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Surdez e intercâmbio: a história da Natasha

Hoje vou falar sobre minha experiência com surdez e intercâmbio. Meu nome é Natasha, tenho 26 anos e perda auditiva neurosensorial profunda bilateral, sendo usuária de aparelhos auditivos desde 2010. Vou contar um pouquinho sobre os meus 15 meses estudando e morando na Hungria, e dos outros 15 países que conheci nesse meio tempo.

A decisão

Em 2014, aos meus 22 anos, eu estava me sentindo bastante sozinha, morava longe da família já há alguns anos por causa da faculdade, e meus amigos estavam indo embora, ou por se formarem, ou para fazerem intercâmbio, última opção esta que eu nunca achei que seria possível para mim. Primeiro porque eu não me sentia capaz de passar numa prova de proficiência em inglês, já que boa parte da nota se baseava em acertar questões de “listening” de um radinho horrível e num idioma que eu ainda estava aprendendo. Segundo porque mesmo que conseguisse, como me virar sozinha num país novo, com uma língua nova e pessoas totalmente novas também, sem aquelas antigas as quais eu já me apoiava para me ajudar no dia a dia como surda?!

Ufa, Deus que me livre! Mesmo que isso me fizesse sentir inferior e com uma tristeza tremenda devido ao sentimento de que estava ficando para trás (currículo melhor, idioma novo, experiência de vida, entre outros) e perdendo algo incrível que diversos conhecidos meus estavam experimentando, eu achava que essa era a minha vida desde que comecei a perder minha audição aos 16 anos e que só me restava aceitar.

Bom, apesar de todos esses amigos indo embora, eu ainda tinha a Bianca, que foi meu “anjo ouvinte” durante todos os meus 5 anos de graduação. Era ela quem me acudia nos momentos difíceis relacionados à surdez, que atendia uma ligação urgente ou que me ajudava na sala de aula quando eu tinha dificuldades em entender o professor. E também quem finalmente me deu coragem para tentar o intercâmbio ao simplesmente chegar um dia na sala de aula com vários documentos já prontos para se inscrever em um intercâmbio e morar o próximo ano inteirinho em outro país. Para mim foi a gota d’água. Foi aquele tapa na cara de que eu tanto precisava para parar de lamentar e tomar coragem para fazer mais da minha vida antes que fosse tarde demais.

Me inscrevi então para um intercâmbio acadêmico na Hungria, passei raspando na prova de proficiência em inglês me dedicando muito à prova escrita para compensar o “listening” e, em maio de 2014, finalmente embarquei rumo à Europa, andando de avião e sendo totalmente independente pela primeira vez na vida.

 

O intercâmbio

Nos três primeiros meses fiz curso de inglês na faculdade e passei por poucas e boas para entender os colegas e professores, mas me esforcei bastante em casa e consegui aprender o suficiente para iniciar as aulas da graduação. Chorei muito por algumas situações que passei, já que nem todos com quem trombamos praticam a empatia, mas no fim as pessoas boas foram de longe as que mais entraram na minha vida.

Conheci vários países além da Hungria, alguns até repeti de tanto que gostei! Visitei a Rússia, Croácia, Grécia, Eslováquia, Holanda, Inglaterra, Alemanha, Áustria, Polônia, Eslovênia, Bélgica, França, Espanha, República Tcheca e Itália.

Nos primeiros meses viajei bastante em grupos grandes ou com uma ou duas amigas, mas mais tarde desfrutei também dos prazeres de viajar sozinha. A Áustria, Alemanha e Itália fiz por minha conta e risco, e foi uma experiência crucial para mostrar a mim mesma que a surdez não pode e nem deve me limitar a nada. Foram também essas viagens que me ensinaram que muitas vezes uma audição perfeita nem sempre é o melhor recurso numa viagem.

Aprendi a explorar todas as ferramentas visuais e online possíveis, a sempre ter salvo “off-line” mapas da cidade e do metrô de destino, listas de endereços com instruções de como chegar no bloco de notas do celular, carregador portátil para nunca correr o risco de ficar sem bateria, a andar de transporte público sempre prestando muita atenção ao sentido e ao ponto em que devo descer, entre outras coisas.

Apesar de ter sido de longe o ano mais feliz da minha vida, em diversos momentos me senti bastante triste devido às dificuldades de interações sociais, limitações quanto à comunicação, principalmente com estrangeiros, e na percepção de que meus AASIs não me ajudavam mais tanto quanto antes, o que me fez ir atrás de novos assim que voltei ao Brasil.

A experiência do intercâmbio e todas as viagens não só me fez ser mais segura e independente comigo mesma em relação à surdez, como também foi o início da minha decisão pelo implante coclear. No mês anterior à minha volta ao Brasil, percebi o quanto havia perdido em todos aqueles 14 meses anteriores, o quanto uma experiência que já foi incrível, poderia ter sido mil vezes mais se eu tivesse conseguido desfrutar de todas as intimidades de conversas amigas, dos shows dos vários festivais de música que fui e também dos idiomas a mais que eu poderia ter aprendido. Até mesmo o inglês eu noto que poderia ter ficado melhor.

No fim, foram todos os momentos felizes e tristes desse ano fora do país que me fizeram chegar à pessoa que sou hoje, que conversa abertamente sobre a surdez, que pesquisa o máximo que pode sobre o assunto e que decidiu, sem hesitar, por tentar uma melhor qualidade de vida e partir para o implante coclear, que ativarei no dia 17/01/2018.

Perca o medo e vá conhecer o mundo

Meu próximo objetivo de viagem é fazer um mochilão pela América do Sul, sozinha! Fiz os planos enquanto ainda nem pensava no IC, mas espero que com eles a experiência seja ainda melhor do que o imaginado!

A todos o que ainda têm medo de pegar uma mochila e sair por aí conhecendo esse mundão, eu só digo para ir fundo! O importante é não ter vergonha de admitir a surdez, de pedir ajuda sempre que necessário e de, principalmente, pesquisar muito sobre o destino antecipadamente. Esta pesquisa envolve hospedagem, passagens, transporte, possíveis impasses, etc. É impossível prever 100% do que vai acontecer numa viagem, mas quanto mais preparado você estiver, menores serão os sustos!

Que todos nós tenhamos muitas e muitas viagens pela frente. Um abraço!

92 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

1 Comentário

  • Eu fiz IC em 2016 uso o Sonata ti 100 da Medel gostaria de saber com esse implante posso usar outro acessório uso esse atrás da orelha

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