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A surdez me ensinou a ter medo

A surdez me ensinou a ter medo. Medo de ficar sozinha em casa. Medo do que podia acontecer enquanto eu estivesse dormindo. Medo de ser assaltada e não entender as ordens do ladrão. Medo de ficar presa no elevador sem ninguém por perto. Medo de que alguém puxasse papo comigo no escuro. Medo de tomar banho com a porta trancada. Medo de me perder numa situação imprevisível. Medo de conhecer pessoas novas e ter que desvendar as suas bocas. Medo de me comunicar com pessoas que falavam outras línguas. Medo de me expressar: e se eu estivesse gritando sem saber? Medo de participar das conversas: e se eu estivesse repetindo o que acabara de ser dito porque não ouvi? Medo de telefone. Medo de interfone. Medo de campainha. Medo de viajar só. Medo de fazer um intercâmbio. Medo de não ser aceita como era.

Medo de namorar – e mais ainda de conhecer a família do namorado. Medo de aceitar convites para jantar e ficar boiando e sorrindo feito idiota na tentativa de não parecer idiota. Medo de cursar a faculdade que eu sonhava ter cursado. Medo de me candidatar aos empregos que eu sonhava ter me candidatado. Medo de ser a última a saber de um incêndio. Medo de ser a última a saber de uma morte por não poder atender um telefonema. Medo dos ditados que as professoras faziam. Medo de morar sozinha. Medo de ir ao cinema e o filme ser dublado. Medo de alto falantes de aeroportos. Medo de pessoas que tapavam a boca para falar. Medo de não entender uma declaração de amor. Medo de esquecer as vozes das pessoas que eu amava. Medo de esquecer como era a minha própria voz. Medo de ter que falar em público usando um microfone.

Medo de não ter $$ suficiente para bancar o próximo aparelho auditivo que eu precisasse. Medo de nunca mais ouvir música. Medo de um dia cansar por completo de estar presa dentro da minha cabeça sem escapatória. Medo de acabar totalmente só tendo a TV como melhor amiga. Medo de ter um filho, de não ouvir o bebê chorar, de não conhecer a voz da criança. Medo de que o zumbido fosse o último e único som da minha existência. Medo de ser passada pra trás sempre que alguém descobrisse que eu não ouvia. Medo de não ter forças para passar uma vida inteira no silêncio.

A surdez me ensinou a ter medo, mas também me ensinou a ter coragem.

Viajei só. Fiz o que pude para aprender outras línguas, pelo menos na parte escrita. Passei trotes para 0800 e pizzarias só para tentar entender o que era dito no telefone. Fiquei sozinha em casa quando foi preciso. Salvei a casa de um incêndio numa madrugada fria. Me virei de jeitos criativos para ter meus AASI’s. Corri de um lado para outro para não perder vôos. Falei em público com microfone, fui compreendida e elogiada. Ouvi música até o último minuto com a audição que me restava e com a ajuda que meus aparelhos davam. Aguentei com resiliência a minha prisão silenciosa sem enlouquecer.

Resolvi pepinos em outras línguas em situações tragicômicas. Cantei no banho até me mandarem calar a boca. Me deliciei com os lábios da minha mãe durante 34 anos até ela partir. Guardei em algum cantinho esquecido da minha cabeça a voz dela, da minha vó, do meu irmão. Fiz força para lembrar do barulho do mar. Namorei as pessoas erradas. Conheci as famílias dessas pessoas. Concordei com frases que me eram ditas na escuridão da baladas e até hoje não sei que diabos me disseram. Ensinei meu cachorro a me mostrar quando batiam na porta.

Aguentei no osso do peito quando me chamavam de ‘deficiente’, ‘surdinha’, ‘pobrezinha’ e outros inhas desagradáveis. Aprendi a gostar do meu zumbido por falta de alternativa. Aprendi que na pior das hipóteses a gente leva um não. Ouvi os choramingos de muita gente e fui ótima ouvinte mesmo sendo surda profunda. Aprendi a rir de mim mesma e entendi o que Elis Regina quis dizer quando soltou a pérola “só vai tomar champanhe comigo quem comeu grama comigo!

A surdez me ensinou a ter medo e coragem, e a coragem falou mais alto. E foi aí que eu OUVI.

Ouvi a minha intuição quando ela disse que tinha chegado a hora de tentar. Que se eu já conhecia as trevas e a escuridão, só me restava conhecer a luz. Que se eu já conhecia o som perfeito e o silêncio cortante, talvez pudesse conhecer o som diferente. E gostar dele! Ouvi minha intuição quando ela gritou para mim: agora ou nunca. Ouvi minha querida Michele quando ela disse que minha vida começaria de fato quando eu voltasse a ouvir. Ouvi minha amada e saudosa mãezinha quando ela disse que eu tentasse porque ela estaria comigo o tempo todo. Ouvi minha alma aos berros de “pelo amor de Deus, tenta guria!”.

Entre a resignação e a coragem, fico com a segunda. Hoje eu sou do tamanho da coragem que precisei ter em 2013, e graças a ela cada segundo do resto da minha vida tem som.

Tenha coragem! Quem sabe a surdez profunda não seja o fim da linha para você também 😉

161 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

23 Comentários

    • Vontade fazer implante coclear, sou surdo profundo, os médico fala que meu caso não tem como fazer implante coclear. Sou surdo genético e todos médicos disseram não tenho chance. Pensei ir para os Estado Unidos, mais disseram se fizer posso correr riscos de morte. Mais tenho vontade fazer, é meu sonho.

  • Obrigada por esse texto, tenho surdez neurossensorial bilateral severa desde os 3 anos, hoje com 18 ainda enfrento tanta cousadia e esse texto me fez arranjar forças do fim da alma pra prosseguir. Obrigada mesmo!

  • Oi Paula! Primeira vez que comento no seu site, e tenho que dizer que CHOREI com esse post, não pude evitar algumas lágrimas, pq você me descreveu perfeitamente!

  • Sabe, Paula. Seu texto foi lindo! Me emocionei em vários trechos. Só quem vive esta realidade (eu vivo não com deficiente auditiva, mas como mãe de uma) sabe do você está falando. Mas seu texto me fez refletir sobre uma outra questão…como faltam ambientes adaptados aos deficientes auditivos….quando pensam em deficiente e adaptação pensam sempre no deficiente físico, com dificuldades de locomoção. Não que estes não precisem de adaptação, mas não costumam se lembrar dos deficientes auditivos, que precisam, e muito, de ambientes adaptados…na verdade, muitas pessoas pensam que ser deficiente auditivo não é nada demais, que é só botar um AASI e pronto! Que é a ” melhor” das deficiências…meu Deus…não sabem de nada…No seu texto, Paula, há várias situações em que o deficiente auditivo fica em situações perigosas até…quanto caminho ainda há pela frente pra conscientizar as pessoas sobre o que é a deficiência auditiva e todos os seus reflexos…

  • Achei que alguém estava descrevendo minha vida !!! Então Paula fui lá e fiz , estou vivendo um dia de cada vez , não é minha intenção escrever um blog más se o fizesse seria : ” Tudo que eu não sabia sobre o IC ” e mesmo engatinhando na ativação (tem 21 dias não sei o que vai acontecer) o seu blog e o da Lak me ajudam muito , depois da cirurgia falei UAI não tomei a vacina da meningite doutor ?( ele esqueceu ) pois li que temos que tomar , ressonância não sabia que não poderia mais fazer , ouço a voz robótica e estou sempre esgotada no fim do dia , meu esposo falou que eu mudei da ativação pra cá . Más toda manhã coloco o IC pq sei que meu cérebro precisa ser estimulado , minha cirurgia durou quase 6 horas meu médico falou que quase não deu … ? como assim ? . Muitas perguntas e poucas respostas , todo dia eu tento e tento ! Beijos

  • Passei e passo por todos os medos que li na sua cronica.
    Sou usuaria de IC, ativado ha mais de 1ano, tinha esperança de voltar a ouvir musica, poder assistir um show musical, ouvir a TV q nao tivesse closed caption, ouvir o interfone, telefone, conversa entre amigos, q nao passasse a ideia de ser doente mental, por nao ouvir.
    Os medos continuam, busco coragem para muda-los, mas, me acabam as forças.

    • Oi Tânia. Você “tinha esperança” porque? Não ficou satisfeitas com os resultados do seu IC?Com era a sua perda?

  • Texto lindo e verdadeiro, parabéns. E no meu caso acrescento medo de enfrentar novamente o resultado do teste de audiometria, aceitar a deficiência e ser rejeitada… ;-(

    • Marta!!!! Aceite que existe a deficiência, mas encare-se como alguém perfeito, que tem uma característica diferente dos demais, pois enquanto os outros não precisam concentrar-se nas pessoas, nas coisas ao redor, vc precisa, para poder interagir com elas!!! Isto nos torna especiais sim, mas não aceite a rejeição!! Começa por vc a aceitação e a transformação de sua vida!! Bjao grande!! Força aí!! 🙂

  • adorei vc é isso incrível vc nem faz ideia do quanto faz bem ler seus relatos muitas vezes são as mesmas aflições que todos vivemos, ainda não tive a oportunidade de ler seus livros, sei que vou amar…abrs querida.

  • Que texto maravilhoso! Gosto de escrever textos sobre nosso cotidiano, sobre nossas mazelas….Enfim, adorei seu texto. Um texto que no fim se torna leve e inspirador. Parabéns.

  • Muito lindo Paula as tuas crônicas e essa do medo acredito eu que todo surdo tem um pouco de cada itens que você citou. Eu graças a Deus estou superando alguns medos depois do implante coclear.
    Fique com Deus!

  • Emocionante pois tenho uma filha que nasceu com surdez bilateral profunda hj Bi- implantada está com 7anos e fico com esses medos por ela…mas tb tivemos a coragem de dar essa oportunidade que foi o I.C para ela, tenho fé que vai superar casa obstáculo pois estaremos aqui sempre pra ajudar!

  • Estou profundamente tocada ! É exatamente tudo isso que sinto ,e supero da mesma forma que supera ! Tenho perda profunda dos dois ouvidos e uso AASI só em um. Impressionante como a deficiência me trouxe medos e coragem juntos ! Texto lindo !!!!! Em breve contarei minha historia ,estou juntando uns fatos ainda rsrs .Beijos Paula !

  • Paula, chorei emocionada com esse seu texto. Venho acompanhando sua página há alguns meses. Tenho um filho de 4 anos com surdez severa. Obrigada por compartilhar conosco sua história. Deus abençoe seu caminho. ?

  • Amei Paulinha , até rir com interfone !
    Sua vida é um exemplo , acho VC demais querida . onde encontro seu livro ? Quero muito …. Bjs

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