Quem me passou esse link foi o Gui Chazan (thanks, Gui!!). Assisti esse documentário americano há muitos anos, e acho que ele exemplifica bem a questão dos pais de crianças surdas darem a elas a chance de ouvir – se elas não quiserem ouvir mais quando crescerem, basta desligar o IC; não dar a chance de ouvir quando a criança clama por isso é um crime, na minha opinião. Penso que não há nada que justifique deixar uma criança presa no silêncio quando ela quer experimentar o som.
Abaixo, o vídeo que mostra a família depois que até a mãe, fervorosa defensora da língua de sinais, decidiu optar pelo implante coclear e por ouvir (infelizmente esse não tem legendas em português!)
Acessem o blog Igualmente Diferentes, da Diefani Piovezan, e leiam uma entrevista com a menininha do documentário Som e Fúria, que brigou com a família porque queria fazer o implante coclear – e teve o apoio dos tios e avós! No fim, após o sucesso do IC dela, até os pais ficaram curiosos com o quanto ela se apaixonou pelo som e eles mesmos, que odiavam a idéia, fizeram também o implante coclear.
Hoje ela é uma adulta cursando uma das mais prestigiadas universidades americanas. O link é esse (a entrevista original em inglês está aqui). Vocês vão se surpreender com o quanto ela transita numa boa em ambos os mundos (surdo e ouvinte) sem mostrar fanatismo por nenhum deles.
Por fim, acho muito curioso que apenas na deficiência surdez a questão que trata sobre devolver um sentido/capacidade à criança venha à tona. Os pais de crianças com quaisquer outras deficiências não hesitam em buscar a tecnologia para restaurar a saúde do seu filho. Acho que os vídeos acima exemplificam bem que a língua deve servir à criança, e não o contrário. Se os pais da Heather não tivessem permitido que ela fizesse o IC, teria sido por um único e egoísta motivo: mantê-la presa no mundo dos que não ouvem, quando o que ela mais queria era fazer parte do mundo do som E do silêncio.


Nos anos 80, quando eu tinha uns 2 ou 3 anos de idade, meus pais consultaram os médicos dos EUA. Os médicos aconselharam para que não fizessem o IC em mim, eles argumentaram que a tecnologia ainda estava engatinhando e que não valeria a pena colocar, disseram para esperar a tecnologia evoluir. Então meus pais colocaram os AASI nas minhas orelhas. Com eles eu pude experimentar como eram os sons, e não gostava muito deles. Hoje agradeço aos meus pais por não terem me implantado, pois eu escolhi não ouvir. Isso ocorre porque eu pude experimentar o som, os meus pais me deram a oportunidade de experimentar com os AASI. Então eu posso fazer a minha escolha entre o silêncio e o som. Posso garantir que não faz a menor falta na minha vida, afinal levo a vida completamente normal.
Se eu tivesse um filho surdo, nunca iria privá-lo de experimentar o som. Só depois de experimentar, ele poderá fazer a escolha entre ouvir ou não, a felicidade dele será mais importante!
Maria, eu passei por uma situação similar à tua, mas anos mais tarde. Em 2001, quando eu tinha 14 anos, meus pais descobriram sobre o implante e me perguntaram se eu queria fazer a cirurgia. Eu usava AASIs nas duas orelhas e que eu lembre, meu desempenho com eles e sem eles não variava muita coisa, era pura leitura labial.
Isso em 2001, 2 décadas depois do que vivenciaste. A tecnologia mais avançada continua sendo o IC e o som que ele proporciona é muito melhor que os AASIs da década de 80. Aliás, os AASIs melhoraram desde então. Viste o filme “O Poder da Esperança”? Aparece um pouco disso.
Enfim, contrapondo tua experiência, eu optei pelo IC. Te garanto que a diferença é tremenda. Eu entendo algumas pessoas sem precisar de leitura labial e se tivesse feito mais cedo, com 2, 3 anos, o resultado teria sido muito melhor, conforme é dito no “Som e Fúria”.
Acho acertada tua decisão de deixar teu filho hipotético experimentar o som, mas se for surdo profundo, por que não deixar que experimente com o IC? Se ele optasse por ouvir, vai ter tido o ganho do IC desde cedo, o que não é pouca coisa. Se ele optasse por não ouvir, poderia parar de usar. O tempo é um fator importante para o desempenho auditivo com o IC.
Realmente os ASSI dos anos 80 e 90 eram ruins de ouvir. Eu entendia melhor os sons no ouvido esquerdo quando alguém falava no meu ouvido do que o som do aparelho, a diferença da qualidade do som era gritante. O ruim para mim dos aparelhos estava na alergia aos moldes, o ouvido ficava irritado e machucado de tanto coçar, por isso que ao deixar de usar os ASSI me trouxe alívio. Experimentei vários tipos de moldes ditos hipoalérgicos, não adiantou, tive alergia com todos. Dez anos atrás dei uma segunda chance para os aparelhos, e a experiência só comprovou que eu não queria escutar. Não gostava dos barulhos do ambiente, tirava a minha concentração nos trabalhos de arte e desenhos. O que achei mais engraçado foi que eu sempre soube como eram os sons dos objetos só pela vibração e nenhum barulho do ambiente era novidade para mim, então não tive aquela sensação de descoberta do mundo que muitos surdos falam ter. Eu já “escutava” pelo corpo. Fora que não consegui ver nada que pudesse acrescentar na minha vida com o uso dos aparelhos, talvez seja porque eu já tivesse superado um monte de coisa. Eu adoro ser surda e sou muitíssimo feliz.
Mas se eu tivesse um filho surdo, não sei se optaria pelo IC, porque eu morreria de pena de ter que operar uma criança tão pequena.
Tiveste azar de seres alérgica aos moldes, mas é bom saber que estás bem assim.
Quanto a operar uma criança tão pequena, essa é a dor de muitos pais. Claro que dá pena de ver uma criança pequeninha e indefesa ter de passar por uma cirurgia, mas eles também pensam no que a criança tem a ganhar. Os prós, que são para a vida toda, superam os contras, que no caso da cirurgia, é momentâneo.
Cada pessoa é diferente né? Cada um fica melhor do seu jeito, assim como você com o seu IC e eu sem nada nas orelhas. Por isso que o mundo é interessante com a sua diversidade!
Por causa da experiência da minha vida, não consigo enxergar a “obrigatoriedade” da operação para o implante numa criança tão pequena. Talvez eu iria querer tentar outras coisas antes, para mim o IC seria o último recurso e prefiro que seja a vontade da criança, do que EU impor uma cirurgia tão delicada nela. Acho que tudo depende da forma de como a criança se adaptaria ao mundo, da visão dela. Não dá para generalizar as crianças surdas, de acordo com a minha experiência na minha vida, cada uma pode ter capacidades diferentes. Já tive uns dois coleguinhas surdos na escola de ouvinte e não tiveram a mesma adaptação que eu, enquanto eu tirei de letra em tudo. Eu era considerada a melhor aluna de toda a escola, só tirava nota máxima nas provas mesmo não ouvindo nada na aula e nem precisava prestava muita atenção no que os professores falavam, fora que eu ensinava as matérias para os colegas ouvintes, mas os outros surdos tiveram muita dificuldade no desempenho escolar. Por isso que prefiro prestar atenção em como a criança poderá ser, a capacidade dela, se vai ser necessário o IC. Se ela for igual a mim, acho que não vai precisar, mas se precisar para ter qualidade de vida posso pensar no assunto.
Mas sinceramente, não iria querer que o meu filho fosse surdo para não ter que passar por tudo que eu passei na infância. Seria como rever o filme do início da minha vida. Lembro que quando eu queria brincar, mas não podia porque tinha que fazer 5 horas diárias de terapia depois da escola. Fazer o quê? Se for surdo, não tem jeito, tem que trabalhar em cima dele.
Muito interessante esse documentário, levanta questões muito presentes na sociedade, sobre o medo, o preconceito, mas principalmente sobre como se posicionar a respeito da questão “surdo” e “ouvinte”, ou ainda “surdo oralizado”.
Como julgar a atitudes dos pais contrários e a favor do implante coclear? Realmente nos leva a pensar muitas coisas.
Parabéns pelo blog.
Oi Paula, novamente não posso deixar de dar minha opinião.
Me incomoda muito o fato de a mídia divulgar o IC como a “cura” da surdez. Isso, para mim, não existe!!! Não é qualquer surdo que pode fazer a cirurgia, e o resultado varia muito de pessoa para pessoa. Mas quase ninguém comenta isso!!!!
Conheço surdos que fizeram a cirurgia e não conseguiram ouvir ou os sons que conseguiram ouvir são sons que não fazem sentido nenhum, pois elas não conseguiram ouvir a fala de outras pessoas ou músicas, por exemplo.
Além disso, a cirurgia é muito agressiva, podendo deixar sequelas no implantado, e sequelas graves! Por que ninguém divulga isso???
Se eu tivesse um filho surdo iria sinalizar para ele desde o nascimento e jamais o levaria para colocar o IC. Eu acredito que a língua de sinais garante uma vida plena.
Por que só linguas de sinais? Não pensa na possibilidade de dar o poder da fala à criança surda?
Eu não escuto absolutamente nada, nem uso aparelho e consigo falar muito bem português, e ainda sei falar italiano, alemão e inglês! É possível aprender a falar através de estímulos! É graças ao ato de falar com som que tenho vida completamente normal e posso conviver com os ouvintes que não sabem falar em língua de sinais.
Outro dia conheci um músico, foi bem difícil de explicá-lo o porquê de eu conseguir falar bem mesmo sem escutar nada. Para ele eu tinha de escutar alguma coisa para conseguir falar, mas não é bem assim! Foi resultado de muito trabalho e terapia na fonoaudiologia.
Eu sou a favor da Libras, mas não sou contra a oralização! Acho que é importante o surdo falar e aprender a língua escrita, sim!
Mas acredito que a língua de sinais deve ser aprendida o mais cedo possível, quando a pessoa ainda é bebê.
Concordo com a Paula que os surdos devem aprender a língua falada e escrita de seus países.
Se a criança aprender libras antes de aprender a falar, pode não conseguir aprender a falar direito. Isso ocorre porque o ato de falar, expressar por voz, é muito mais difícil do que mover as mãozinhas. Aí a criança pode se acomodar e falar em sinais, uma criança tão pequena não vai ter a noção da importância da terapia para aprender a falar.
Eu lembro de quando me agarrava nas portas para não ir na fonoaudióloga. E os meus pais tinham de fazer malabarismos para me acalmar e deixar que eles trabalhassem comigo.
Eu penso que toda criança surda deve aprender a falar primeiro, se quiser pode aprender depois as linguas de sinais.
Ana,
Se você for a qualquer centro de excelência em cirurgias de IC no Brasil, vai ver que os casos de insucesso são praticamente nulos perto dos casos de sucesso. E o que a cirurgia tem de ‘agressiva’?? Qualquer cirurgia é sujeita a riscos, disso, todo mundo sabe quando entra pra faca. Rsrsrs!
Você me disse uma vez que é ouvinte, então, você tem certeza absoluta mesmo de que não daria a chance para o seu filho ouvir caso fosse possível? Bom, eu daria para o meu filho essa chance com a mais absoluta certeza, porque ouvir é maravilhoso. Mas, cada um, cada um.
E o Crônicas é voltado para quem gosta de tecnologia e quer ouvir…não tenho nada contra a Libras, mas ela não é o foco aqui. E ela também não faz sentido para pessoas que, como eu e outras tantas, perderam a audição aos poucos ou depois de já ter a sua língua materna (português).
Bjos,
Sei que qualquer cirurgia apresenta riscos ao paciente, mas a cirurgua do IC chega muito perto do cérebro!!! Isso me assusta, confesso.
Sou como a Maria, tentaria outras opções no lugar do implante.
Sei que o foco aqui não é a Libras, mas gosto de ler seus posts e admiro sua luta pelos direitos dos surdos oralizados!
Ana, a mídia botou muita ênfase na palavra “cura”. O IC não é a cura da surdez, porque como disseste, nem todos podem fazer. Até os que implantaram “voltam” a ser surdos quando desligam o processador.
Mas o IC possibilita que muitos surdos tenham ganhos auditivos bons – alguns praticamente tem a audição reestabelecida plenamente, enquanto que para outros o ganho não é tão grande – e facilite muito a comunicação com ouvintes. Para muitos, essa facilitação já é uma conquista, pois muitas vezes o importante é entender e ser entendido, não importa se a voz ou a audição são imperfeitas.
Essas pessoas que implantaram que mencionas podem ter tido uma expectativa que o IC faria um milagre e sairiam ouvindo e entendendo tudo. Isso não acontece e elas se frustram, mas não quer dizer que não tenham tido ganho com o IC, só significa que ele é menor que o esperado. É importante que a expectativa não seja muito alta para evitar a frustração.
É isso mesmo, Gui. Acredito também que a frustração é causada pelo implante ser divulgado e, consequentemente, visto como a cura da surdez.
Eu acho que deveria ficar mais claro que a cirurgia pode não dar certo para todos os surdos.
E é isso que você disse, se o implantado desligarem o processador, “volta” a ser surdos (mas será que eles deixam de ser?).
Não, a cirurgia não passa nem perto do cérebro, a cóclea fica antes do osso do crânio.
Se informe um pouco mais, antes de continuar espalhando abobrinhas que você ouviu falar, de gente contrária ao IC, que na verdade, está é preocupada com a cultura surda e não com a qualidade de vida das crianças deficientes auditivas.
Ser contra o IC é um direito, mas com argumentos reais e não por conta de lendas espalhadas por gente leiga que usa o medo como arma de controle.
Eu sou mãe da Isabela, surda profunda bilateral, ela está fazendo exames e fazendo uso do aparelhinho por tres meses… na fila para o Implante Coclear no Hospital Universitario em Florianopolis/SC, pra mim a linguagem de sinais será uma opção pra ela mais tarde, neste momento quero muuuito que ela tenha esta oportunidade, quero muito ouvir a voz da minha pequena, tenho certeza que a cirurgia dará certo e ela vai ouvir muito melhor.
O mais importante para a sua filha é falar! Usar um meio universal de comunicação em que todos compreendam, o ato de falar! A lingua de sinais é limitada, porque não é todo mundo que entende e sabe, é o ato de falar com a voz que vai dar a liberdade e independência. Desejo muito sucesso para a sua filha! Mas isso só vai depender do seu envolvimento na terapia da sua filha. A minha mãe me ensinou a ler, escrever e falar aos 3 anos!
Viviane, sucesso para vc e a Isabela!
A equipe no HU é fantástica!
Abraço,
Samira
Fiquei deficiente auditivo com 41 anos de idade, foi subito, gostava de ouvir musica, dançar conversar etc,
de um momento para outro,perdi o gosto de viver, no entanto,superei a crise, hoje, depois de 35 anos como deficiente auditivo, sou uma pessoa muito mais equilibrada,a Internet melhorou muito minha qualidade de vida, é verdade, vivo melhor que antes.
Obrigado por compartilhar o vídeo! Já tinha um tempo que eu estava tentando achar no youtube. Minha irmã assistiu no canal pago, e me recomendou. Valeu!!!