Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva Histórias dos Leitores

Surdez e preconceito: as experiências de quem não ouve

Eu já sofri preconceito por causa da surdez em inúmeras situações. Antes de voltar a ouvir com os implantes cocleares, perdi a conta das vezes em que as mais variadas pessoas me infantilizaram ou me trataram como uma planta porque eu não ouvia como elas. Inclusive dentro da minha própria família, porque as pessoas próximas são as que passam mais tempo conosco. Sim, é até triste admitir isso, mas para muitos de nós, o preconceito começa dentro de casa, por mais imperceptível que ele pareça.

No trabalho, tive duas experiências bem distintas. Primeiro, fui funcionária pública durante 13 anos. Entrei no primeiro concurso com vagas para PCD’s e foi lá que aprendi da pior forma a lidar com o desconhecimento e com o preconceito alheios. Ninguém sabia o que era deficiência auditiva. Ninguém nunca tinha visto um aparelho auditivo e muito menos um surdo que falava e ouvia alguma coisa. Ninguém sabia o que era acessibilidade. Ninguém sabia como lidar comigo. Ninguém acreditou nas coisas que eu podia e nas que eu não podia fazer. Meus primeiros anos foram muito duros e sofridos naquele ambiente. Até hoje não sei como não cedi à pressão e me demiti. E nunca esqueço de uma colega que me chamou num canto e disse: “Aguenta! Aguenta até o fim do teu estágio probatório. Eu aguentei coisa pior com um filho pequeno e um bebê de colo, então você consegue!“. Se não fosse ela, eu teria desistido, porque saía de lá chorando quase todos os dias no início. Mas o tempo passa, as pessoas percebem que o preconceito é uma coisa muito feia e passam a te compreender melhor como ser humano. Aí, tudo muda. Tenho orgulho de olhar para trás e ver que todos os colegas, no final, haviam se tornado amigos. Na minha festa de despedida, chorei com o discurso lindíssimo que a minha chefe na época fez para mim, relembrando meu início lá. Foi um baita aprendizado, saí desse emprego cascuda e pronta para qualquer outra que viesse.

A segunda experiência foi numa multinacional na qual trabalhei por pouco tempo – pedi demissão porque o Crônicas da Surdez estava me dando oportunidades de trabalho incríveis e ele sempre foi a minha grande paixão. Minha chefe estava 100% preparada para as minhas necessidades, os colegas foram altamente receptivos e carinhosos, as pessoas me faziam perguntas legais e não as perguntas uoh de sempre, fui desafiada do início do fim – no meu primeiro dia me puseram numa reunião com um time internacional e precisei enfrentar 15 pessoas falando em inglês ao mesmo tempo, sentada na ponta de uma mesa em formato de U. Talvez essa experiência tenha sido bem mais leve pois era 2016, outros tempos, empresas se adaptando às PCD’s e zero tolerância com preconceito.

Nas relações sociais, o preconceito é quase sempre velado, mas existe e machuca fundo. Lembro de ‘amigas’ me olhando de cima a baixo e com um close de 3 segundos nas minhas orelhas quando queriam me mostrar que achavam que eu não tinha chance com algum paquera. Lembro de sogras me chamando de coitadinha olhando para as minhas orelhas. Lembro de um ficante que me chamava de Anita Garibaldi (!!!) e soltava umas frases nonsense do tipo ‘você é incrível mesmo com a surdez’, ‘apesar da surdez olha tudo o que você consegue fazer’ – e achava que estava abafando! Lembro de outro que chorava e dizia ‘isso não é justo, eu não consigo me conformar que um dia você não vai ouvir nada‘. Parece bonitinho? Não é, é preconceito puro, mesmo que as pessoas achem que não e se ofendam se você disser que elas estão sendo preconceituosas.

Eu não sou menos do que ninguém porque minhas células ciliadas do ouvido estão todas mortas. Eu não sou inferior a você porque você ouve naturalmente e eu não. Eu não sou digna de pena porque uso dois vistosos aparelhos para poder ouvir o mundo. E eu não vou me submeter jamais a nenhum tipo de situação humilhante que envolva o seu desconhecimento a respeito da minha surdez. Aliás, o seu desconhecimento não lhe dá o direito de me discriminar, seja abertamente ou de modo velado. E já aturei preconceito aberto e velado demais na vida para ser tolerante com qualquer coisa parecida com isso do alto dos meus 36 anos.

O que é preconceito?

Preconceito é aquele olhar de pena. É a exclusão que o deficiente auditivo sofre quando os ouvintes próximos não fazem esforço algum para inclui-lo nas conversas. É a generalização burra que faz os ouvintes até hoje acreditarem que todo surdo é mudo ou usa Libras. Preconceito é um juízo de valor que surge do desconhecimento da situação e se manifesta através da intolerância ou do desprezo. Você é discriminado por causa da surdez quando um ouvinte supõe que você não é tão capaz quanto o seu colega ao lado, quando um namorado/cônjuge lhe diminui porque você não é ‘perfeito’ como deveria, quando as pessoas lhe tratam como um imbecil usando a falta de audição como desculpa.

Como lidar com o preconceito?

Posicione-se. Não abaixe a cabeça e vá chorar num cantinho, se sentindo a pior das criaturas. As pessoas preconceituosas se sentem ainda mais poderosas e cheias de razão quando nos vêem sofrendo em silêncio e com medo de colocar a boca no trombone. Preconceito velado merece uma boa conversa, de igual para igual, e um sonoro pedido para que isso não mais se repita. Preconceito aberto é facilmente tipificado como assédio moral – especialmente se for no ambiente de trabalho. Para isso, existe a justiça, e nada como um bom processo judicial para que a pessoa entenda as consequências dos seus atos. Como alguém que sofreu quieta em inúmeras situações, gostaria de dizer a vocês que não façam isso. Somos todos seres humanos. A verdade é dura: algumas pessoas merecem uma chance, outras merecem um processo. O quanto antes você souber diferenciar um caso do outro, mais fácil a sua vida será. Toda vez que você se sentir incomodado com a fala ou a atitude de alguém (familiares, chefes, colegas, amigos, etc), diga para a pessoa na hora! Essas coisas precisam ser resolvidas e trazidas à luz no momento em que acontecem.

As histórias dos leitores!

 

 

Mariah

Sofri muito preconceito na adolescência. O bullying era presente em minha vida em toda vida escolar. Já não sofro mais, porque não permito que isso aconteça, eu dou um basta e explano sobre a dificuldade de ouvir. Venci quando passei no concurso público e tive que explicar as minhas dificuldades e o que os outros tinham de fazer para socializar comigo. Foi a melhor coisa que já fiz, porque me permitiu abrir e aliviar o peso de “carregar o mundo”.

Katharina

Preconceito sofri somente uma vez numa entrevista de trabalho. Após altas conversas otimistas sobre uma possível contratação, lembro o moço do RH que é complicado fazer uso do telefone e ele simplesmente se afundou na cadeira, pensou três segundos e disse “ah, então não vai dar”. Foi minha primeira entrevista de trabalho – imaginem meu desânimo. E, sim, por muito tempo projetei vergonha e raiva sobre a minha condição, até ler o artigo da Paula na revista Donna há uns anos atrás e não me sentir mais sozinha.

Samira

Nunca trato essa questão como se precisasse de cuidados e tratamento diferenciado das pessoas as quais convivo. O meu autopreconceito foi o mais difícil combater e entender que precisava assumi a surdez e procurar mecanismos mais eficientes para a minha qualidade de vida . Depois que superei essa etapa, melhorei muito. Claro que houve dias de muita tristeza e dificuldades. Mas há coisas piores e maiores, então aprendendo a cada dia melhorar esses momentos de tristeza. E hoje me faço respeitar,  muitas vezes fiquei muito chateada por conta da pouca paciência que tinham no sentido de repetir o que me fora falado. Mas, como eu não falava muito do que sentia, atribuo a mim responsabilidade nesse aspecto. Quando comecei a falar , melhorou muito essa questão .

Naercya

Sofri muito bullying e isolamento na infância e isto afetou diretamente a minha autoestima. Hoje sou mais tranquila, mas ainda passo por situações constrangedoras. Sei que deveria deixar claro pra todos minha condição, acho que facilitaria o convívio, mas ainda não o fiz e nem sei se farei.

 

Michele

Sofro muito preconceito nas empresas que eu trabalho, mas algumas situações eu acabo não esquecendo: no último emprego que trabalhei me tratavam como doente mental e muitas vezes se esquivavam se me ensinar algo novo por medo de repetir ou explicar novamente! Em um emprego que trabalhei, eu trabalhava com telefone e havia um colega que quando eu dizia para ele que não entendia e pedia que atendesse a ligação, ele dizia: “Tenta de novo que tu consegue! Presta mais atenção!” Como se eu não quisesse entender! Aquilo me doía! Tive uma chefe também que na ânsia de contratar um PCD não prestou atenção quando eu disse na entrevista que trabalhava somente com telefone amplificado, e quando eu pedi esse recurso pra trabalhar disse que eu a enganei por não falar da minha necessidade, me chamando de mentirosa! Acabei saindo da empresa!

Elisabeth

Sofri muito preconceito com minha própria família e amigos quando descobri que tinha DA mas não me aceitava ainda! E já senti a falta de confiança em alguns momentos do trabalho, por conta da deficiência. Só venci o meu autopreconceito quando perdi um emprego por preconceito de outra pessoa! Aquilo me marcou de tal forma, que cheguei a entrar em depressão, e quando sai do fundo do poço prometi a mim mesma que nunca mais ninguém iria me tratar daquela forma, e fui aprendendo a me aceitar e me defender da maldade alheia! Hoje em dia sou muito bem respeitada por toda a família, porque já sabem que não admito brincadeiras infames como antes, e quando vem de alguém que não tenho muita intimidade de explicar que não gosto, eu fecho a cara e ignoro, o que também é uma resposta, porque a pessoa se toca que não é legal!

Oldemar

O maior preconceito veio de uma professora, que falou a minha esposa que ela devia me largar eu pois era nova e bonita,  não devia ficar com um deficiente e torto – estava com paralisia facial após uma cirurgia. De longe entendi ela falando!

Luis

O maior preconceito está dentro de casa em família. Geralmente os familiares são os primeiros a perderem a paciência (pelo menos no meu caso). No trabalho também é forte. O que faço? Explico, mesmo sabendo que nada mudará.

 

Juliano

Não é corriqueiro e nem pragmática por que eu não permito. Mas quando sofro ou acontece, eu procuro Crônica da Surdez, releio as experiências parecidas, me fortaleço, enfrento e não dou margem para esse tipo de preconceito. Para lidar com isso, aprendi uma coisa bem simples, afastar de PESSOAS TÓXICAS, jamais fazer o vitimismo ou coitadismo e ser mais otimista. Se eu fosse um “ouvinte normal” eu não enxergaria o mundo que enxergo hoje, não teria diversas experiências, não aprenderia me colocar lugar do outro (empatia), não aprenderia ler lábios, expressões faciais e físicas e todo potencial que os surdos conseguem e provavelmente não seria motivado para muita coisa a não ser apenas inserido no mercado de trabalho.

Vanessa

Não me sentia bem quando meus familiares conversavam comigo e começavam a me chamar de “surdinha”. Isso me machucada muito. E outra situação que acontecia com familiares, amigos, colegas, professores, é quando eles falavam que eu fingia não escutar para não fazer as coisas. Davam exemplos bestas, tipo: “Ela escuta quando convém sim, se falar: ‘Vanessa, faça isso’  ela não faz, mas se falar ‘Vanessa, toma dinheiro’, ela escuta que é uma beleza.”

 

Patricia

Não sofri e nem sofro preconceito, acredito que isso se deva à educação que tive, meus pais me ensinaram a lidar com a dificuldade auditiva com muito bom humor. Quando a dificuldade se tornou deficiência eu já estava madura e minha estratégia foi expor o problema: com amigos, no trabalho, com clientes, sempre que tinha oportunidade contava a minha história de perda auditiva na esperança de ganhar apoio, empatia, e principalmente, induzir as pessoas em volta a colaborarem (falar alto, falar olhando, falar de perto etc). O que infelizmente acontece é que as pessoas esquecem e precisamos lembrá-los com frequência, isso acontece com amigos, no trabalho ou em família, sempre rola aquele “toque” – “Oh gente, fala mais alto pra eu ouvir / Não me chama de longe que eu não escuto!”

Luci

Sofro preconceito principalmente em família. Falta de paciência de repetir, falar com calma. Fora de casa é até mais tranquilo,  quando acontece tento não dar bola afinal não me conhecem direito, mas é muito triste quando vem dos seus próprios familiares.

 

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • Meu filho tem 3 anos, canso de ouvir as pessoas olharem para ele e dizer “nossa ele tem problema de audição,mas ele é tao lindo”., como se isso fizesse alguma diferença. Ainda estou aprendendo a lidar com essa situação, não é facil.

  • Os comentários de quem passa pela experiência é de grande valia, pois nos dá informações sobre o que fazer e o que não fazer. Aprendi muito cedo na vida, que quem não atrapalha já está ajudando muito.

    A mania em voga é de alguém se achar em condições de ajudar, sendo que não lhe tenha sido pedido uma ajuda.

    Há, nos últimos anos, muitas novidades verdadeiramente fantásticas, mas a pessoa tem que se posicionar e fazer o mundo saber o ela deseja e busca, assim fica mais fácil de encontrar apoio, soluções e tal.

    Sou da opinião de que antes de que quem pecisa e quer, deve ir a campo e lutar por seus ideais, o meu mundo não é da maneira que outros enxergam.

    Grato por esta chances de aprender.

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