Deficiência Auditiva Histórias dos Leitores

A surdez unilateral e seus desafios: a história da Ana

“Se eu pudesse definir esta peculiar condição chamada surdez unilateral, com a qual convivo desde sempre, a palavra seria INTANGÍVEL (imaterial, impalpável, incorpóreo, etéreo). Como assim? Flashback.

Situação 1: Telefone tocando

Corro para atender. Posiciono o aparelho, e….nada! Mas não tenho consciência (ainda) de que era para ter escutado algo…. Mais tarde, o telefone toca novamente, e desta vez, por acaso, coloco o telefone na outra orelha, e….bingo! A conversa é entabulada. Naturalmente…  Devia ser assim com todo mundo…. Devia ser….Mas, não! Ainda criança, percebi que não era assim ao ver que minha mãe usava o fone ora de um lado, ora do outro, e conversava sempre. Mas como ela conseguia aquilo? Ficava encafifada. Então, enquanto eu contemplava aquele quadro, tive um “insight”. Algo em mim era diferente. Pelo menos, diferente dela…

     Situação 2: A professora grita meu nome na hora do recreio

No meio de um monte de vozes embaralhadas. Faço esforço para compreender todas as palavras da frase (o que consome tempo), e para descobrir de onde a professora me chama (o que também consome tempo).  Sinto uma tensão no ar. Sensação péssima.  Climão…

     Situação 3: Esporte coletivo na aula de educação física

Uma companheira de time grita um comando. Localizar a origem do som? Com um único ouvido, impossível. Saber em que posição da quadra ela está? Esquece. Tudo no “timing” da partida. Estressante demais…

    Situação 4:  Sempre tem alguém querendo contar um segredo ao pé do ouvido

Só, que do lado errado. Ai! Uma mistura de curiosidade e constrangimento. Vida que segue….

Sou considerada surda? Não! Ouvinte?! Não! Tenho dificuldades intelectuais?! Não! E agora, José?

Nessa altura dos acontecimentos, tornou-se impossível ignorar a dimensão da minha condição, suas implicações, repercussões…. Comigo, essa percepção de que alguma coisa estava MUITO errada aconteceu durante a infância, (o que não é comum) e tudo ficou muito mais assustador. Eu não tinha a menor ideia do que fazer, não sabia se tinha feito algo errado e também não possuía, àquela época, recursos psíquicos e linguísticos para apreender e comunicar a situação de forma precisa.

Nebulosidade pura…Foi uma fase bem esquisita, de interiorização. Precisava absorver aquela realidade. Entender como ela impactaria a minha vida. Mas só conseguia ler e me distanciar. Passava praticamente todo meu tempo livre do colégio na sala de leitura. Foi libertador! Até hoje, quando leio, revivo esta sensação de conforto.

Comecei a ler de tudo, a sentir uma grande curiosidade por todo tipo de narrativa… Um imenso prazer mesmo (o que foi um golpe de sorte) e embora o objetivo inicial tenha sido tão somente fugir daquela mistura de vozes que surgiam dos lugares mais improváveis, o hábito da leitura logo se firmou como uma estratégia das mais acertadas. Percebi que ampliando meu leque de interesses, e usando outras formas de comunicação, (literatura é um meio elaborado de interação) ficava menos focada em atividades que envolviam “ouvir”, e assim “escutava” mais (ansiedade sempre dificulta tudo).

Também ficou claro que com um vocabulário maior, processava de forma mais eficiente o que “ouvia”, contextualizava melhor o assunto e precisava pedir menos vezes que repetissem o que havia sido dito, já que isso também acontece por desconhecimento do vocábulo ou do tema (E não dá para queimar cartucho à toa!). Mas, sem sombra de dúvida, o divisor de águas, o que realmente definiu o rumo das coisas, foi a mudança de paradigma em relação à deficiência. Passei a encarar a surdez unilateral como uma experiência, não como uma cruz.

Com o correr dos anos, fui consolidando e aperfeiçoando minhas estratégias e habilidades a tal ponto, que elas se tornaram automáticas. O posicionamento espacial, as situações que eu precisava evitar, e caso não fosse possível, como me proteger e me defender…. Enfim, vivendo….

Há alguns anos, houve uma mudança significativa na conduta médica em relação à surdez unilateral. Já existe uma clara compreensão dos prejuízos envolvidos e dos benefícios do tratamento. Novas tecnologias vão se desenvolvendo e algumas já estão a nossa disposição. Show! Agora, estou me entendendo com o sistema de envio contralateral de sinais (CROS), reajustando minhas estratégias e revendo minha perspectiva. Mas desta vez, está sendo MUITO divertido!”

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Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

6 Comentários

  • Parabéns Ana me endentifiquei com a sua história pois é igual a minha ,eu perdir a minha audição devido a meningite bacteriana que tive com 3 anos de idade aí foram 3 cirurgias que fiz do lado esquerdo onde tenho só 75 dB audiçao mas sempre fiz acompanhamento médico e audiometria mas nunca fiz esse exame chamado bera e com o passar dos anos o meu ouvido direito que era bom agora já não está mais tenho perfuração do lado direito e sinto muito estragos atrás das orelhas e agora vou fazer uma tc temporais para ver como estar a minha cirurgia e o lado direito também ,mas tenho convênio médico será que consigo fazer esse implante coclear eu vou poderia voltar a ter alegria para viver

  • Cara Ana , muito bacana seu texto sobre a condição de surdez unilateral. Minha filha quando tinha 6 anos ( agora tem 11) teve a perda auditiva do ouvido direito . Desde então vimos pesquisando sobre o “tratamento” mas sempre ficamos indecisos devido a falta de “comprovação ” sobre os benefícios e a adaptação . Se puder entrar em contato para nos contar sua experiência será muito legal . Muito Obrigado !

  • Parabéns pelo seu trabalho ,está me ajudando a superar a minha ansiedade quanto ao ouvir minha filha conversando comigo ,bom isso ainda não aconteceu mas espero q em breve aconteça .

  • Linda e emocionante história. Parabéns pra vc Ana. Tinha que ser para ser assim guerreira e admirável
    #Muito sucesso para vc em sua caminhada!

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