Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

A surdez é como uma impressão digital

A surdez é como uma impressão digital. Essa é a melhor analogia para explicar o fato de que cada surdez é única para cada pessoa que me escreve ou me procura em busca de soluções mágicas. Ninguém passa pela deficiência auditiva incólume, e arrisco dizer que, se estamos nesta vida para evoluir e aprender algumas lições, ela veio para nos ensinar o significado de esforço. Não existe escapatória: se a surdez surgir na sua vida, você precisará se esforçar MUITO.

  1. Acostumar-se a ouvir com aparelhos auditivos é desgastante? Check!
  2. Acostumar-se a ouvir através de um implante coclear cansa? Check!
  3. Testar dois, três, quatro aparelhos até decidir qual comprar é cansativo? Check!
  4. Invejar a audição do amigo que usa o AASI que você queria é feio? Check!

Desista das comparações

Se eu puder dar um conselho, seria esse: desista das comparações. Se fulano ouve e discrimina a fala humana com o IC/AASI “X”, isso não significa que será assim com você. Se beltrano está amando o AASI “Y”, isso não significa que você também amará. Se ciclana conseguiu falar ao telefone após dois meses de implante, isso não quer dizer nada no seu caso. Se fulana ouve música e entende a letra na mesma semana em que começou a usar aparelho auditivo, isso não lhe dá garantia alguma de que também conseguirá fazer isso. Se a bateria de alguém dura um dia a mais que a sua, e daí?

Acho que precisamos, mais do que tudo, nos espelhar nas pessoas cujos resultados nos inspiram a querer ficar bem como elas conseguiram.

Mas é preciso ter em mente que não há garantias quando falamos de deficiência auditiva. Lembro do meu médico gaúcho me dizendo que, depois que me operei, as pessoas chegavam no consultório e diziam para ele: “Quero ficar que nem a Paula“.  Cara, eu daria qualquer coisa para que todo surdo severo-profundo que encara um IC tenha um resultado maravilhoso.

Mas a natureza não garante isso, o médico muito menos e nem a tecnologia poderia. É uma conjunção de fatores única. Não dá para prever. Não dá para comparar. Não dá para fazer estimativa. A única coisa que dá para fazer é arriscar – e eu arrisco dizer que você troca meia dúzia de células ciliadas que ainda restam por coisa bem melhor que isso!

Esforço e readaptação

O que se pode e se deve fazer é, além de torcer pelo melhor, SE ESFORÇAR. Digo isso porque o que mais vejo são pessoas derrotistas, que ficam reclamando de tudo o que envolve que elas façam algum esforço. Já cansei de repetir aqui que o cérebro precisa de tempo, estímulo e treinamento. Imaginem o que eu sinto quando leio mensagens como: “Oi, sou surda, tenho aparelhos mas não uso e nem vou usar, acho uma droga, não consegui me acostumar. O que eu posso fazer para ouvir melhor?” Dá vontade de responder: “Putz, não to te ouvindo!” rsrsrs

Às vezes vejo as pessoas querendo comparar suas audiometrias e tirar conclusões a respeito dos seus aparelhos auditivos baseando-se nisso. Não compare sua audiometria, não compare seu resultado, não compare suas conquistas: dois seres humanos não têm o mesmo cérebro nem nunca terão.

Consequentemente, o resultado de A com aparelho auditivo jamais será igual ao de B. Celebre cada mísera vitória auditiva que conseguir, vibre com cada som que entrar, deixe o coração explodir com cada palavra entendida sem leitura labial. E relaxe!

Quando a surdez entra na nossa vida, a palavra perfeição perde o sentido e nós precisamos dar um novo significado a ela. Para mim, perfeição era ouvir música com minha audição natural; hoje, perfeição é ouvir música e entender a letra com meus IC’s… O copo meio cheio ou meio vazio depende de nós!

Vivo num processo constante de readaptação. A cada novo mapeamento é como se meu cérebro levasse um sacode e precisasse rebolar outra vez para me fazer gostar dos sons que escuto. Não existe almoço grátis. Não existe corpo sarado sem malhação. Não existe isso de ouvir melhor sem esforço pessoal. A tecnologia vai te ajudar, mas os outros 50% são com você.

Quanto antes você entender racional e emocionalmente que cada surdez é única, mais leve essa cruz se torna. Esqueça as comparações, os julgamentos, a grama mais verde do vizinho, o ouvido mais aguçado do amigo, o implante último tipo da colega. Viva a sua experiência da melhor maneira que puder, e essa maneira deve lhe permitir olhar-se no espelho todos dias e perguntar: “Estou fazendo o meu melhor?” Se a resposta for sim, keep walking. A estrada é longa, é exaustiva e a vista mais bonita só quem dá jeito de caminhar até o topo da montanha consegue apreciar.

48 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 34 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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