Aparelhos Auditivos Histórias dos Leitores

Superando a vergonha de usar aparelho auditivo aos 39 anos

‘Meu nome é Gerson Silva do Amaral, sou graduado em Administração. Me lembro bem do começo da minha perda auditiva, não foi algo instantâneo e súbito, foi um processo longo e gradativo de perda e isolamento. Foi aos 17 anos que comecei a me dar conta que algo estava estranho, que faltava alguma coisa. Então aos 19 veio o baque, descobri que precisaria usar aparelhos auditivos bilateral. Esse resultado, que para mim era quase uma sentença, foi dado em São Paulo, cidade em que eu trabalhava na época. Eu possuía plano de saúde, mas a consulta ao otorrino não foi coberta pelo plano, me lembro como se fosse hoje, a consulta foi uma fortuna e o médico me disse algo que eu pagaria outra fortuna para não ouvir: “Tens que usar aparelhos”.

Voltei para minha cidade natal, Vitória – ES, onde atualmente resido, procurei os melhores otorrinos da região, que me disseram as mesmas coisas que não queria ouvir: “Tens que usar aparelhos”. Saí com indicação de empresas que trabalhavam com os temidos aparelhos. Eu fui em vários otorrinos, e não confiava, ou melhor, não queria acreditar no que me diziam, pois todos diziam a mesma coisa: “Tens que usar aparelhos”.

Olho o passado, vejo a quantidade de experiências que perdi, era muito novo, possuía toda a resistência a usar o aparelho auditivo, tudo porque eu era muito jovem, muito inocente e muito leigo. Minha família, pensando me ajudar, apoiava a minha resistência ao aparelho. Eu era um atleta. Corria, surfava, pedalava muito, dos 13 aos 16 anos competidor da caloi cross, então imaginem o quanto a vaidade e o orgulho me subiam à cabeça. Eu não conseguia aceitar. Como um atleta que competia em campeonatos de surf poderia usar aparelhos? Eu nem imaginava a possibilidade de usar um aparelho sobre a minha prancha de surf.

Tentei levar a vida social e profissional, mas tinha muita dificuldade de ouvir as pessoas, entender as palavras. Vou contar um caso simples, uma vez confundi a palavra “faca” e “vaca”,seria engraçado se tivesse sido uma única vez. Sempre estava perguntando – queeeeeê? – tentando de alguma forma compreender as pessoas, já que negava com todas as minhas forças as palavras: “Tens que usar aparelhos”.

Até que uma pessoa mudou minha vida e para a melhor. Aos 23 anos conhecia a mulher que hoje é minha esposa, um encontro que acredito ser obra do destino, pois não consigo imaginar quem eu seria hoje sem a ajuda e compreensão dela. No primeiro dia em que a encontrei avistei nela um aparelho auditivo, não sei descrever a vergonha que tive, mas reuni toda a coragem, e todo envergonhado contei minha história para ela. Eu senti que pela primeira vez não estava sozinho, podia perceber que ela entendia o que eu sentia. Ela ouviu toda minha história, me apoiou, me guiou no processo de uso dos aparelhos. É nela que busco orientação, sempre que estou pra baixo posso contar com ela para me levantar. Bom, gostaria de falar mais sobre ela e sua perda auditiva, mas acho que não estamos prontos ainda, espero no futuro conseguir e que vocês estejam disposto a ouvir.

E aos 39 anos, após duas décadas de resistência, com a ajuda de minha esposa e de um terapeuta consegui começar a usar aparelhos, foi uma grande vitória sobre o orgulho, a vergonha, a vaidade e preconceito. Hoje sou uma nova pessoa, consigo ouvir o mundo e sou muito grato a essa maravilha TECNOLÓGICA que é o aparelho auditivo por me devolver os sons do mundo.

Seria o final perfeito, se não fosse um problema: eu ainda sou um atleta, gosto de ir à praia e pegar uma onda, ouvir o barulho das ondas quebrando sobre a prancha, conversar com os amigos surfistas em cima da prancha enquanto vemos o sol nascer, ou quase isso. Já que meus aparelhos auditivos não são a prova d’agua, até as pequenas coisas me são privadas. Meu filho fez 4 meses em dezembro de 2015, quando fui para a piscina com ele não podia ouvir seu sorriso ou suas palavras de alegria por estar em um ambiente que me é tão querido, meu sonho é daqui a alguns anos levar o Miguel para surfar comigo, mas volto a sentir os fantasmas do passado quando imagino que não vou poder ouvir a voz dele na praia. Atualmente sou um competidor de Moutain Bike, algo que exige muito treino e dedicação, um atleta treina mesmo nos dias de chuva. Entretanto quando vejo o céu nublado sei que terei de guardar meus aparelhos em um saco plástico, que vou ficar sem ouvir o som dos carros que passam, os conselhos do técnico e dos outros ciclistas. Nessa situação, realmente me sinto muito mal de treinar, então isso afeta meu desempenho como atleta. Acredito se eu possuise um aparelho a prova d’agua, que me permitisse ouvir na chuva enquanto pedalo minha bike, na praia enquanto pego onda com os amigos e na piscina junto ao meu filho, minha vida como atleta e meu convívio social seriam muito melhores, poderia agir naturalmente, sem preocupações e medos que tenho. Gostaria até de fazer um comercial e ser patrocinado por alguma marca de aparelhos à prova d´àgua para a prática do meu esporte favorito, mountain bike. Agradeço a oportunidade de contar minha história e as pessoas que estão lendo ela. Obrigado!

Face: Gerson Silva Amaral |Instagram @amaralmtb”

 

cronicas surdez surf

75 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

16 Comentários

  • Lindo o relato! Emocionante história de sucesso e superação! Sou amiga da Luciana, esposa do Gerson, desde a infância. Compartilhamos as dificuldades na escola, e hj somos mais q vencedoras! Deficiência não impede de realizar os sonhos! Superação sempre!

  • Gerson ! Como fico feliz que você esteja se superando !
    Lembra-se da faculdade ? Eu sempre conversava e te dava atenção mais de perto e sorte que eu falava mais alto ( mania de italiana, rs). Nunca entramos no assunto,mas eu compreendia a você e a Luciana ! Você ainda vai poder escutar os gritinhos de alegria do Miguel na piscina meu amigo ! Que Deus abençoe essa linda família grandiosamente !!! Sua turma C estará sempre unida em todos os momentos para te apoiar viu !

  • Todo dia leio aqui para sentir motivação, e confesso que mesmo relendo os textos as lágrimas aparecem. Ao menos algumas pessoas passam pelo q passo, e sentir que não sou a única me dá algumas forças.
    Parabéns por esse blog Paulinha, não desista de nós!

  • Lucas, vc inverteu a coisa, que deu dicas valiosas sobre o IC 100 % a prova dágua , fui eu, o Dival, logo acima, pois pratico windsurf e sonho com um aparelho desse , para velejar ligado nos companheiros de bordo, e de tantop pesquisar sei muito sobre o mesmo.
    Abraço

  • Meu caro amigo Gerson,
    Sou praticante MTB tenho uma caloi elite 30, mais por hobby, temos um grupo PEDAL LIVRE, incentivamos o esporte e curtindo a natureza ao mesmo tempo interagindo com as pessoas e fazendo novos amigos.
    Por enquanto, uso aparelho retroauricular no lado esquerdo e já estou vendo a possibilidade de usar o implante coclear no lado direito.
    Confesso que é um algo estranho sim, um negócio pendurado nas orelhas, chama atenção dos outros mais nos homens, que usa os cabelos curtos já nas mulheres usam cabelos longo, assim elas camuflam os aparelhos. Mas a sensação de estar ouvindo faz vc esquecer que está carregando esses aparelhos.
    A minha comunicação é sempre mantendo o foco a uma pessoa para ter um bom diálogo. Mas ainda tenho uma limitação, quando saio fazer pedal noturno com amigos mais para um passeio e o percurso é sempre em vias rurais, estradas escuras fica difícil conversar com as pessoas, além do ruído do trajeto e não vejo o rosto para fazer leitura labial e tentar comunicar com a mesma. Como sou uns dos organizadores do grupo, então fico de ‘rabo’ (sempre fica um na frente puxando pedal e um de rabo para não deixar afastar e dando apoio ao grupo), evito conversar com pessoas que não conhecem minha limitação, como sou de rabo sempre estamos comunicando na base de gritos com quem está lá na frente puxando pedal e vice verse, assim nós vamos se divertindo.
    Quando fazemos um pedal treino, aí nem dá para ficar conversando mesmo, só fazemos uma pausa e conversa breve e seguimos treino. Pedal com chuvas, é muito bom aumenta adrenalina, os parelhos de hoje e mais resistente a agua, quando vejo que pode chover durante o pedal amarro um lenço na cabeça que cobre o aparelho e depois coloco o capacete, até o momento deu certo rsrss. Pretendo esse ano fazer alguma prova competição amador, só para desafiar os meus limites, já vi que alguns eventos têm categoria para PNE/PCD, de início pretendo participar nessa categoria só para sentir na pele o espirito de competidor.
    O meu medo de usar o IC era que eu tinha que parar de praticar o MTB, no qual encontrei o prazer da vida, estou nesse esporte a um ano e meio, e vc me ajudou a tomar a decisão de usar o IC, sou muito grato a vc!!!

    Meu Face – Lucas Silveira
    Face do grupo – Pedal Livre Tatuí – SP
    e-mail – lukinhasilveira@hotmail.com

    • Caro Lucas,

      inicialmente emu abraço, fico feliz em saber que gostou. Sua história também é de superação, parabéns por administrar o grupo de pedal. Penso a médio prazo na cirurgia do IC a Paula P. Feifer me sugeriu pq minha perda auditiva é muito profunda.

      Quando quiser está convidado para um pedal aqui no Morro do Moreno Vila Velha-ES.

      Abs
      Gerson Amaral

  • Gérson , essa sua história e a vontade de praticar esportes ouvindo ao redor , bate com a minha, portanto leia meu relato e corre atrás, do aparelho de IC Neptuno.Este permite ser surfista, pois sou windsurfista, já veterano, e pesquisando ví que uma atleta velejadora de nível oceânico, levou varios meses no mar , cruzando diversos países numa regata longa, tomando chumbo grosso no convés( ondas fortes) , auxiliando seus companheiros de regata, e sempre usando sua prótese de IC ( mas me liguei , acho que não é seu caso) mas taí o relato, se for , serve de exemplo. Se souber de algo sobre o IC citado , por favor , me relate , pois preciso de um urgente , mas não posso pagar.

  • Oi Gerson! Que bom que você superou a vergonha e pode assim ter mais qualidade de vida. Tenho 54 anos e uso aparelho desde os 19 anos, quando descobri que eu era surda. Hoje uso o impante coclear no ouvido esquerdo e um aparelho no ouvido direito. Meu implante é da marca (C0chlear) que tem um acessório que nos permite mergulhar com ele e assim podemos ouvir perfeitamente até debaixo d’água. Meu aparelho é da marca Phonac, modelo Naída, com o qual posso pegar chuva e também transpirar bastante, que ele resiste. Com ele só não posso mergulhar. Quando eles não estão nas minhas orelhas, estão no desumificador, e faço sempre manutenção contra oxidação.
    Se a perda for leve, tem também o modelo Liric (Phonac), que fica embutido dentro do canal auditivo, que também é muito interessante.
    Faça uma avaliação com seu otorrino e se você tiver indicação para o implante, sua vida vai melhorar muito, tenha certeza. Caso contrario, procure um aparelho com mais tecnologia, que vai te ajudar muito.
    Um abraço,
    Nara Lobato.

  • Gerson, li sua história e me emocionei. Porém, pior do que usar o aparelho auditivo, mas muito pior mesmo, é não ouvir. Falo isso por experiência própria. Fiquei surda com quase 54 anos, por uso de antibióticos. Aí estive depois de um ano, no HCFMUSP, e lá me deram um aparelho de audição. Meu Deus, era a única coisa que eu queria. OUVIR! Mas não ouvia nada. E em dezembro de 2011, fiz a cirurgia do implante coclear, que me faz ouvir, graças a Deus. Nunca tive vergonha de usar o aparelho de audição. Para mim, era difícil conviver com pessoas e não as ouvir. Que vc seja forte e nunca tenha mais vergonha de usar o aparelho que te faz ouvir e VIVER! Um forte abraço.

  • Prezada Paula P.Feifer,
    inicialmente meu abraço, nenhum dever é mais importante do que a gratidão. Hoje eu quero agradecer por tudo que fez por mim e sei que continuará fazendo.
    Tenho uma gratidão enorme por você e uma admiração e carinho as pessoas que buscam informações no seu blog.
    Te desejo todo sucesso do mundo.
    Abraços,
    Gerson, Luciana e Miguel.

  • Bela história de superação e amor a vida! Somente o verdadeiro amor pode explicar as boas mudanças que tomamos em nossas vidas! Assim vejo no Gerson, Amor!
    Que o Senhor Deus te abençoe sempre, te fazendo avançar ao alvo certeiro!
    Beijos de sua irmã Leidiane.

  • A história do Gerson é muito comum na nossa cultura pois, historicamente, as deficiências eram associadas à castigos de Deus ou a imperfeições que precisavam ser escondidas. Daí o fato das famílias tentarem escamotear o problema.
    Ao escrever sobre sua história, Gerson torna se uma boa fonte de reflexão para pais, professores e demais pessoas! Parabéns Gerson!

  • Este cara é demais . Tenho certeza que seu sonho de um aparelho que possa ser usado também na água , transformará em uma pessoa melhor, ainda mais agora podendo ouvir Miguel, seu filho.

Deixe seu comentário