Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Surdez e relacionamentos, parte 2: família, amigos e colegas

Foto: Shutterstock

 

A surdez acaba por afetar todos os relacionamentos da nossa vida, e por experiência própria – e também após quase dez anos escrevendo este site – devo dizer que a família é quem mais sofre e precisa de adaptações e muito diálogo.

Mais do que querer ser um membro produtivo da sociedade, a pessoa com deficiência auditiva deve querer ser um membro produtivo da sua própria família. As perdas que a deficiência auditiva causa nos relacionamentos podem ser irreversíveis se os envolvidos fingem que nada está acontecendo.

Existe uma diferença brutal entre efetivamente precisar de ajuda e não se esforçar para fazer as coisas sozinho. Se você pode se comunicar melhor com os seus usando a tecnologia, porque não fazê-lo? Isso é uma demonstração não só de amor e carinho, mas de respeito e consideração com aqueles que se importam conosco.

Eu sei (bem) que às vezes nos focamos tanto em como nos sentimos por causa da surdez que nem paramos para pensar em como aqueles que amamos se sentem. A função deles não é só ‘aceitar, aguentar e compreender‘. Imaginem como seria se cada vez que você disser ‘não estou a fim de usar meu aparelho auditivo’ seus parentes responderem ‘e nós não estamos a fim de repetir as coisas dez vezes’.

O mundo, infelizmente, não gira em torno daqueles que não ouvem, lamento informar. A própria palavra acessibilidade diz respeito a dar a uma pessoa as ferramentas necessárias para que ela seja independente, não? Podemos fazer o seguinte paralelo: imaginem se uma pessoa que usa cadeira de rodas dissesse ‘hoje não estou a fim de usar minha cadeira, vocês tratem de me carregar no colo’. Seria um choque, não? E por que não é um choque quando alguém que é ajudado a ouvir por aparelhos auditivos se recusa a usa-los?

Depois de quase cinco anos como usuária de implante coclear pude compreender melhor tudo o que causei de ruim aos meus relacionamentos familiares pela minha relutância de encarar a surdez de frente durante tantos anos.

Transformei a família inteira em robôs condicionados a servir à minha deficiência auditiva sem perceber. Hoje fico feliz de ver que todos voltaram a ter o comportamento que sempre deveriam ter tido se eu tivesse me esforçado mais para ouvir quando podia usar meus aparelhos auditivos para isso.

Ouvindo artificialmente me tornei uma ‘ouvinte’ que quase não tem paciência com aqueles que tiveram 32 anos de paciência incondicional comigo.

Por isso, se me permitem, reforço o que já disse: prestem extrema atenção às perdas que a perda auditiva causa nos nossos relacionamentos quando fingimos que ela não existe. Esse não é um problema que se varre para debaixo do tapete pois ele não desaparece sozinho. Tenha com os outros o respeito que gostaria que eles tivessem com você.  🙂

Pensei em algumas problemáticas bem comuns, me digam se concordam comigo e complementem aquelas que esqueci, por favor.

Irmãos

  • O irmão ouvinte acaba quase sempre deixado um pouco de lado, afinal, ele ouve
  • O irmão ouvinte acaba tomando para si a responsabilidade proteger o irmão surdo
  • Os pais colocam no filho ouvinte uma carga de responsabilidade exagerada
  • O irmão ouvinte acaba sendo também melhor amigo, intérprete, babá, protetor e não dá atenção à sua própria vida
  • O irmão que não ouve acaba se acomodando no papel de ser aquele que precisa de ajuda e não faz grande esforço para interagir sozinho com outras pessoas

Pais

  • Proteção excessiva com o filho surdo
  • Tom de voz fica mais alto e nem percebem
  • Agressividade desnecessária com estranhos que falam sobre a deficiência do filho
  • Falta de cuidado com a própria vida por viverem em função do filho que não escuta
  • Casal pode se distanciar por ficar tão centrado no problema do filho
  • Filhos com deficiência auditiva podem criar uma relação de eterna dependência dos pais quando não são forçados a se virar sozinhos
  • Pais não conseguem cortar o cordão umbilical nem mesmo quando os filhos já são adultos

Cônjuges

  • Quando o cônjuge que não ouve finge que o problema não existe, é um fardo muito pesado para o cônjuge ouvinte
  • Comunicação do casal fica comprometida
  • Vida social do casal começa a desaparecer
  • Vida sexual é afetada (retração/vergonha do cônjuge que não ouve; fazer sexo usando AASI e IC não é tarefa das mais simples, é preciso jogo de cintura e bom humor)
  • Marido/esposa de repente se vê na condição de pai/mãe daquele que não ouve
  • Cônjuge ouvinte vive angustiado por medo das situações perigosas que o cônjuge surdo pode enfrentar no dia-a-dia
  • Intimidade prejudicada: acabam os sussurros ao pé do ouvido, acaba a espontaneidade nas declarações de amor
  • Frustrações são despejadas sem dó nem piedade naquele que ouve
  • Os amigos e colegas relatam para o ouvinte as situações bizarras/vergonhosas na qual o cônjuge surdo se envolve – como conversar com ele sobre isso?
  • Quando a pessoa se nega a usar AASI/IC por teimosia está colocando responsabilidade extra nos ombros daquele que ouve
  • Eterno ‘pisar em ovos’ quando a pessoa que não ouve vive em negação

Colegas de trabalho

  • O colega que não ouve às vezes acaba sendo ‘poupado’
  • Colegas ouvintes precisam estar sempre ‘salvando’ o que não ouve
  • DA que deveria usar AASI e não usa por teimosia no trabalho está prejudicando suas perspectivas profissionais
  • Quando é uma empresa que utiliza demais o telefone o DA fica eternamente dependente dos favores de algum colega
  • Chefia percebe nitidamente se o DA está empenhado em se adaptar à sua nova condição ou se está acomodado no papel de coitadinho
  • O DA que usa AASI mas morre de vergonha do fato causa constrangimento no local de trabalho – esse fato deve ser tratado com naturalidade pelo próprio DA

Amigos

  • Isolamento
  • Falta de interação = piora significativa na qualidade das relações de amizade
  • Os amigos não sabem como ajudar pois o DA não explica – as pessoas não são videntes ou sensitivas
  • Quando o DA não conta que não ouve, muitas vezes os amigos acham que ele se tornou um mal educado/esnobe do dia para a noite
  • Cuidar para não transformar um amigo ouvinte em bengala emocional, mesmo sem a intenção de fazer isso

Filhos

  • Esperar que os filhos se tornem pais dos próprios pais
  • Sem perceber, ‘escravizar’ uma criança/adolescente que deve ter vida própria
  • Incutir culpa constante nos filhos, eles não têm culpa se você não ouve e não devem ser massacrados por isso
  • Esperar ajuda e presença constante dos filhos
  • O que você ensina para seu filho quando mostra a ele que sente vergonha da sua própria deficiência?

E aí, o que vocês acham? Concordam? Têm algo a acrescentar? Penso que nós devemos assumir nossa responsabilidade perante a nossa surdez para minimizar todos os danos que ela causa e pode causar aos nossos relacionamentos. Afinal, se queremos tanto ouvir, é para nos comunicarmos e nos relacionarmos melhor com as pessoas à nossa volta, não?

40 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

2 Comentários

  • Bem legal esses comentários e esclarecedor com certeza. Tenho aprendido sobre perda auditiva!

    #God bless you!

    Abraços para todos!

  • Meu ponto de vista.
    O mundo não tem estadistas dispostos a ouvir. Para os poderosos, o silêncio dos comandados é a vitória da arrogência, truculência e demonstração de poder. Nada é feito para dar voz a ninguém. Assim, não se desenvolve metodologia para ensino e aprendizagem de pessoas surdas. E para piorar o campo de lutas, surgem os piores surdos, que são aqueles que não querem ouvir de modo algum.

    Por falta de investimentos, não há divulgação dos malefícios que a superproteção provoca em quem é surdo. A pessoa se sente como inválida e assim alimenta a segregação.

    Triste, mas é verdade, a familia, por não ter conhecimento do quanto é prejudicial não permitir que o surdo se mova na direção do que lhe agrada e faz a diferença no aprender, produzir e consumir, e essa é a correne da vida.

    Estamos agora no treinamento de surdos” Surdos na Supervisão” No inicio, foi um susto para todo mundo, como assim? Surdos supervisionar? Pois então, os candidatos ao curso, para duas vagas, são maiores de 25 anos, profissionais experiêntes em logistica, e após o curso, cada um irá comandar equipes de 5 a 10 surdos em pesquisas de produtos, preços, prazos de entrega, recebimento e despachos de mercadorias.

    Capacitando-se, valorizando-se, a pessoa surda se desperta para o desenvolvimento de materiais e ferramenas que melhoram sua performance em suas atividades.

    O lema é, não basta ser capaz, tem que se desenvolver. Cumpre aos de fora, avaliar e valorizar com retidão todos que se revelam vencedores em suas atividades.

    Um por todos e todos por um!

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