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Surdez profunda: a história da Mircéia

Sou Mircéia Rosecler Schmitt, estou com 35 anos, tenho surdez neurossensorial profunda bilateral desde os 2 anos de idade de causa desconhecida. Sou de Santa Cruz do Sul, RS, e como sou descendente de alemães, minha mãe havia me ensinado a falar o dialeto alemão e assim quando fiquei surda, sabia falar o alemão apenas.

A minha história

Aos 5 anos de idade comecei a usar aparelhos auditivos e frequentar uma escola em uma classe de surdos por dois anos e foi a partir daí que comecei a falar o português esquecendo completamente o dialeto alemão que havia aprendido antes de ficar surda.

Aos 7 anos de idade frequentei outra escola junto com os ouvintes e comecei a perceber que eu era diferente dos outros e assim o preconceito começou a se instalar na minha mente. Não sentia nenhuma vergonha de usar o AASI, mas morria de vergonha e de constrangimento por não conseguir entender o que as outras pessoas estavam falando.

Como não entendia os professores, eu me esforçava muito em casa, depois da aula, para compreender o conteúdo ensinado em sala de aula, o que não foi nada fácil. Mas apesar disso conclui o Ensino Fundamental e o Ensino Médio sem nenhuma repetência.

Durante todo este período escolar, ficar vermelha de vergonha por não ouvir havia virado rotina, apesar de não ter tido nenhuma vergonha de mostrar os aparelhos auditivos. Geralmente estava de cabelos amarrados e o AASI ficava bem visível atiçando os curiosos e sempre tinha que explicar o que era isso que estava pendurado na minha orelha.

Devido ao meu preconceito e ao preconceito das outras pessoas também, o meu sofrimento era intenso e a minha vida não tinha sentido nenhum por estar nesse isolamento social que me fazia sentir inferior e diferente – também comecei a questionar qual era o sentido da vida.

Aos 18 anos comecei a frequentar um centro espiritualista com enfoque na mudança interna/mudança de comportamento e a primeira coisa que eles disseram foi que deveria eliminar o meu próprio preconceito por ser surda e que a minha autoestima estava muito baixa por me julgar inferior aos outros.

Dessa forma tomei consciência de que deveria mudar muito para deixar de ser preconceituosa e assim, com o passar dos anos fui vencendo o preconceito aos poucos, ano após ano, o que foi uma grande vitória para mim.

Os sonhos

Quando havia concluído o Ensino Médio (aos 17 anos de idade), o meu sonho era cursar Psicologia, porém, não tinha condições financeiras para tal (não havia FIES e nem PROUNI) e esse sonho ficou arquivado na minha alma.

Com o passar dos anos trabalhei em várias empresas (e sempre lutando para ser incluída socialmente) e aos 24 anos fui encorajada a fazer o curso Técnico em Enfermagem (na UNISC) por algumas pessoas que não tinham nenhum preconceito e isso foi muito importante para mim, e me formei em 2009 aos 27 anos de idade.

Durante esse período avisei a todos os colegas e professores sobre a surdez e que dependia exclusivamente de leitura labial para entender alguma coisa, e apesar disso não foi nada fácil, pois tinha que lidar com pessoas desconhecidas em estágio no hospital, tinha que explicar diariamente sobre a minha surdez para cada paciente diferente, tornando a tarefa altamente cansativa e meu nível de estresse estava alto (pois estava em estágio). E no fim do curso fui elogiada pelos professores da UNISC por ter superado esses obstáculos e ter concluído o curso com boas notas.

Dois meses após a formada, fui trabalhar num hospital, onde passei por vários perrengues e dificuldades, por incompreensão dos colegas e médicos. Apesar de falar abertamente sobre a minha surdez e de estar com os cabelos atados sendo visível o uso de AASI, ainda assim era chamada de mal educada, por não responder ao chamado deles.

Houve um episódio em que um médico apareceu no setor hospitalar onde trabalhava e o telefone estava tocando e o médico me xingou por não atender o telefone. Imagina uma surda profunda bilateral atendendo o telefone, só por um milagre dos céus para isso ocorrer…

A vida profissional

Em 2012 (com 30 anos de idade) fiz o concurso público para Prefeitura de Santa Cruz do Sul (minha cidade) e em junho de 2013 fui chamada para tomar posse do cargo de Técnico em Enfermagem e me desliguei do cargo no hospital onde trabalhei por três anos e meio.

No mesmo período que comecei a trabalhar na Prefeitura, comecei o curso de Psicologia na Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), resgatando meu antigo sonho da adolescência. Tive que novamente explicar sobre a surdez para cada colega de aula e de trabalho, professores, coordenadores e confesso que é muito cansativo ficar sempre repetindo e explicando a mesma coisa até a pessoa entender a gravidade da minha surdez (pois sempre tenho a impressão que eles acham que só tenho um pouquinho de surdez e ainda me dizem: “Mas você fala…”).

Atualmente (março de 2017), continuo na Prefeitura Municipal de Santa Cruz do Sul e estou no 8º semestre em Psicologia, estou adorando o curso, porém estou exausta em fazer leitura labial para acompanhar os professores. E atualmente estou na fila de espera do SUS esperando pelo Implante Coclear.

Tem aqueles surdos/deficientes auditivos que preferem o uso de LIBRAS ao invés de fazer uso de tecnologia auditiva e respeito a escolha deles; já tive contato com vários deles e vejo que as dificuldades de acessibilidade continuam muito grandes, pois pouquíssimos ouvintes sabem LIBRAS…

E sou grata pela minha mãe ter lutado para eu voltar a ouvir com os AASI que foram doados pois, antes de nascer, meus pais haviam recém saídos da lavoura e com precários recursos financeiros estavam morando na cidade…

O Crônicas da Surdez

Diante de tantas dificuldades diárias enfrentadas pelos surdos, considero que a Paula Pfeifer está fazendo um trabalhoso maravilhoso de esclarecimento para combater o preconceito contra os surdos e desmitificar/desnudar todas as ideias pré-concebidas sobre: deficiência auditiva ou surdez; uso do AASI; Implante Coclear; e outros temas relevantes.

Eu comprei os dois livros da Paula, “Crônicas da Surdez” e “Novas Crônicas da Surdez: Epifanias do Implante Coclear”, os quais foram ótimos para me acostumar ainda mais com a surdez e aceitar as próprias limitações com mais serenidade.

É claro que as dificuldades referentes a acessibilidade e os direitos dos deficientes auditivos continuam, e os meus conselhos para os outros surdos são: vença o próprio preconceito e tenha compaixão daqueles que são preconceituosos pois o mundo dá voltas…

Procure desenvolver a paciência e a serenidade, pois senão iremos adoecer devido ao estresse altíssimo que nós, os surdos, passamos… A qualquer contrariedade, obstáculo, incompreensão, arme-se da paciência e compreensão e, explique de uma forma clara e faça valer os seus direitos de viver com dignidade…

Se todos os surdos agirem assim, o mundo vai ser um lugar um pouco melhor para se viver. A Austrália é um bom exemplo a ser seguido em termos de avanços tecnológicos e altos investimentos na saúde pública para incentivar o uso do Implante Coclear trazendo uma ótima qualidade de vida para os surdos. E meu recado para a Paula é: continua esse seu trabalho maravilhoso de conscientização para os outros surdos e ouvintes, pois o resultado está sendo ótimo. 🙂

Abraços!”

58 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

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