] This post was mentioned on Twitter by Fernanda Wieser. Fernanda Wieser said: RT @cronicasurdez: No ar no @cronicasurdez: Uma opinião sobre a crônica da Martha Medeiros sobre a surdez http://tinyurl.com/2fftj3f […]

  • Responder Carol Heinrichs 14/07/2010 at 3:40 pm

    Parabéns pelas palavras Paula!
    Mesmo não sendo deficiente, me envolvi com o texto e muitas vezes me vi com os olhos cheios de lagrimas.
    Nenhuma deficiência é simples ou fácil, assim como nenhum problema é. É fácil julgar o que não te atinge, o que você não conhece.
    Só quem passa por aquilo sabe a dor que se sente. E isso pode ser qualquer situação ou problema do dia a dia. Pra uns pode ser fácil, mas pra outros pode acabar com uma vida.
    Admiro que tem sensibilidade de se colocar no lugar dos outros e isso hoje em dia é um tesouro. O que pelo visto faltou (ou falta) na vida desta senhora.
    Beijos e mais uma vez parabéns!

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